Como derrubar uma rede de desinformação sem culpabilizar desinformados

Por Tai Nalon

13 de julho de 2020, 12h20


Não foi por "fake news" que a rede bolsonarista desarticulada na semana passada pelo Facebook caiu. De acordo com a empresa, 14 páginas, 35 contas pessoais, 38 perfis do Instagram e um grupo estavam envolvidos em comportamento inautêntico coordenado, o que significa que faziam parte de uma rede que trabalhava para enganar o público sistematicamente, ocultando a identidade dos operadores.

Segundo o comunicado do Facebook, essa rede consistia em vários clusters de atividades coordenadas a partir de uma combinação de contas duplicadas e falsas — algumas detectadas e desativadas automaticamente pela plataforma. Ou seja, os autores criavam perfis fraudulentos, se passando por repórteres, publicando conteúdo e gerenciando páginas disfarçado de veículos de notícias.

É importante distinguir isso, porque, por mais que a plataforma tenha relatado que esses perfis publicaram conteúdo enganoso durante a pandemia do novo coronavírus, o coração de uma campanha desinformativa não é o conteúdo da mensagem, mas a estratégia empregada para que a narrativa forjada viralize nas redes sociais.

Campanhas desinformativas eficientes não funcionam apenas com conteúdo enganoso. Vamos tomar como exemplo sites que eventualmente publicam informações falsas. Para criar certa impressão de profissionalismo e compromisso com os fatos, eles publicam informações factualmente corretas também. E mais: são eles que empregam estratégias discursivas convidativas ao seu público-alvo, como adjetivação pejorativa e alto grau de editorialização. Qual a diferença objetiva entre o título "Vacina contra o novo coronavírus é testada no Brasil" e "Vacina contra o vírus chinês é testada no Brasil"?

No caso de páginas no Facebook e perfis no Instagram, esses limites são ainda mais fáceis de cruzar. O algoritmo dessas plataformas é ajustado para que, ao interagir com determinado tipo de conteúdo, o usuário receba sugestões de conteúdo popular semelhantes àquele que ele curtiu. Ao simular interações orgânicas, o grupo desbaratado pelo Facebook enganava o algoritmo e conseguia mais alcance nas redes.

É necessário entender como operam essas redes para entender a intenção do desinformador, e não culpabilizar o compartilhador desinformado. São sites, grupos de WhatsApp e Telegram, páginas no Facebook, perfis no Instagram e no Twitter — todos eles integrados entre si e com estratégias de poluição informacional bastante sofisticadas.

Também é por isso que, diferentemente do que propõe o PL das Fake News aprovado no Senado, não é necessário promover vigilantismo para desarticular redes maliciosas de alto alcance. Essas campanhas são públicas, rodam livremente em várias redes e, na verdade, precisam de capilaridade em todas as plataformas para simularem uniformidade narrativa e se tornarem quase imunes ao contraditório.

As plataformas, sim, precisam tornar seus controles mais eficientes e ágeis. Elas são tanto provedoras quanto donas dos dados oriundos desses comportamentos e, por isso, apenas com acesso privilegiado é possível analisar o que é inautêntico. No caso desta semana, foi trabalho uma consultoria forense contratada pelo Facebook que confirmou a derrubada. Pesquisadores e jornalistas deveriam ter acesso a esses dados de forma a promover transparência e auxiliar no entendimento de como funcionam grandes operações de desinformação.


Esta análise foi originalmente veiculada na newsletter AF+ #38 em 10 de julho de 2020 somente para apoiadores do Aos Fatos Mais. Para juntar-se ao grupo, contribua e garanta benefícios.

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