Como a indústria da desinformação é nutrida pelo jornalismo televisivo

Compartilhe

O jornalista Maurício Stycer publicou na Folha de S.Paulo nesta semana uma crítica à CNN Brasil por dar espaço em sua grade a retóricas negacionistas sobre a pandemia. Classificou o recurso empregado por comunicadores como Alexandre Garcia como "falácia argumentativa" e afirmou que o canal se escora nessa estratégia pois é "muito útil para o marketing".

No Twitter, houve quem casasse o comentário de Stycer a uma nota do site Na Telinha, hospedado no UOL, segundo o qual o programa de Garcia, criado para converter absurdismo em audiência, ia mal no Ibope em diferentes praças. Em nota, a CNN Brasil negou que se tratava de um mau desempenho e que tudo se resumia a uma questão matemática: um bom desempenho seria encontrado caso fossem somados os números de audiência entre várias praças.

Ao fim e ao cabo, prender-se a esses números é perder tempo com bobagens. O formato da CNN guarnece um exército de canais de baixa credibilidade no YouTube que, segundo o Radar Aos Fatos, podem atingir, em uma semana, mais de 1,9 milhão de visualizações. Com títulos como "Caio Coppolla TRUC!DA Dr q FAZ CHILIQUE, Ñ RESPONDE, faz CONFUSÃO CONSTRANGEDORA, GAGUEJA eÑ DESPEDE" e "ALEXANDRE GARCIA EXPÕE DENÚNCIA GRAVISSÍMA SOBRE A PANDEMIA O BRASIL FICA CHOCADO", esse canais colhem o conteúdo profissional da TV e das rádios para endossar suas narrativas.

Duas newsletters atrás, já havia alertado para a exploração do formato do jornalismo declaratório como instrumento para propagar versões duvidosas dos fatos em sites que emulam o formato jornalístico clássico. A veiculação de trechos de áudios e vídeos televisivos obedece ao mesmo expediente: usa da autoridade inerente ao profissionalismo do formato para degenerar sua capacidade informativa. Esse truque é muito mais perigoso do que uma mera corrente de WhatsApp.

Plataformas como Facebook e Twitter, além dos aplicativos de mensagem, são há anos criticados por tratarem de formas qualitativamente equivalentes conteúdos de alta e baixa credibilidade. A mediação automática, por meio de algoritmos, não é capaz de estabelecer com precisão a qualidade das fontes em cima das quais se baseiam informações que circulam em suas redes. Quando o vale-tudo migra de modo consciente para a TV e emula a lógica das redes, invade um espaço antes mediado com rigor subjetivo e instrumentaliza a autoridade jornalística. É como se, no meio da pandemia, o telejornalismo fosse um médico e os fatos fossem sua receita de cloroquina.

Enquanto se discutem meios de combater desinformação segundo a estratégia de rastreio do dinheiro para perpetrar fraude eleitoral, calúnia e difamação, canais como a CNN produzem gratuitamente material que alimenta canais de YouTube, páginas no Facebook e grupos de WhatsApp. Criam, assim, uma sensação de uniformidade narrativa que eclipsa a verdade factual menos interessante. Em função disso, as estratégias de combate à desinformação já nascem ultrapassadas: ao focar apenas nas redes sociais, esquecem que a "falácia argumentativa" industrial já alcançou outros meios.


Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #42 em 14 de agosto de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para juntar-se ao grupo, contribua e garanta benefícios.

Compartilhe

Leia também

falsoÉ montagem foto que mostra Kamala Harris ao lado de Jeffrey Epstein

É montagem foto que mostra Kamala Harris ao lado de Jeffrey Epstein

Brechas de plataformas permitem exploração de crianças, denunciam moderadores

Brechas de plataformas permitem exploração de crianças, denunciam moderadores

falsoÉ falso que Kamala Harris seja inelegível por ser filha de imigrantes

É falso que Kamala Harris seja inelegível por ser filha de imigrantes