Na corrida para a instalação de data centers voltados para a inteligência artificial, prefeituras brasileiras fecharam acordos com empresas que apresentaram problemas de documentação e tomaram decisões antes mesmo de ver os estudos sobre os impactos ambientais. Os projetos ainda repetem a cartilha desinformativa aplicada em toda a América Latina de realizar promessas de emprego e investimento que dificilmente serão cumpridas.
Caucaia (CE), Eldorado do Sul (RS), Maringá (PR) e Uberlândia (MG) são cidades que anunciaram recentemente investimentos pomposos no setor, mas agora enfrentam questionamentos judiciais e administrativos que colocam em dúvida a viabilidade das iniciativas.
Duas prefeituras, por exemplo, fecharam um acordo com a empresa RT-One que, em 2024, fingiu ser parceira da Intel para assinar uma carta de intenções com o governo do Distrito Federal para a instalação de um data center em Brasília. Um dos sócios da empresa ainda se passou por vice-presidente da Intel durante a assinatura.
O MPF (Ministério Público Federal) e órgãos estaduais também investigam os projetos por falta de transparência e omissões sobre os impactos hídricos e elétricos nas regiões onde serão instalados.
Contradições na biografia
Apesar de estarem a cerca de 700 km de distância uma da outra, Uberlândia (MG) e Maringá (PR) abrigarão data centers da mesma empresa: a RT-One. Os projetos apontam instalações que chegarão a 400 MW de capacidade — mas que, nas fases iniciais, serão limitadas a 100 MW.
Apesar de se autointitular uma “multinacional”, Aos Fatos não identificou nenhum data center da RT-One em outro país. No site oficial, são destacados apenas os dois empreendimentos que ainda não saíram do papel (veja abaixo).

Os próprios prefeitos anunciaram os projetos como a chegada de uma multinacional nas suas respectivas cidades. Paulo Sérgio (PP-MG), prefeito de Uberlândia, em publicação em julho de 2025, por exemplo, disse que o projeto consolida a chegada da “norte-americana RT-One, um marco para o desenvolvimento da nossa cidade”.
A RT-One, no entanto, é registrada desde dezembro de 2024 em São Paulo, na Vila Ipojuca. No mesmo local, até 2021, funcionava uma empresa de importação de eletrônicos chamada Gamernuc. O CEO da RT-One, Fernando Palamone, também era sócio-administrador da Gamernuc.
No LinkedIn, Palamone diz que ocupou cargos de chefia em diversas empresas internacionais, como JSR North America, PDF Solutions e Citrix. Seu último emprego antes de fundar a RT-One teria sido o de COO (Chief Operating Officer, o equivalente a diretor de operações) e vice-presidente da Intel, onde teria trabalhado entre 2022 e 2024. Essa informação está incorreta, segundo Aos Fatos apurou junto à empresa:
“As informações apresentadas em seu perfil no LinkedIn referente ao seu tempo como empregado da Intel superestimam e alteram seu cargo e responsabilidades. Ele não é COO da Intel Corporation e nunca ocupou esse cargo”, explicou a assessoria da Intel, em nota enviada ao Aos Fatos.
A multinacional ainda disse que processou a RT-One em 2024 após um episódio envolvendo outro data center:
- Em agosto daquele ano, o governo do Distrito Federal anunciou que teria assinado uma carta de intenções com a Intel para a instalação de um centro de dados na capital federal;
- Mas a Intel não participou da negociação. Segundo a assessoria da empresa, a multinacional teria sido falsamente representada por Palamone, que se apresentou como COO e VP da Intel, o que ele nunca foi;
- No acordo, a Intel (representada falsamente por Palamone) dizia que a parceira local seria a RT-One, representada, naquele momento, por Ricardo Pimentel, outro sócio da RT-One;

- A Intel disse que, ao saber do ocorrido, “tomou as medidas legais cabíveis para cessar o uso indevido do nome da empresa, evitar a disseminação de informações falsas e proteger a reputação da empresa”.
Em nota enviada ao Aos Fatos, a RT-One disse que "não tem conhecimento" dessas alegações e reafirmou que "a companhia atua com elevados padrões de integridade, transparência e responsabilidade corporativa".
Aos Fatos questionou o governo do DF para saber em que pé estaria o projeto e se o acordo estava mantido, mas não obteve resposta. Contatado pela reportagem, o CEO da RT-One disse que não comenta boatos sobre sua empresa.
Judicialização
Uma preocupação em relação aos projetos de data centers é o seu impacto socioambiental: essas estruturas consomem muita energia para alimentar seus equipamentos, consomem muita água para alimentar seus sistemas de resfriamento e ocupam áreas muito extensas.
Esse impacto foi, inclusive, o que gerou processos judiciais em alguns dos casos analisados: em Uberlândia, por exemplo, o MPF instaurou um inquérito civil para apurar possíveis danos ambientais do projeto. O procurador destacou que, de acordo com informações divulgadas na imprensa, o centro consumiria energia equivalente a 1,6 milhão de casas. A peça também citou que, em Maringá, a RT-One admitiu a possibilidade de tirar água do subsolo para resfriar seu o data center.
O inquérito, então, solicitou informações sobre consumo de água e energia do estabelecimento anunciado. Não há registro de resposta da RT-One nos documentos obtidos pelo Aos Fatos.
A única empresa que respondeu afirmando que houve estudos foi a Cemig (Companhia Energética de Minas Gerais). A empresa pública afirmou que seu levantamento “concluiu que o sistema elétrico regional apresenta condições técnicas adequadas para absorver a carga adicional solicitada [pelo data center], sem comprometer a qualidade e a continuidade do fornecimento local e regional”.
A companhia, entretanto, disse que o impacto de desabastecimento energético ou hídrico em nível nacional não é de sua responsabilidade.
Em Caucaia, além dos possíveis impactos na água e energia locais, o que movimentou o Ministério Público foi a denúncia de que o data center do TikTok — antes capitaneado pela Casa dos Ventos, mas agora gerido pelo Pátria Investimentos — seria instalado “em terras tradicionais dos Índios Anacés”.

O processo, iniciado pelo MP-CE (Ministério Público do Estado do Ceará), foi remetido ao MPF por envolver territórios de povos originários. O órgão federal, então, realizou uma perícia técnica que identificou que o licenciamento ambiental apresentado para instalar o data center do TikTok era “inadequado, insuficiente e inadmissível”. O MPF apontou que a demanda energética era muito elevada e que não houve comprovação de disponibilidade hídrica do manancial subterrâneo que iria alimentar o centro.
Após a publicação da perícia, a Funai (Fundação Nacional dos Povos Indígenas) solicitou ao governo do Ceará a suspensão da licença de instalação do data center.
As empresas responsáveis pelo empreendimento negam qualquer irregularidade.
Já em Eldorado do Sul, o MPF também oficiou os órgãos responsáveis pelo empreendimento que foi anunciado na cidade pela Scala. Em junho, a empresa informou que ainda não havia licenciamentos porque o projeto estava ainda na fase de planejamento.
Mesmo sem nenhum estudo ou documento que ateste a responsabilidade socioambiental do empreendimento, a Câmara Municipal aprovou em dezembro de 2024 uma lei que cria um pólo de data centers no município e facilita o licenciamento de obras semelhantes.
Contatada pelo Aos Fatos, a Scala reafirmou que o projeto ainda não andou e “segue em fase de validações”. O data center também não consta no site oficial da empresa.
Falsas promessas
Os projetos de data centers voltados para IA no Brasil também seguem a cartilha desinformativa que tem sido explorada para instalar essas estruturas em toda a América Latina: promessas de desenvolvimento local, criação de centenas de empregos e investimentos bilionários nas cidades onde serão instalados.
As experiências internacionais, no entanto, revelam que data centers não são tão benéficos quanto prometem. Além de não entregar o desenvolvimento local e a quantidade de empregos que seriam gerados, algumas cidades ainda sofrem com o alto consumo de água e energia dessas estruturas. Diversas populações em países no exterior, inclusive, já conseguiram barrar ou até banir projetos semelhantes.
Em todos os casos analisados pelo Aos Fatos, as empresas responsáveis, as prefeituras e vereadores entusiasmados destacam os investimentos bilionários que serão feitos nos data centers.
“São bilhões de investimentos, bilhões mesmo. Então é um dinheiro que vai ficar no nosso município, que chega na saúde, que chega na educação, que chega no esporte, chega em tudo, todas as áreas da cidade”, disse ao Aos Fatos o vereador Ckauê Franklin (PSDB), presidente da Comissão de Desenvolvimento Econômico, Industrial, Comércio e Serviços de Caucaia.
O que não é dito pelas empresas é que, desse montante, grande parte não vai para o município: estima-se que cerca de 60% do investimento é gasto com os equipamentos que alimentam o centro e que são, majoritariamente, importados.
Em alguns casos — Caucaia e Maringá —, os data centers serão ainda instalados em ZPEs (Zonas de Processamento de Exportação). Empresas nesses locais se beneficiam de regime aduaneiro especial e isenção de impostos desde que produzam bens com o intuito de exportá-los. Isso significa que a produção do data center não será destinada à cidade ou sequer ao Brasil.
Outros projetos devem se aproveitar do Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center), projeto criado pelo governo federal por meio da MP 1.318/2025, que ainda não foi aprovada pelo Congresso.
O programa concede benefícios fiscais — como isenção de impostos PIS/Cofins e de importação — para data centers em troca de contrapartidas como energia limpa, baixo uso de água e a disponibilização de no mínimo 10% da capacidade de processamento de dados para o mercado interno.
Outra promessa comum a todos os quatro data centers é a criação de empregos: a Casa dos Ventos, por exemplo, prometeu a geração de 15 mil empregos na fase de construção e 500 empregos após a instalação; já a RT-One chegou a dizer que seus data centers iriam empregar de 20 a 30 pessoas por megawatt, o que supera, e muito, a média observada desses empreendimentos.
A promessa de empregabilidade tem sido atrativa especialmente em Eldorado do Sul. De acordo com a própria prefeitura, o empreendimento vai gerar 3.000 empregos o que, na visão da gestão, é um ponto de destaque em uma cidade que foi severamente atingida pelas enchentes em 2024: cerca de 90% do município foi afetado e dezenas de milhares de famílias tiveram que deixar suas casas.
“Muitas pessoas botaram seus imóveis à venda e, com isso, ficam desvalorizados. Acho que a comunidade de Eldorado que está pensando em vender seus imóveis e sair do município deve repensar essa situação porque, certamente, num curto espaço de tempo, vão se valorizar além do que imaginam”, disse o prefeito Ernani Gonçalves (PDT) quando o projeto foi assinado.
‘A pressa é inimiga da perfeição’
Os problemas apresentados nos projetos parecem evidenciar que a tomada de decisões pelo poder público tem sido atrapalhada pela pressa em instalar data centers pelo país.
O Brasil tem sido cobiçado por empresas do ramo por ter uma das matrizes energéticas mais limpas do mundo e uma grande produção — hoje produzimos mais energia do que consumimos. Além disso, o país é um dos que possui maior disponibilidade hídrica no mundo.
Mas, apesar da atratividade, empresários e lobistas do setor defendem que o Brasil deve oferecer benefícios fiscais e regulatórios, caso deseje abrigar data centers. E deve fazer isso rápido, uma vez que estaria em curso uma corrida global por essas estruturas.
“É importante o senso de urgência. Esse ativo que a gente tem, essa grande commodity chamada energia tem hoje um valor extremo. O mundo precisa dela hoje, porque o mundo não se preparou com a infraestrutura necessária para os data centers.” — Marcos Peigo, CEO do Scala Data Centers.
O esforço tem sido empregado, inclusive, pelo governo federal. Além do Redata, por exemplo, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, por exemplo, viajou aos EUA em 2025 para tentar atrair R$ 2 trilhões em investimentos nos próximos 10 anos.
Segundo o CEO da RT-One, Fernando Palamone, em entrevista ao Aos Fatos, o governo federal também participou das etapas de pesquisa e tem ajudado as empresas com suporte técnico.

Palamone disse ainda que os governos estaduais e municipais também têm sido prestativos em garantir que os projetos sejam colocados de pé de forma sustentável e com menos riscos.
Em busca na Agenda Transparente, por exemplo, é possível ver o alinhamento dos interesses entre as esferas: os representantes da RT-One acompanharam o ex-ministro da Saúde e atual secretário da Indústria do Paraná, Ricardo Barros, em uma reunião com o vice-presidente Geraldo Alckmin em janeiro de 2025.
No caso do Paraná, o prefeito Silvio Barros (PP) desapropriou uma área em Maringá onde antes iria abrigar uma fábrica de aeronaves — anunciada em 2013, mas que nunca saiu do papel — para a instalação de uma ZPE e, consequentemente, a instalação do data center. Ricardo Barros, inclusive, tem ajudado a propagandear o projeto.
Outro lado
RT-One
A RT-One desenvolve infraestrutura tecnológica avançada voltada à computação em nuvem,inteligência artificial e processamento de dados de alto desempenho. Como parte desse compromisso, a companhia conduz seus projetos com base em processos rigorosos de governança, compliance regulatório e responsabilidade ambiental.
Todos os empreendimentos da empresa são estruturados em conformidade com a legislação vigente e com as normas aplicáveis ao setor de infraestrutura digital. A RT-One também mantém procedimentos internos de revisão técnica, jurídica e ambiental para assegurar que suas operações sejam conduzidas de forma responsável e alinhada às melhores práticas internacionais.
Em relação às menções envolvendo a Intel, a RT-One esclarece que não tem conhecimento de qualquer processo envolvendo o seu CEO. Caso qualquer questão institucional venha a ser apresentada, a companhia confia que ela será conduzida diretamente entre as partes por meio dos canais apropriados.
A companhia reforça que atua com elevados padrões de integridade, transparência e responsabilidade corporativa. Informações que não reflitam adequadamente os fatos serão tratados pelos meios institucionais adequados.
A RT-One permanece concentrada na execução de seus projetos e na expansão de infraestrutura digital de alto desempenho, contribuindo para o fortalecimento do ecossistema tecnológico e da inovação.
Esta reportagem foi realizada com o apoio de uma bolsa de investigação do Tarbell Center for AI Journalism.
O caminho da apuração
Aos Fatos entrevistou políticos e solicitou documentações para todas as empresas e prefeituras citadas. Também questionamos o MPF e os MPs estaduais sobre eventuais processos e investigações envolvendo as estruturas planejadas para serem instaladas nas quatro cidades.
Em relação à RT-One, entramos em contato com a Intel, verificamos as informações divulgadas pela nota e abrimos espaço para que Fernando Palamone comentasse as alegações.





