A constatação de que as notícias falsas estão dificultando o combate às mudanças climáticas colocou a desinformação pela primeira vez na agenda oficial da COP (Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas). A 30ª edição do evento começou na última segunda-feira (10) em Belém.
O problema foi abordado no discurso de abertura pelo presidente Lula (PT), que considerou que os desinformadores “rejeitam as evidências da ciência” e “controlam algoritmos, semeiam o ódio e espalham o medo”.
“É momento de impor uma nova derrota aos negacionistas”, declarou o presidente, que apelidou a COP30 de “COP da verdade” e tem buscado promover o debate sobre a desinformação em fóruns multilaterais, como o G20.
Com ONU (Organização das Nações Unidas) e Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura), o Brasil liderou a criação da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre Mudança do Clima — coalizão que reúne governos, organizações internacionais e representantes da sociedade civil para combater a desinformação climática.
A iniciativa criou um fundo global para financiar projetos que fortaleçam a circulação de informações confiáveis sobre as mudanças climáticas e, para a COP30, organizou um “mutirão de soluções” para dar mais visibilidade às melhores ideias de enfrentamento do problema.
“Soluções podem ser aceleradas para ter impacto maior, mais rápido ou mais transversal”, explica Nina Santos, secretária-adjunta de Políticas Digitais da Secom (Secretaria de Comunicação Social) da Presidência da República — um dos órgãos que representam o Brasil na iniciativa.
A próxima quarta-feira (12) é o primeiro de dois dias temáticos dedicados à integridade da informação na COP30. As ações acontecem tanto na Zona Verde do evento, espaço aberto ao público em geral, como na Zona Azul, onde ocorrerão as negociações oficiais entre os países. Na agenda, estão debates sobre o papel do jornalismo, da educação midiática e da governança digital, dentre outros.
Pela primeira vez, a conferência conta também com um enviado especial para a Integridade da Informação, cargo ocupado por Frederico Assis.
“A desinformação está impedindo a humanidade de vencer a luta contra as mudanças do clima”, escreveu Assis em artigo publicado no último dia 4. “Enfrentar esse fenômeno é essencial para preservar a democracia e a própria possibilidade de ação coletiva”, defendeu.
Em março, o presidente da conferência, André Corrêa do Lago, já havia considerado a desinformação como o “maior pesadelo” da agenda climática.
‘Problema complexo’
A desinformação prejudica o combate à crise climática porque confunde a população sobre a origem do problema e coloca em dúvida a eficácia das soluções disponíveis. Como resultado, pessoas, governos e empresas demoram mais para reagir, atrasando uma resposta que a comunidade científica considera urgente.
“A desinformação é um problema complexo e não existe solução única para um problema desse tamanho”, explicou Nina Santos em entrevista ao Aos Fatos.
Para responder ao desafio, o Brasil tem procurado atuar simultaneamente em várias frentes, que vão desde a educação midiática — cujo foco está no longo prazo — até o incentivo à produção de evidências, que visa mapear o tamanho e as características do fenômeno da desinformação.
“Quando a gente não tem evidências, não pode agir sobre o problema”, justifica Santos, destacando que a falta de transparência dos ambientes digitais aumenta a necessidade de pesquisas — sobretudo no Sul Global, onde a lacuna de conhecimento é ainda maior, segundo estudo do Ipie (Painel Internacional sobre o Ambiente da Informação).
A secretária-adjunta de Políticas Digitais da Secom também destaca a necessidade de se promover a sustentabilidade do jornalismo e a proteção dos comunicadores ambientais, que são alvos frequentes de ameaças.
“Parte dos nossos desafios em relação às plataformas digitais é limitar a circulação dos conteúdos danosos, mas outra parte é aumentar a circulação dos conteúdos sérios sobre a questão ambiental. E, para isso, a gente precisa ter gente produzindo conteúdos sérios”, diz.
Nesse contexto, Santos considera que as iniciativas de checagem de fatos continuam sendo um instrumento relevante de combate à desinformação, sobretudo com a popularização das ferramentas de inteligência artificial.
“Nos sistemas de IA generativa, quando as pessoas entram e perguntam algo, existe um algoritmo super complexo por trás de como a resposta é construída, mas uma das coisas que ele pega são os mecanismos de checagem de fato”, explica.
Outra aposta é no diálogo com o mercado publicitário, com quem o governo brasileiro tem buscado firmar compromissos para desmonetizar sites que divulgam desinformação ambiental, desestimulando a prática.
Os agentes por trás da disseminação de notícias falsas também estão na mira da frente que busca combater o problema por meio da responsabilização.
“Existe uma discussão grande sobre quem deve ser responsabilizado e em quais circunstâncias pela publicação e disseminação de desinformação climática”, afirma a especialista brasileira, explicando que a discussão envolve desde as plataformas digitais — que dão visibilidade e permitem o impulsionamento desse tipo de conteúdo — até empresas envolvidas na prática de greenwashing.
As discussões estão sendo aprofundadas pelo capítulo brasileiro da Iniciativa Global, que é gerido pela Secom em parceria com os ministérios do Meio Ambiente e das Relações Exteriores e conta com uma rede de 110 parceiros da sociedade civil.
O caminho da apuração
Aos Fatos contactou a assessoria de imprensa da Secom para pedir a entrevista com Nina Santos e consultou textos de divulgação das entidades que participam da Iniciativa Global pela Integridade da Informação sobre Mudança do Clima.




