Políticos usam conflito entre Israel e Hamas para desinformar e alimentar polarização no Brasil

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Por meio de publicações falsas ou que tecem associações enganosas, parlamentares e usuários das redes têm usado o conflito entre o Hamas e Israel para alimentar a polarização política entre brasileiros.

Desde o início dos ataques, no sábado (7), publicações que acumulam mais de 3,5 milhões de interações no Facebook, no Instagram, no TikTok e no X (ex-Twitter) tentam associar o governo Lula (PT) e a esquerda à violência promovida pelo grupo extremista islâmico.

Um dos primeiros posts virais a fazer a associação enganosa foi publicado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Em nota no X, ele disse repudiar o ataque realizado pelo grupo “que parabenizou Luís (sic) Inácio Lula da Silva quando o TSE o anunciou vencedor das eleições de 2022”.

O ex-presidente fazia menção a uma mensagem enviada ao petista pelo líder do Hamas, Basim Naim, após o resultado do pleito de 2022. Na nota, que consta no site oficial do Hamas, Naim de fato parabeniza Lula e diz que o presidente “é conhecido pelo seu apoio forte e contínuo aos palestinos em todos os fóruns internacionais”.

Isso, no entanto, não significa que Lula demonstrou apoio aos ataques realizados pelo Hamas. Minutos após a publicação de Bolsonaro, o presidente publicou uma nota em seu perfil no X em que diz ter ficado chocado com os “ataques terroristas realizados hoje contra civis” (veja abaixo). O Itamaraty e o PT também divulgaram notas condenando o ocorrido.

O posicionamento do petista, no entanto, não impediu que parlamentares e usuários anônimos replicassem a associação sugerida por Bolsonaro:

  • O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por exemplo, compartilhou o vídeo em que seu pai lê uma nota sobre o caso junto da legenda: “Oremos por Israel e oremos para que a paz reine na região. Todo nosso repúdio ao ataque feito pelo Hamas, grupo terrorista que parabenizou Lula nas eleições”;
  • Também compartilharam mensagens com teor semelhante os deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP), Júlia Zanatta (PL-SC) e Carlos Jordy (PL-RJ);
  • Desde sábado, publicações com as expressões “Hamas parabenizou Lula” ou “Lula foi parabenizado por Hamas” acumularam ao menos 2,3 milhões de visualizações no TikTok, 300 mil curtidas no Instagram, 22 mil compartilhamentos no Facebook e 35 mil reposts no X.

Exemplos de mensagens que acompanham mensagens desinformativas sobre o conflito, como uma que diz que ‘Terrorista = Lula = Hamas = Satanás = Comunismo = Esquerda’
‘Ao lado do Hamas’. Publicações virais publicadas após os ataques no TikTok sugerem a ligação entre Lula e grupo extemista (Reprodução/TikTok)

‘HAMAS = SATANÁS = ESQUERDA’

Além da tentativa de relacionar Lula ao ataque por meio da saudação recebida em 2022, publicações nas redes também desinformam para acirrar a polarização política. De um lado, estariam os apoiadores de Bolsonaro, que defendem o cristianismo e Israel; do outro, a esquerda, que apoiaria os terroristas do Hamas, o comunismo e pautas anticristãs.Print mostra seis publicações diferentes do TikTok que dizem que Lula teria sido parabenizado pelo Hamas em 2022, sugerindo relação entre o petista e o grupo
Hamas = Satanás. Exemplos de mensagens que acompanham publicações desinformativas sobre o conflito (Reprodução/Instagram)

Circulam nas redes, por exemplo:

  • Desinformações já desmentidas sobre a relação de Lula com Israel, como a peça que dizia que o petista teria doado R$ 25 milhões ao Hamas em 2010 ou que teria se recusado a deixar flores no Museu do Holocausto de Israel ao visitar o país também naquele ano;
  • Uma foto em que o presidente segura uma camisa do time de futebol da Palestina também tem sido compartilhada junto da alegação de que o presidente estaria “do lado do Hamas”. O registro, no entanto, foi feito no Brasil e mostra representantes da Fepal (Federação Árabe Palestina no Brasil) entregando uma camiseta da seleção de refugiados;
  • Também voltou a circular a desinformação de que a presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PT-PR) teria pedido ao Hamas que ajudasse a libertar Lula enquanto ele estava preso em Curitiba. As peças distorcem uma entrevista à Al-Jazeera em que a deputada apenas afirma que o petista teria sido preso sem provas. Em nenhum momento do vídeo ela convoca qualquer grupo armado;
  • Outra foto que tem sido compartilhada como prova da ligação entre a esquerda e o Hamas é a que mostra o deputado federal Guilherme Boulos (PSOL-SP) com um cartaz com os dizeres “PSOL com a Palestina”. A imagem é verdadeira, mas, além de Boulos ter condenado os ataques violentos, é necessário ressaltar que o Hamas não representa todo o povo palestino e possui adversários internos;
  • Também tem circulado a nota de apoio do PCO (Partido da Causa Operária) ao Hamas como uma suposta prova de que a esquerda e o governo estariam de acordo com os ataques violentos. Apesar do partido declarar “apoio crítico” à gestão de Lula, ele não integra sua base e não participou da coligação que o elegeu;
  • Carlos Bolsonaro sugeriu que a imprensa — que ele considera “esquerdista” — se recusava a tratar o Hamas como “terrorista” enquanto não tardou a tachar os manifestantes do 8 de janeiro com essa classificação. Na verdade, o G1, veículo citado pelo vereador carioca, classificou o grupo como terrorista em diversas reportagens (veja aqui, aqui e aqui).
Leia mais
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Em defesa de Lula. Em resposta às publicações que relacionam o presidente aos ataques terroristas, o Brasil 247 publicou um texto em que afirma que o Hamas não parabenizou Lula, e que a nota redigida por Basir Naim representava uma “posição de caráter pessoal”. Apesar de as declarações presentes na mensagem do grupo serem atribuídas ao seu líder, a nota foi publicada no site oficial do Hamas e tem como título: “Hamas parabeniza Lula da Silva pela vitória nas eleições”.

Nas redes, usuários têm compartilhado o título do texto do Brasil 247 — “É falso que Hamas parabenizou Lula por vitória nas eleições” — para mentir sobre a existência da nota oficial do grupo extremista. No TikTok, vídeos que usam a matéria para fazer essa alegação enganosa acumulam milhares de visualizações.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com Flávio Bolsonaro, Eduardo Bolsonaro, Júlia Zanatta e Carlos Jordy para que comentassem a reportagem. Não houve resposta até a publicação deste texto, que será atualizado caso haja retorno dos parlamentares.

O Brasil 247 também foi contatado, mas não respondeu. O espaço segue aberto para comentários.

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