Criminosos roubam imagens de crianças doentes para aplicar golpes pelo Facebook

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“Senhor Jesus, renove a minha fé, fortaleça o meu coração. Não está sendo fácil, mas eu não vou desistir”, diz o vídeo que pede doações para Isabela, portadora de epidermólise bolhosa, doença de pele que atinge cerca de mil pessoas no Brasil. Apesar de a história da menina ser verdadeira, sua imagem tem sido usada por criminosos para criar páginas falsas e aplicar golpes em pessoas que se sensibilizam com o caso.

Por cerca de um mês, Aos Fatos monitorou anúncios fraudulentos promovidos no Facebook que alcançam milhares de pessoas por dia. Foram identificados ao menos dois CPFs, além de uma rede de sites que aplicam golpes de falsas “vaquinhas” com o pretexto de arrecadar recursos para o tratamento de crianças com doenças raras.

Imagem mostra quatro capas de perfis no Facebook de falsas organizações sociais que prometem arrecadar fundos para o tratamento de crianças doentes.
Páginas que imitam associações filantrópicas roubam a imagem de crianças doentes para aplicar golpes (Reprodução/Facebook)

A reportagem analisou 30 anúncios, impulsionados por 15 páginas diferentes no Facebook. De acordo com especialistas, os criminosos incorrem em crimes como estelionato e falsidade ideológica, além de violações aos direitos da criança e do adolescente previstos no ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente).

A seguir, o Aos Fatos explica as estratégias usadas pelos golpistas:

  1. Falsificação de organizações beneficentes
  2. Vídeos manipulados por inteligência artificial
  3. Sites enganosos
  4. Falsos laudos

Falsificação de organizações beneficentes

Mais da metade dos anúncios identificados — 16 entre 30 — direcionavam as doações para um CPF que funcionava como chave Pix. Os dados bancários eram de uma suposta organização chamada Associação Divina Doação. Os pedidos de ajuda que compartilhavam essa chave Pix usavam fotos e vídeos de crianças com diferentes problemas de saúde.

Além de Isabela, os golpistas pediam doações em nome de Davi, Maria Eduarda, Eliza, Ana e Maria. As imagens das crianças eram replicadas por várias páginas diferentes — um indício de ação coordenada. Os mesmos anúncios fraudulentos apareceram em pelo menos cinco perfis:

  • Instituto Amor e Solidariedade;
  • Instituto Amor e Vida;
  • Instituição Amor e Vida;
  • Instituto Amor e Vida Brasil;
  • ONG Coração Amigo.

Em busca no Mapa das OSC, do Ipea, Aos Fatos encontrou registros de associações com os nomes Divina Doação, Amor e Vida e Coração Amigo. Em suas páginas oficiais, no entanto, nenhuma delas compartilhava campanhas de arrecadação para crianças doentes.

Associação Divina Doação. Há uma organização com o mesmo nome em Ananindeua (PA). Nas redes, ela se apresenta com a missão de “levar alimento e esperança” para pessoas em situação de vulnerabilidade, mas sem qualquer indicativo de que atuam em prol de crianças com doenças raras.

Aos Fatos tentou entrar em contato com a página oficial da instituição, mas não houve retorno.

Instituto Amor e Vida. A reportagem identificou uma organização com o mesmo nome, situada em Campinas (SP), que promove ações voltadas para pessoas com câncer. O logotipo é similar ao usado pelas páginas golpistas.

A reportagem encontrou ao menos oito perfis falsos com o nome da instituição que pediam doações. Há ainda outra página com nome similar, o Instituto Amor e Solidariedade, que também compartilhava anúncios enganosos.

Entre março e abril deste ano, o Instituto Amor e Vida publicou nas redes denúncias (veja aqui, aqui e aqui) de que criminosos estavam usando sua identidade visual para aplicar golpes.

A reportagem entrou em contato com o Instituto Amor e Vida por telefone e por email. Em nota, a instituição informou que “não realiza ‘vakinhas’ nem expõe seus atendidos em campanhas online” e que a manutenção do trabalho social é feita com “doações espontâneas, feitas de forma segura, ética e com total respeito à dignidade das pessoas” assistidas.

A organização ainda afirmou que, apesar de ter realizado diversas denúncias, as páginas falsas e anúncios fraudulentos continuam surgindo.

ONG Coração Amigo. Aos Fatos também encontrou uma organização chamada Associação Beneficente Coração Amigo, que atua em São Paulo com ações que promovem assistência social e fortalecimento de vínculos familiares e comunitários.

Em março deste ano, a ONG também publicou nas redes que estava sendo vítima de golpistas que usavam sua identidade para pedir doações. O Aos Fatos tentou contato por telefone e por email com a instituição, mas não obteve respostas até o momento.

Vídeos manipulados por inteligência artificial

Ainda que compartilhem situações reais de crianças diagnosticadas com condições raras de saúde para roubar o dinheiro de doações, a maior parte dos vídeos golpistas foi manipulada por IA.

Os anúncios que usam a imagem de Isabela, por exemplo, substituíram sua fala por um texto narrado por uma voz de aspecto artificial. Também é possível notar um movimento incomum nos lábios da menina, típico de conteúdos criados com IA.

Os vídeos originais, depois alterados, foram retirados dos perfis oficiais da menina nas redes, onde já foram publicados alertas sobre golpes.

Por mensagem, Antonia Rafaela Andrade da Silva, mãe da menina, afirmou para o Aos Fatos que já registrou dois boletins de ocorrência na Polícia Civil e fez uma denúncia no Ministério Público, mas não conseguiu fazer com que os conteúdos fossem removidos da plataforma da Meta.

“Há um ano estamos sendo vítimas desses golpistas”, lamentou Antonia Rafaela, que afirmou que, mesmo após denúncias, a Meta removeu apenas alguns anúncios. “Tudo o que estava ao meu alcance foi realizado”, disse. Ela ainda explicou que ficou sabendo dos anúncios falsos pelos seus seguidores, que estranharam as mensagens apelativas e a voz distorcida de Isabella.

Outro anúncio, que usa a história de Ana — menina que supostamente sofre com epidermólise bolhosa —, insere no início do vídeo um trecho fabricado do Jornal Nacional com uma fala da apresentadora Renata Vasconcellos e o relato manipulado de um médico. Na sequência, os criminosos usam IA para gerar um registro em que a menina implora por ajuda.

Ao contrário das peças que usam cenas de crianças reais, o rosto de Ana não existe. Ela é uma menina que teve sua identidade gerada por inteligência artificial. Aos Fatos não conseguiu identificar o vídeo original que foi editado.

Essa e outras publicações que usam vídeos manipulados para aplicar golpes já foram desmentidas pelo Aos Fatos e por outras organizações de checagem em diversas ocasiões (veja aqui, aqui e aqui).

Sites enganosos

Os anúncios fraudulentos também direcionam usuários a páginas falsas que simulam plataformas de doação, como a Vakinha e a Voaa. Ao analisar o código-fonte, Aos Fatos encontrou elementos que mostram que as páginas falsas foram criadas a partir de um modelo, que pode ser facilmente replicado pelos criminosos.

Em um trecho do código, por exemplo, há um simulador para fazer crer que os valores doados estão crescendo em tempo real. Há também uma linha que define o nome da ação como “Vakinha do Amor Pet”, o que denota que a página pode ter sido usada também para roubar dinheiro de doações destinadas a animais.

Imagem mostra linhas do código-fonte da maioria das páginas falsas identificadas pelo Aos Fatos, entre elas a de um simulador automático de doações entre quatro e doze segundos para fazer crer que valores estão sendo doados em tempo real
No código-fonte das páginas falsas há um script para simular que doações estão sendo feitas em tempo real em um intervalo de quatro a doze segundos (Reprodução)

Aos Fatos procurou a Vakinha e a Voaa para comentar sobre o caso, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem. Em seus respectivos perfis nas redes, as duas empresas alertam que são vítimas de golpes com frequência.

Falsos laudos

Outros dois anúncios usam os nomes de crianças que teriam sido diagnosticadas com câncer no abdômen: Marquinhos e José Otávio. Para garantir verossimilhança à história, os vídeos golpistas também compartilham laudos assinados por médicos que não existem.

De acordo com os posts, Marquinhos teria sido acompanhado pelos médicos Ricardo Alves Fernandes, oncologista pediátrico, Mariana Dutra Campos, cirurgiã pediátrica, e Lucas Torres Albuquerque, radiologista especialista em imagem pediátrica — todos com registros de classe no conselho do Mato Grosso.

No entanto, a reportagem constatou que os registros profissionais informados no relatório médico não correspondem aos nomes indicados no documento, tampouco às especialidades. O mesmo acontece com os supostos médicos que diagnosticaram José Otávio, que teriam registro em Minas Gerais.

Imagem mostra nomes e assinaturas falsas em supostos laudos médicos
Aos Fatos identificou nomes e assinaturas falsas em supostos laudos médicos apresentados pelos golpistas (Reprodução)

Como é possível ver acima, até mesmo a assinatura dos dois supostos médicos responsáveis pelos laudos, Lucas e Ricardo, são idênticas — o que reforça que os documentos foram falsificados.

Quem opta por fazer doações nos dois casos é direcionado a uma chave Pix destinada a uma mesma pessoa, Marcelo Dimas Caetano. Caetano não aparece como pai ou responsável por nenhuma das crianças nas histórias contadas nos anúncios impulsionados.

Imagem mostra uma parte de um dos sites golpistas identificados pelo Aos Fatos. Nela é possível ver três fotos de uma criança de pele negra com o abdômen inchado e um texto que diz: ‘Campanha para apoiar Marcelo Dimas, sua solidariedade é a chave para a vitória da luta contra o câncer.
Golpistas usam fotos de crianças africanas doentes para fazer crer que são brasileiras

O proprietário da chave Pix ainda dá nome a outra criança acometida por um suposto câncer na barriga. Por meio de busca reversa, Aos Fatos verificou que o menino que aparece nas publicações golpistas foi retirado de uma página no Instagram de um orfanato em Uganda, que cuida de crianças abandonadas e com deficiência (veja aqui e aqui). Marcelo Dimas Caetano não foi localizado pela reportagem.

Consequências criminais

Especialistas consultados pelo Aos Fatos apontaram que os golpistas incorrem em ao menos cinco crimes ou violações legais:

De acordo com o advogado criminalista Rafael Paiva, os responsáveis pelo crime podem ser condenados a cumprir a pena máxima prevista no Código Penal pelo crime de estelionato por produzir duas ou mais vítimas — por exemplo, a criança que teve a imagem usada indevidamente e o doador que sofreu o golpe financeiro.

A orientação dos especialistas para pessoas que foram lesadas pelos golpistas é, primeiramente, fazer um boletim de ocorrência — preferencialmente em uma delegacia especializada em crimes cibernéticos. Depois, é importante denunciar os anúncios diretamente à plataforma que veiculou as peças e relatar o caso ao Ministério Público.

Também é possível tentar reaver o dinheiro perdido acionando o banco emissor que, em alguns casos, consegue bloquear a transação ou a conta do destinatário. Os especialistas ainda indicam que a vítima pode ingressar com uma ação judicial contra o responsável pelo CPF beneficiado pelas doações — quando a informação é disponibilizada —, requerendo restituição do valor e eventuais danos morais.

O que diz a Meta? O Aos Fatos entrou em contato com a Meta e questionou sobre o uso da ferramenta de anúncios da empresa para aplicar golpes financeiros com a imagem de crianças doentes. Em nota padrão, a Meta afirmou que a plataforma não permite “atividades que tenham como objetivo enganar, fraudar ou explorar terceiros” e orientou a denúncia de publicações que violem os Padrões da Comunidade.

Mesmo após a reportagem enviar para a Meta uma lista de vídeos adulterados usados nos anúncios e que estavam ativos até a última sexta-feira (1), nenhum deles foi removido.

O caminho da apuração

Aos Fatos investigou por mais de um mês publicações impulsionadas na plataforma da Meta que usavam a imagem de crianças com doenças raras para pedir doações. A partir de simulações de doações e análises dos códigos-fonte das páginas redirecionadas pelos anúncios, identificamos padrões de golpes financeiros.

A reportagem também buscou em bancos de dados abertos informações sobre associações beneficentes, e constatou que algumas delas tiveram seus logotipos roubados por golpistas.

Buscamos ainda contato com familiares das crianças que tiveram suas imagens usadas pelos estelionatários. A mãe de uma delas afirmou ter tomado todas as medidas judiciais possíveis. Plataformas de doação que tiveram sua identidade visual clonada pelos golpistas também foram procuradas, mas não responderam.

A Meta foi acionada pela reportagem para comentar sobre golpes que usam a plataforma com anúncios enganosos e respondeu com uma nota.

Aos Fatos não conseguiu localizar números de telefone, email ou redes sociais de Marcelo Dimas Caetano. Contudo, entramos em contato com uma advogada que defendeu Caetano em um processo na Justiça de Minas Gerais, mas ela não soube informar o telefone dele.

Referências

  1. Ministério da Saúde
  2. Debra Brasil
  3. TikTok
  4. Ipea
  5. Instagram (Divina Doação)
  6. Facebook (Instituto Amor e Vida) (1 e 2)
  7. Instagram (Instituto Amor e Vida) (1 e 2)
  8. Instituto Amor e Vida
  9. Faceboo (Associação Beneficente Coração Amigo) (1 e 2)
  10. Facebook (Eb Isabella) (1 e 2)
  11. Aos Fatos
  12. Uol Confere
  13. Boatos.org
  14. Instagram (God's Plan Orphanage Centre) (1 e 2)
  15. Planalto (1, 2, 3 e 4)
  16. TJDFT
  17. Meta

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