“Acho que você vai adorar este vídeo!”, dizia a mensagem automática que acompanhava um vídeo do Kwai compartilhado internamente pelo Aos Fatos durante a apuração desta reportagem. Nele, um homem agredia uma mulher dentro de uma loja e, em seguida, atirava contra ela.
No intervalo de uma hora de uso da plataforma em uma conta recém-criada, o Kwai recomendou esse e outros 41 vídeos com conteúdos violentos após buscas por termos como “mulher apanha” e “homem bate”.
Desse total, 33 tratavam especificamente de casos de violência doméstica e feminicídio. Somadas às diversas versões compartilhadas na rede social, essas gravações somavam mais de 23 milhões de visualizações.
Conteúdos desse tipo ferem as regras da plataforma, que acumula, segundo dados divulgados pela imprensa no ano passado, cerca de 60 milhões de usuários no Brasil.

Os vídeos circulam livremente pela plataforma em uma semana marcada pela repercussão de casos de feminicídio e agressão contra mulheres:
- No Rio de Janeiro, um homem assassinou uma diretora e uma psicóloga do Cefet (Centro Federal de Educação Tecnológica);
- Em Santa Catarina, uma professora foi morta enquanto fazia uma trilha;
- Em São Paulo, uma mulher foi atropelada e arrastada por um carro;
- Também em São Paulo, o influenciador masculinista Thiago Schutz — conhecido como “Calvo do Campari” — foi preso por agredir a namorada.
Contra as regras
De acordo com as regras do Kwai, não é permitido o compartilhamento de vídeo “extremamente gráfico ou que normalize ou glorifique a violência, já que esse tipo de conteúdo também pode levar à violência no mundo real”.
A plataforma cita alguns exemplos de conteúdos proibidos, como:
- Aqueles que exibem mortes violentas ou acidentes;
- Aqueles que exibem ou promovem lutas violentas;
- Aqueles que exibem ou promovem conteúdo extremamente violento, sanguinário ou gráfico, como tortura, desmembramento, órgãos internos visíveis ou ferimentos graves.
Esse tipo de violência aparece em vídeos da plataforma que mostram agressões de maridos, namorados e ex-companheiros contra mulheres no ambiente de trabalho, em casa e na rua. Há também casos de violência doméstica cometidos por filhos e netos, que também são enquadrados na Lei Maria da Penha.
Exibidos para milhares de usuários, as cenas têm como objetivo acumular alcance, visualizações e, consequentemente, dinheiro — para ser elegível à monetização por meio de anúncios, basta que um perfil possua cerca de 500 seguidores, 12 publicações e média de mil visualizações por post ou 10 mil visualizações em 30 dias.
Naturalização da violência
De acordo com a especialista em misoginia na internet, Mariana Valente, diretora associada do InternetLab e professora de Direito na Universidade de Saint Gallen, na Suíça, a falta de moderação das plataformas digitais e a economia da atenção são determinantes no processo de banalização e até mesmo de glorificação da violência contra a mulher como forma de punição.
“As plataformas digitais contribuem com esse processo quando não moderam conteúdo ou empurram esse tipo de conteúdo para os usuários. E é comum fazerem isso porque as métricas de engajamento de conteúdos sensacionalistas são altas”, explica Valente, autora do livro “Misoginia na internet”.
Outro ponto apontado pela diretora associada do InternetLab é a monetização do conteúdo violento e sensacionalista, que provoca nos produtores a necessidade de publicar cada vez mais vídeos desse tipo. “Os incentivos econômicos em um modelo de negócios baseado na economia da atenção favorecem conteúdos sensacionalistas”, destaca.
Em dado momento da pesquisa, a reportagem identificou que o algoritmo de fato passou a indicar palavras-chave que sugeriam buscas por temas cada vez mais gráficos, como tortura.

Influência da TV
Dos 33 vídeos encontrados pela reportagem na primeira hora de navegação na plataforma, 26 eram reproduções de trechos de reportagens veiculadas na TV por programas policialescos.
Uma pesquisa feita em 2016 pelo Instituto Alana, a Andi Comunicação e Direitos (Agência de Notícias dos Direitos da Infância) e o Intervozes apontou a presença de mais de 4.500 violações aos direitos humanos promovidas por programas policiais na televisão e no rádio em um período de 30 dias.
Com as redes sociais, o alcance do problema ultrapassa o potencial de viralização da TV aberta.
Mariana Valente afirma que a espetacularização da violência por programas policialescos é um assunto amplo, mas explica que há discussões sobre como esses programas não apenas banalizam a violência, como oferecem visões de mundo muito limitadas e radicalizadas sobre como resolver problemas sob um ponto de vista punitivista.
A violência contra a mulher no Brasil
Dados da Pesquisa Nacional de Violência contra a Mulher, divulgados em novembro deste ano pelo DataSenado, apontaram que cerca de 3,7 milhões de mulheres no país sofreram algum tipo de violência doméstica em 2025 — isso diante de um quadro de subnotificação.
O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho deste ano, identificou ainda que ocorreram no país no ano passado 1.492 feminicídios. Desses, 64% foram perpetrados dentro de casa e 79,8% foram cometidos por companheiros ou ex-companheiros.
O Atlas da Violência, publicado pelo Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada) também em 2025, aponta que houve um aumento de 17% na subnotificação de casos de feminicídio.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com o Kwai na quinta-feira (4) para apontar a presença dos vídeos identificados e questionar se eles feriam as regras da plataforma. Em nota enviada nesta segunda-feira (8), a plataforma reforçou que “não tolera qualquer conteúdo que promova, incentive ou normalize abuso, exposição a riscos ou violência de gênero” e que removeu todos os vídeos enviados pela reportagem.
Além disso, o Kwai afirmou que possui uma equipe de moderadores humanos e tecnologia de IA (inteligência artificial) que atuam constantemente para identificar e remover conteúdos impróprios.
Este conteúdo foi atualizado às 14h do dia 8 de dezembro de 2025 para incluir o posicionamento do Kwai.
O caminho da apuração
Aos Fatos criou uma conta nova no Kwai, fez cerca de cinco pesquisas usando termos como “mulher apanha” e “homem bate” e interagiu com algumas publicações. Por cerca de uma hora, a reportagem assistiu a vídeos recomendados na aba “Para você”, que aparece na página inicial do aplicativo.
Nesse período, foram identificados pelo menos 42 vídeos violentos que mostravam brigas envolvendo mulheres. Desse total, 33 eram registros de violência contra a mulher, feminicídio ou violência doméstica.
A reportagem consultou pesquisas sobre o tema e conversou com a especialista Mariana Valente, diretora associada do InternetLab e professora na Universidade de Saint Gallen, na Suíça, para tratar sobre o processo de naturalização da violência contra a mulher impulsionada por vídeos recomendados por plataformas sem moderação efetiva.
Por fim, procuramos o Kwai para comentar sobre os resultados da pesquisa. Em nota, a plataforma reforçou que não permite conteúdos violentos e que removeu todos os vídeos enviados pela reportagem.




