O presidente Lula (PT) disse que essa seria a “COP da Verdade”, mas, ao circular pela Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas em Belém (PA), Aos Fatos identificou nesta semana desinformação sobre eventuais benefícios de tecnologias tidas como “limpas”, além de distorções que minimizam o impacto de atividades consideradas vilãs do meio ambiente.
Na tarde da última segunda-feira (17), por exemplo, o pavilhão da Alepa (Assembleia Legislativa do Pará) na Green Zone abrigou o painel “A Importância da Mineração na Transição Energética", no qual um representante do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) tentou subestimar os efeitos das grandes mineradoras sobre o meio ambiente, transferindo a culpa do problema apenas para o garimpo ilegal.

A Green Zone é a área da COP30 aberta à população em geral, mas nem o espaço reservado para participantes credenciados pela ONU — a Blue Zone — escapa da desinformação. Foi ali que a reportagem identificou um panfleto em inglês da Aprobio (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil) que exagera a redução nas emissões de gases de efeito estufa associada ao combustível renovável.
No mesmo dia, Aos Fatos presenciou o vice-presidente da CNA (Confederação Nacional da Agricultura), Gedeão Silveira Pereira, afirmar que o gado brasileiro não tem impacto nas emissões porque é alimentado exclusivamente de pasto — afirmação também contestada por cientistas.
A intervenção de Pereira foi feita no encerramento do Dia da Pecuária na Agrizone — área montada pela Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) para a COP30. Após a fala do produtor, representantes do agronegócio presentes desfrutaram de um churrasco “sustentável”.

Aos Fatos analisou dados, artigos científicos e reportagens publicadas pela imprensa e entrevistou especialistas para apontar inconsistências nas afirmações feitas pelo setor privado (veja abaixo).
A constatação contrasta com as promessas feitas pela própria COP30, a primeira a colocar o tema da integridade da informação no centro da agenda de discussões.
O evento trouxe mais de cem iniciativas dedicadas ao tema e, no último dia 12, foi palco da assinatura da Declaração sobre Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima na COP30, endossada por países como Brasil, Canadá, Chile, Dinamarca, França, Alemanha e Uruguai.
Observadores ouvidos pelo Aos Fatos consideram que a disseminação de desinformação durante o evento não é inédita, já tendo sido registrada em edições anteriores.
O problema, dizem, tornou-se mais comum com o crescimento da COP, que deixou de ser um encontro praticamente restrito a diplomatas e cientistas para acolher cada vez mais outros interessados no debate — incluindo o lobby empresarial.
Segundo dossiê do Observatório da Integridade da Informação, em espaços centrais de negociação climática, como a COP30, a “mentira atua com mais força, com o objetivo de sabotar avanços e prolongar o atraso”.
Abaixo, Aos Fatos desmente três desinformações disseminadas durante o evento por representantes do setor privado:
A pecuária nacional, que é feita de pasto, é absolutamente a solução [para as emissões]. (...) [O gado] emite metano, sim, mas o pasto que ele come está subtraindo carbono. — Gedeão Pereira, vice-presidente do CNA (Confederação Nacional da Agricultura), durante encerramento do Dia da Pecuária na Agrizone, no dia 17.nov.2025.
O argumento sugere que a pecuária brasileira seria uma solução para as mudanças climáticas porque o gado criado no Brasil vive solto e o pasto absorve o carbono da atmosfera pela fotossíntese, compensando as emissões de metano da atividade. Mas não é assim que acontece.
Carlos Nobre, uma das principais referências em mudanças climáticas do mundo, disse, em entrevista ao Aos Fatos, que a afirmação não é verdadeira. O especialista explica que o setor é um dos principais emissores de gases de efeito estufa do país.
Um dos fatores para isso, explica ele, se deve ao metano, gás expelido pela digestão dos ruminantes que é “28, 30 vezes mais potente para reter o calor do aquecimento global do que o gás carbônico”.
O potencial maior de aquecimento do metano faz com que o chamado “arroto de boi” pese mais no cálculo das emissões do que o carbono capturado pelo pasto.
“O boi funciona como uma máquina conversora de CO₂ em metano e, mesmo que esse metano vá se transformar em CO₂, isso não é imediato”, podendo levar anos, explica David Shiling Tsai, coordenador do Seeg (Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa).
Tsai explica que o Seeg utiliza dados da realidade brasileira e calcula não apenas as emissões, mas também o quanto de carbono cada atividade retira da atmosfera. No caso da agropecuária, os dados mostram que o ciclo não é neutro.

O metano expelido pelos ruminantes representou 64,5% das emissões brutas da agropecuária do Brasil, que somaram 626 MtCO₂e — tonelada métrica de dióxido de carbono equivalente, medida usada para calcular os gases do efeito estufa — em 2024. Desse total, apenas cerca de 30% do carbono foi reabsorvido, segundo o Seeg.
O desempenho coloca a agropecuária como a segunda maior responsável pelas emissões de gases de efeito estufa no Brasil — e a maior na questão do metano. O primeiro posto é ocupado pela categoria “Mudanças de Uso da Terra e Florestas”, que também está conectada com o agronegócio, devido ao desmatamento.
“Se você tem um volume de carbono muito grande que tá na biomassa florestal e que não é absorvido pela pastagem depois, o balanço é negativo”, explicou Jean Ometto, pesquisador do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), em entrevista ao Aos Fatos.
Em outras palavras, cada árvore derrubada para abrir pasto joga carbono na atmosfera, o que faz com que a maioria dos pastos no Brasil não sejam neutros — exceto quando são a paisagem natural de uma região, como no caso dos pampas gaúchos.
Segundo relatório do projeto Amazônia 2030, 90% das áreas desmatadas na Amazônia são usadas em atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque.
Os especialistas ouvidos pelo Aos Fatos também explicam que existem, sim, técnicas capazes de tornar o gado mais sustentável — como a pecuária regenerativa e a recuperação de pastos degradados. Essas atividades, porém, seguem sendo minoritárias no Brasil.
A mineração legal é bem diferente do garimpo ilegal. A gente segue todas as diretrizes de saúde e segurança, aliados às melhores e mais exigidas regras de sustentabilidade. — representante do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração) durante o painel 'A Importância da Mineração na Transição Energética', no dia 17.nov.2025.
Por mais que, de fato, a mineração autorizada pelo Estado siga regras e se submeta à legislação brasileira — diferentemente do garimpo ilegal —, evidências históricas demonstram que o setor coleciona violações do sistema regulatório e danos significativos ao meio ambiente.
São inúmeros os exemplos de denúncias de irregularidades envolvendo mineradoras:
- A norueguesa Norsk Hydro, por exemplo, é acusada de devastar rios e florestas e esgotar recursos hídricos das comunidades em sua obra de mineroduto, que vai de Paragominas até Barcarena, no Pará;
- Em relatório apresentado em fevereiro deste ano, a Mighty Earth acusa o setor de extração de minério de ferro do Brasil de “causar a destruição e poluição dos territórios dos Povos Indígenas”, além de poluir o ar;
- A Imerys — que tinha unidades de mineração de caulim no Brasil até 2024 — é investigada na França por crimes socioambientais cometidos no Pará, incluindo 169 denúncias por poluição, violação de leis trabalhistas e desrespeito aos direitos dos povos indígenas;
- O caso de Brumadinho (MG), em 2019, foi comprovadamente resultado de violações de normas de segurança por parte da Vale. As investigações revelaram que a empresa tinha conhecimento prévio da instabilidade da barragem, mas não agiu como deveria para sanar os problemas;
- A Samarco, responsável pelo desastre de Mariana, também foi acusada de manipular informações para reduzir os custos de manutenção da barragem, que rompeu em 2015;
- A BHP, acionista da Samarco, foi, inclusive, condenada no Reino Unido no início deste mês. O tribunal concluiu que a empresa foi responsável pelos danos ambientais e sociais causados pelo rompimento da barragem e identificou negligência grave da mineradora;
- Na questão trabalhista, há denúncias de mortes por descumprimento de normas de segurança e de requisitos mínimos de saúde.

Há indícios, inclusive, de falhas na própria supervisão estatal do setor. Em janeiro deste ano, uma auditoria do TCU (Tribunal de Contas da União) evidenciou que irregularidades nos processos da ANM (Agência Nacional de Mineração) estavam permitindo operações sem licenças adequadas.
Biodiesel reduz a emissão de gases em até 94% — panfleto da AproBIO (Associação dos Produtores de Biocombustíveis do Brasil) disponível aos participantes.
O dado citado no panfleto da associação representa o melhor cenário possível de redução de emissões pelos biocombustíveis, mas não reflete a oferta atual no mercado brasileiro de biodiesel, cuja maior parte é fabricada com óleo de soja.
A redução de 94% aparece em um estudo publicado no European Journal of Engineering and Technology em 2014. Segundo o artigo, os biocombustíveis de segunda geração — aqueles que não são feitos com biomassa comestível — podem emitir 94% menos gases de efeito estufa do que combustíveis fósseis. O mesmo artigo afirma que os biocombustíveis de primeira geração — como o biodiesel feito por óleo de soja — apresentam uma redução de até 78%.
Segundo a ANP (Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis), a maior parte da produção de biodiesel brasileiro — quase 75% —, no entanto, é feita a partir do óleo de soja, classificado como de primeira geração.
Um estudo publicado na Biomass and Bioenergy em agosto deste ano detalhou a redução na emissão de gases de efeito estufa em cada uma das matérias-primas usadas na Europa. Segundo o artigo, o biodiesel de óleo de soja emite entre 60% a 70% menos do que combustíveis fósseis.
O estudo conclui que os biocombustíveis analisados permitem entre 40% a 80% de redução em relação aos combustíveis fósseis e que esses números podem variar de acordo com as condições locais, as práticas agrícolas e as tecnologias empregadas.
Um outro problema apontado por especialistas é que biocombustíveis feitos a partir de culturas agrícolas, como soja ou cana-de-açúcar, “tendem a substituir outras atividades, exercendo pressão sobre a terra e trazendo riscos consideráveis de um aumento do desmatamento sobre matas nativas”.
Jean Ometto, pesquisador do Inpe, lembra ainda que a cadeia de produção dos biocombustíveis acaba usando combustíveis fósseis em algum momento. “No fundo, é muito difícil a gente ter uma produção de energia ou de combustível que não tenha algum impacto. O que nós temos que fazer é minimizá-lo”, explicou.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com as associações e representantes citados na reportagem, mas nenhum respondeu até a publicação do texto.
O caminho da apuração
Aos Fatos participou de eventos paralelos da COP30, em Belém, e arquivou declarações disseminadas pelas entidades presentes. As alegações foram, então, conferidas pela reportagem, que conferiu a veracidade das informações com base em estudos, documentos e entrevistas com especialistas.
Na tarde de terça-feira (18), entramos em contato com as assessorias das entidades citadas para abrir espaço para comentários.
* Aos Fatos está na COP30 como parte do programa “Reporting from the frontline of the global climate crisis in an era of fake news”, oferecido pelo Danida Fellowship Center.




