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Crise das manchas de óleo no Nordeste ocupou só 10% da agenda oficial de Salles

Por Amanda Ribeiro

5 de dezembro de 2019, 20h06


Maior desastre ambiental registrado no litoral brasileiro, o derramamento de petróleo nas praias do Nordeste não alterou significativamente o ritmo da agenda do ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles. Ao analisar a agenda de compromissos oficiais dele nos dois meses anteriores e nos dois posteriores à crise — entre 1º de agosto e 30 de novembro —, Aos Fatos constatou apenas sete reuniões que tratavam explicitamente das manchas de óleo: 9,3% dos compromissos, à exceção de reuniões administrativas.

Apesar de os primeiros resquícios de óleo terem sido detectados entre o fim de agosto e 2 de setembro, o ministro participou da primeira reunião sobre o caso apenas em 7 de outubro, mais de um mês depois. Entre 18 de setembro e 4 de outubro, Salles viajou, inclusive, para fora do Brasil: primeiro aos Estados Unidos, para reuniões com investidores e entrevistas a veículos de comunicação; depois, fez um giro por países europeus.

Em quatro dos sete compromissos oficiais relacionados às manchas de óleo, o ministro sobrevoou as áreas afetadas, sozinho ou acompanhado do presidente Jair Bolsonaro. Em outros dois casos, Salles reuniu-se com as instituições que coordenavam os trabalhos de contenção do petróleo, como Marinha, Ibama, ICMBio e ANP (Agência Nacional de Petróleo, Gás e Biocombustíveis). Apenas um dos eventos registrados na agenda não especifica os participantes e descreve o compromisso como “reunião de coordenação de combate às manchas de óleo nas praias de Pernambuco”.

Afora essas sete inserções na agenda, Salles teve poucas alterações em sua rotina oficial depois do desastre na costa. Excluindo compromissos administrativos, como reuniões dentro do ministério ou com outros órgãos do Executivo, pouco mais de um terço — ou 34,6% — dos eventos registrados na agenda do ministro envolveu 23 empresas e grupos ligados a atividades extrativistas.

A Shell, fabricante de combustíveis que chegou a ser vinculada ao derramamento de óleo quando alguns de seus barris foram encontrados em uma praia de Sergipe, foi uma das empresas que se reuniu com o ministro no período analisado. O encontro foi em 26 novembro, pouco mais de um mês depois de a empresa esclarecer que a embalagem havia sido reaproveitada, e, a princípio, não teve relação com os resíduos encontrados na costa.

Nesse intervalo, o ministro também se reuniu duas vezes com representantes da Whirpool, dona de marcas de eletrodomésticos como Consul, Brastemp e Kitchen Aid, e com a Volkswagen (setor automotivo) e a Bayer (farmacêutico).

Considerando os ramos de atuação dos grupos e companhias, tiveram mais representatividade na agenda os ligados a atividades de extração de madeira e minérios. Do primeiro setor, destacam-se a Indústria Brasileira de Árvores, recebida duas vezes, e representantes do setor madeireiro de Rondônia; do segundo, a anglo-australiana BHP Billiton, a britânica Anglo American e a brasileira Vale.

Agronegócio. Além de companhias e grupos econômicos, Salles reservou um terço das reuniões de sua agenda para membros da Frente Parlamentar do Agronegócio, a bancada ruralista. Conversas com deputados e senadores que atuam no segmento totalizaram 33,3% das reuniões entre os meses de julho e novembro.

Diferente dos encontros emergenciais para discussão de estratégias para conter as manchas de óleo, os compromissos com ruralistas se distribuíram de maneira praticamente uniforme pela agenda, numa média de cinco reuniões ao mês. Participaram das conversas parlamentares como Bia Kicis (PSL-DF), Marcio Bittar (MDB-AC) e Átila Lins (PP-AM).

Por fim, ocupam um espaço menor na agenda do ministro as reuniões com ONGs, grupos ambientalistas e congressistas ligados a causas ambientais. Dentre os compromissos, 24% tinha como temas a preservação e a recuperação do meio ambiente. Estão incluídos no pacote reuniões com biólogos, representantes de grupos de reciclagem e entidades de monitoramento de biomas. A maior parte deles tratavam de temas ligados à preservação da Amazônia ou à reciclagem, sem vínculo aparente com o derramamento de óleo.

A prioridade dada pelo ministro a empresas e grupos ruralistas, no entanto, não é novidade: em reportagem publicada em junho deste ano, Aos Fatos mostrou que, mesmo com desmatamento recorde, Salles tinha a maior parte de sua agenda voltada a compromissos não relacionados ao meio ambiente. À época, foi constatado que, enquanto 43,7% das reuniões previstas estavam ligadas a interesses da agropecuária, apenas 15% eram reservadas a ambientalistas.

Reação demorada. A primeira manifestação de Salles sobre o óleo na costa nordestina nas redes sociais também veio quase um mês após a detecção do desastre, que já atingiu 877 pontos do litoral: em busca na conta oficial do ministro no Twitter, Aos Fatos verificou que a primeira postagem que cita os termos “óleo” ou “petróleo” ligados ao Nordeste ocorreu no dia 5 de outubro, dois dias antes da primeira vistoria oficial nas praias atingidas.

Na publicação, Salles afirma que o presidente “determinou urgência na identificação da origem e apuração de responsabilidades pelas manchas de óleo no litoral” e que várias equipes já estariam atuando para conter o avanço das manchas.

Apesar de o óleo continuar se espalhando pelo litoral e ter alcançado, no fim do mês de novembro, a segunda praia do estado do Rio de Janeiro, os compromissos oficiais do ministro relacionados ao desastre se limitaram ao mês de outubro e ocorreram entre os dias 7 e 29. Não houve nenhuma reunião que tratasse explicitamente sobre o tema no mês de novembro. Também se restringem a outubro as postagens sobre o caso no Twitter.

Em uma das atualizações feitas em sua conta oficial, Salles publicou uma imagem da embarcação Esperanza, do Greenpeace, acompanhada de uma legenda que sugeria algum tipo de participação da ONG no desastre ambiental. “Tem umas coincidências na vida né... Parece que o navio do #greenpixe estava justamente navegando em águas internacionais, em frente ao litoral brasileiro bem na época do derramamento de óleo venezuelano…”. Em resposta ao ataque, o Greenpeace anunciou que acionaria a Justiça contra o ministro.

Outro lado. Procurado por Aos Fatos na última segunda-feira (2), o Ministério do Meio Ambiente não respondeu até a publicação da matéria. Com a auxílio de ferramenta que rastreia recebimento e leitura de e-mails, foi possível constatar que a mensagem foi lida no ministério poucos minutos após o envio.

Referências:

1. G1
2. Shell
3. Aos Fatos
4. Veja
5. O Globo
6. Estadão