Críticas a Bolsonaro dominam discussão no Twitter sobre discurso na ONU

Por Milena Mangabeira, Débora Ely e Bernardo Barbosa

24 de setembro de 2020, 12h19


Perfis críticos ao presidente Jair Bolsonaro (sem partido) dominaram a discussão no Twitter sobre o discurso do presidente na Assembleia Geral da ONU, na terça-feira (22), mostra análise do Radar Aos Fatos feita a partir de dados coletados em parceria com o Labic-Ufes (Laboratório de Estudos sobre Imagem e Cibercultura da Universidade Federal do Espírito Santo).

A coleta identificou que 183.690 usuários interagiram, gerando 597.297 retweets publicados durante toda a terça-feira.

Foi possível identificar três grandes grupos de discussão, ilustrados na imagem abaixo:

Somados, os dois grupos críticos (azul e vermelho) reuniram cerca de 75% dos posts sobre o discurso de Bolsonaro, contra pouco mais de 20% dos posts reunidos no grande grupo que elogiou e defendeu o presidente (verde). O restante dos tweets ficou pulverizado entre grupos menores.

O grafo foi construído a partir de um algoritmo que agrupou perfis de acordo com a similaridade do discurso e o padrão de compartilhamento de conteúdo. Cada conjunto possui atores que tiveram maior ou menor impacto na rede. Quanto maior o nó, mais retweets aquele ator recebeu e, consequentemente, mais presença na rede.

Grupo azul (41,28% dos tweets)

Este foi o maior grupo no Twitter na discussão sobre o discurso do presidente. Uma análise dos 100 tweets mais compartilhados na rede azul mostra que 44% deles reprovaram os dados apresentados por Bolsonaro e o acusaram de disseminar desinformação.

Entre os integrantes deste grupo, Bolsonaro foi acusado de tentar jogar a responsabilidade pelo controle da pandemia e das queimadas na Amazônia e no Pantanal para outros atores da sociedade. O tweet mais compartilhado do grupo azul, publicado pelo deputado federal Marcelo Freixo (PSOL-RJ), abordou este tema:

A postura do presidente diante da comunidade internacional, com falas direcionadas ao seu eleitorado, também foi alvo de críticas. Mensagens desse tipo, como esta do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), tiveram 20% de presença na rede azul:

A imprensa também teve peso relevante neste grupo — 13% dos tweets mais retuitados foram de veículos como o Aos Fatos, The Intercept Brasil, Estadão e O Globo.

Outros temas como cristofobia e humor, respectivamente, tiveram 15% e 7% de ocorrências.

A fala do presidente sobre o auxílio emergencial também foi alvo de críticas. Bolsonaro afirmou ter distribuído pelo menos US$ 1.000 para cada brasileiro beneficiado pelo programa de renda provisório, o que foi questionado pela imprensa e por usuários da rede social.

Grupo vermelho (34,23%)

No grupo vermelho, a crítica à menção de Bolsonaro à “cristofobia” foi o tema mais presente nos 100 posts mais retweetados, aparecendo em 37% deles.

Também apareceram com frequência tweets em que Bolsonaro é acusado de propagar desinformação na ONU (30%), geralmente associados a críticas aos trechos do discurso sobre o auxílio emergencial (assunto de 24% dos posts analisados), queimadas (19%) e indígenas (13%). Mais de um assunto pode ter aparecido em um mesmo tweet.

Como o Aos Fatos mostrou na checagem do discurso de Bolsonaro, o presidente deu declarações falsas sobre o fogo na Amazônia e fez uma afirmação insustentável sobre o suposto envolvimento de indígenas com as queimadas.

Todos os 100 tweets analisados dentro deste grupo apresentaram críticas ao discurso de Bolsonaro na ONU, e quase metade deles (41%) o fez usando o humor — ou seja, uma crítica por meio de um meme ou de um texto irônico, por exemplo.

Grupo verde (20,97%)

O grupo verde se caracteriza pelo apoio a Bolsonaro e teve como destaque mensagens em defesa ao discurso do presidente — 58% dos 100 tweets analisados. Desse universo, a mensagem que mais repercutiu foi um tweet do usuário @taoquei1:

Nessas mensagens, também houve ataques à pressão internacional pela preservação do meio ambiente, à OMS (Organização Mundial da Saúde) e ao “globalismo”, como demonstra esse tweet do colunista Rodrigo Constantino.

No grupo verde, sobressaíram-se também as mensagens de apoio à menção do presidente à suposta “cristofobia” no discurso à ONU. Entre as publicações, 15% endossaram a denúncia de que há preconceito contra as religiões cristãs.

O conteúdo que mais repercutiu sobre este tema foi uma publicação do assessor especial da Presidência da República para Assuntos Internacionais, Filipe Martins.

Na tônica da repercussão da rede bolsonarista, destacaram-se ainda as críticas a quem repreendeu a declaração de Bolsonaro sobre o auxílio emergencial (9%). Um tweet de Constantino foi o que teve o maior número de interações:

Links mais compartilhados. Entre todos os tweets, o link para o discurso no YouTube figurou como a URL mais compartilhada. O canal oficial do presidente no YouTube foi difundido em 6.130 publicações.

Em seguida, o portal UOL Notícias aparece com 1.019 compartilhamentos com a notícia “Organização aponta 'mentiras' em discurso de Bolsonaro na ONU”, sobre a checagem feita pelo Observatório do Clima em relação ao compromisso do governo brasileiro com a preservação do meio ambiente. E com 902 compartilhamentos, a análise dos comentaristas do programa 3 em 1, da Jovem Pan, com destaque para a fala de Rodrigo Constantino, figura em terceiro sob o título “Constantino: ‘Bolsonaro mostrou que Brasil tem um presidente que não se curva’”.

Referências:

1. Aos Fatos

2. YouTube Jair Bolsonaro

3. UOL

4. Jovem Pan

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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