Como a conspiração da Nova Ordem Mundial ganhou força na última década

Compartilhe

Em 30 de agosto de 1990, durante uma conferência sobre a crise do Golfo Persa, o presidente americano George Bush disse que "ao observar os países que estão contribuindo aqui agora, acho que temos, sim, uma chance de uma nova ordem mundial." A expressão voltou a ser usada por Bush um mês depois, durante a conferência da ONU (Organização das Nações Unidas).

O termo também foi citado mais ou menos na mesma época por Mikhail Gorbachev, então líder da União Soviética: “Estamos apenas no início do processo de formação de uma nova ordem mundial”.

Originalmente, essa “nova ordem mundial” representava uma mudança no pensamento político global após o fim da Guerra Fria (1947-1991). Acreditava-se, então, que era necessário um esforço coletivo para resolver os problemas que excediam a capacidade individual dos países, como violações aos direitos humanos e a proteção do meio ambiente.

O problema é que essa mesma expressão já havia sido capturada muito antes para se referir a uma grande conspiração mundial:

  • Em 1940, o autor britânico de ficção-científica H. G. Wells publicou um ensaio chamado “A Nova Ordem Mundial”, que propunha um governo mundial socialista para alcançar a paz. Isso, obviamente, fez arregalar os olhos dos conspiracionistas;
  • Em 1950, grupos de extrema direita americanos já usavam “nova ordem mundial” para se referir a uma suposta cabala de organizações que teria o plano de dominar as nações;
  • Em 1972, é publicado o livro “None Dare Call it Conspiracy”, por Gary Allen, membro da John Birch Society, comunidade racista e anticomunista americana. O texto associava os movimentos ambientalista, pacifista e feminista, além da imprensa e da família Rockefeller, à suposta “elite comunista” que visava controlar o planeta.
Capa do livro ‘None Dare Call It Conspiracy’, de Gary Allen. Abaixo do título, há uma grade com nove quadrados coloridos, cada um contendo um símbolo gráfico: uma estrela branca, o símbolo da paz, a foice e o martelo, o cifrão, o logotipo da ONU, o Olho da Providência, um punho cerrado, um círculo com faixa horizontal (símbolo de resistência), e uma mão fazendo o sinal de paz. Esses símbolos estão associados a temas políticos, ideológicos e conspiratórios.
Capa do livro apontado como um marco da NOM já mostrava alguns ‘vilões’, como os Illuminati, os comunistas e a ONU.

Assine a newsletter A Que Ponto Checamos e receba análises sobre as desinformações mais absurdas da internet brasileira.


Durante suas décadas de existência, a teoria da Nova Ordem Mundial foi se fundindo a tantos outros tipos de conspirações — que vão desde o despovoamento forçado do planeta até o satanismo sistêmico — que fica difícil resumir seu conteúdo. Mas, sendo bem simplista, é possível dizer que a NOM envolve um grande plano da elite global para controlar o planeta e acabar com as liberdades individuais.

Desde que o Aos Fatos foi criado, em julho de 2015, a teoria conspiratória tem sido recorrente em peças de desinformação nas redes (veja exemplos aqui, aqui, aqui, aqui e aqui) e aparenta ter ganhado força nos últimos anos. Isso é explicado por três grandes motivos: a tecnologia, os grandes desastres e a influência de líderes políticos.

Além do impacto óbvio no aumento da circulação de teorias conspiratórias promovido pelas redes sociais, a tecnologia trouxe uma espécie de agenda de atualizações à NOM: conforme viralizavam na internet, teorias sobre vigilância em massa, controle de carteiras digitais e moeda única foram sendo incorporadas aos objetivos da elite globalista, que hoje tem ramos de atuação dos mais diversos.

Já os grandes desastres ambientais, cada vez mais frequentes por conta das mudanças climáticas, servem como catalisadores: o medo e a sensação de que o inexplicável está acontecendo faz com que as pessoas procurem explicações simples. E o que é mais simples do que colocar a culpa em um grupo maligno e poderoso?

Outro fator que colaborou para o aumento da repercussão das teorias sobre a Nova Ordem Mundial é a pandemia de Covid-19 — na verdade, um episódio particular ocorrido durante o surto.

Naquela época, o Fórum Econômico Mundial divulgou um plano chamado “Great Reset”. A proposta era que o planeta tomasse a pandemia como um “recomeço” da economia global. Mas o nome — aliado ao fato de o plano não trazer nenhum tipo de diretriz específica — só serviu para alimentar os conspiracionistas.

Manifestantes participam de um protesto em área urbana, com pessoas caminhando pela rua e segurando faixas e cartazes. Em destaque, uma mulher segura um cartaz com os dizeres ‘DER GREAT RESET’ (O Grande Reinício, em alemão), acompanhado da frase: ‘Você não terá nada e será feliz’. O pôster apresenta montagens com os rostos de figuras públicas, como Klaus Schwab (do Fórum Econômico Mundial), Bill Gates e outros líderes, além de logotipos de partidos políticos alemães. Ao fundo, há uma bandeira azul com uma silhueta branca, comércios, ciclistas e mais manifestantes.
O 'Great Reset' foi uma pauta absorvida pela Nova Ordem Mundial após a pandemia (7C0/WikimediaCommons)

Por fim, tivemos a eleição de Trump nos Estados Unidos. A teoria QAnon, que faz parte do universo de seus apoiadores, acaba se entrelaçando à Nova Ordem Mundial, já que enxerga o presidente como um messias que está lutando contra o poder da elite do mal.

Para quem não está familiarizado, QAnon é o nome do movimento de extrema direita americano que afirma que há uma elite global que atua nos bastidores da política americana para sustentar uma rede internacional de pedofilia e satanismo. Essa elite é composta, claro, por membros do partido Democrata, celebridades e figuras de renome nos meios político e empresarial.

A NOM também faz parte do imaginário bolsonarista: o ideólogo Olavo de Carvalho (1947-2022), que foi considerado o “guru” de Bolsonaro e seus apoiadores, publicou diversos textos contra o globalismo, que, segundo ele, estaria sendo imposto por grupos marxistas, anarquistas, neonazistas, radicais islâmicos e budistas.

O próprio Bolsonaro já citou a conspiração em dois momentos:

  • Em março de 2022, o então presidente compartilhou uma mensagem no WhatsApp dizendo que só a Rússia, a China e a Liga Árabe seriam capazes, naquele momento, de lutar contra a Nova Ordem Mundial. O texto criticava o governo americano que, na época, era comandado pelo democrata Joe Biden;
  • Meses depois, a NOM voltou a ser citada por Bolsonaro, dessa vez no cercadinho próximo ao Palácio do Planalto que reunia seus apoiadores.

Quanto mais as teorias da conspiração ganham espaço no debate público, mais difícil se torna o enfrentamento de problemas reais, como as mudanças climáticas. A temida NOM, na prática, acaba legitimando a má política: se tudo é um plano maquiavélico, tudo pode ser culpa dela ou desculpa para enfrentá-la.

Compartilhe

Leia também

falsoNão é verdade que houve recorde de falências de empresas no Brasil em 2025

Não é verdade que houve recorde de falências de empresas no Brasil em 2025

falsoÉ falso que Tarcísio convocou reunião com governadores para pedir intervenção contra Moraes

É falso que Tarcísio convocou reunião com governadores para pedir intervenção contra Moraes

Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas

Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas

fátima
Fátima