Como as redes convocaram e inflaram uma paralisação nacional de caminhoneiros que não aconteceu

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Vídeos de caminhões parados em estradas, supostamente em protesto contra a prisão de Jair Bolsonaro (PL), têm sido compartilhados nas redes ao longo das últimas semanas. O problema é que nenhum deles é recente: usuários têm inundado o X, o TikTok e o Instagram com gravações antigas para sugerir a adesão a uma suposta paralisação nacional, marcada para esta quinta-feira (4), que não se concretizou.

As publicações, que acumulam mais de 4 milhões de visualizações, fazem parte de uma estratégia colocada em prática pelas redes bolsonaristas desde a prisão do ex-presidente, no final de novembro. Vídeos falsos ou descontextualizados têm sido compartilhados para construir um cenário que destoa da realidade.

De acordo com as redes, milhares de pessoas estariam se reunindo para protestar contra o STF (Supremo Tribunal Federal) e o governo Lula. O estopim estaria acontecendo nesta quinta (4), quando caminhoneiros de todo o Brasil estariam interditando estradas para pedir a libertação de Bolsonaro.

A realidade, no entanto, é que não foram registradas interdições em estradas ou protestos em grande escala desde a prisão do ex-presidente.

A imagem, gerada por IA, mostra uma fila de caminhões estacionados em uma estrada larga, alguns deles exibindo a bandeira do Brasil na dianteira; ao lado direito há chamas e fumaça escura subindo de uma área em combustão. Na parte inferior, aparece a foto de uma pessoa com o rosto pixelado, pele de tom médio e vestindo uma camisa escura e um boné escuro. Há textos sobrepostos na imagem, incluindo a frase ‘Compra tudo que você puder no supermercado. Porque vai faltar alimentação nas partilheiras’.
Algumas publicações espalham o pânico ao sugerir que as pessoas comprem comida antes que a distribuição seja afetada pela suposta paralisação (Reprodução/Instagram)

Aos Fatos têm acompanhado essas publicações enganosas desde a data da prisão preventiva de Bolsonaro, em 22 de novembro, e traça abaixo uma linha do tempo sobre a estratégia desinformativa que tem se desenrolado nas redes.

Prisão e convocação

Bolsonaro teve sua prisão domiciliar convertida em preventiva no dia 22 de novembro, após violar a tornozeleira eletrônica. A partir dessa data, o ex-presidente passou a cumprir pena na Superintendência da PF (Polícia Federal) em Brasília.

Desde então, aliados têm pressionado pela votação de uma anistia no Congresso que permitiria a soltura do ex-presidente.

Esse movimento foi acompanhado nas redes por publicações que convocavam para manifestações ou até diziam que elas já estariam sendo realizadas pelo Brasil.

A imagem mostra uma via urbana à noite com várias fileiras de carros parados ou em movimento lento, alguns com faróis acesos; há pessoas caminhando entre os veículos e árvores visíveis ao fundo sob iluminação pública. Textos sobrepostos incluem a frase ‘Agora Carreata pró-Bolsonaro começa a se formar no Parque da Cidade’, acompanhada de emojis de bandeiras, estátuas e mãos em gesto de oração, além de outra frase parcial na parte inferior.
Nos dias seguintes à prisão, diversos vídeos mentiam sobre manifestações bolsonaristas em diferentes cidades do Brasil (Reprodução/TikTok)

Na vida real, no entanto, não foi bem isso que aconteceu: não houve grandes reações à prisão de Bolsonaro — o que foi, inclusive, considerado “frustrante” pelos aliados do ex-presidente.

Pouco depois da prisão, Aos Fatos desmentiu oito vídeos (aqui, aqui e aqui) que mostrariam essa suposta reação popular e que, juntos, foram visualizados mais de 2 milhões de vezes. Outras publicações semelhantes também foram checadas por outros veículos, como a Reuters e o Estadão.

Indicativo de greve

Na última quarta-feira (3), a reação parecia que iria se concretizar de vez: veículos de imprensa, parlamentares e centenas de usuários nas redes repercutiram o registro de um documento que indicaria uma paralisação dos caminhoneiros brasileiros no dia seguinte.

O suposto indicativo de greve foi anunciado por Francisco Dalmora Burgardt, conhecido como Chicão Caminhoneiro, ao lado do desembargador aposentado e apoiador de Bolsonaro, Sebastião Coelho.

Chicão, que se diz líder da União Brasileira dos Caminhoneiros, alegava que a pauta da paralisação não seria partidária e que o objetivo era defender os interesses da categoria.

Nas redes, no entanto, a interpretação foi outra: finalmente, os caminhoneiros iriam se levantar contra a prisão de Bolsonaro. Mais uma vez, diversos vídeos descontextualizados e imagens geradas por IA passaram a ser compartilhadas para inflar a suposta manifestação.

Um perfil no X chamado Democracia Viva, por exemplo, publicou dezenas de vídeos enganosos para sugerir que a movimentação já estaria acontecendo.

A imagem mostra um grupo numeroso de pessoas reunidas em uma via com veículos ao fundo; algumas delas erguem bandeiras do Brasil em tons de verde, amarelo, azul e branco, enquanto outras seguram um banner branco com texto parcialmente visível. As pessoas apresentam diferentes tons de pele, usam camisetas de cores variadas e estão voltadas para a frente, com expressão neutra ou braços erguidos.
Além de vídeos descontextualizados, alguns perfis usaram imagens geradas por IA para inflar manifestação (Reprodução/X)

Fragilidades. Apesar de ter sido noticiado e repercutido nacionalmente, o suposto indicativo de greve apresentava uma série de inconsistências:

  • Não se sabe ao certo o quão representativa é a União Brasileira dos Caminhoneiros. Em nota enviada ao Aos Fatos na tarde da última quarta (3), a CNTA (Confederação Nacional dos Transportadores Autônomos), que representa mais de cem organizações ligadas à categoria, disse que não tinha ligação com o grupo e que sequer o conhecia;
  • A CNTA também disse que não tinha notícia de convocações ou de deliberações sobre paralisação;
  • Outras organizações, como a CNTTL (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Transporte e Logística) e a Fetrabens (Federação dos Caminhoneiros Autônomos de Cargas do Estado de São Paulo), alegaram que a União Brasileira de Caminhoneiros não possui legitimidade para falar em nome da categoria;
  • Dezenas de caminhoneiros influenciadores e representantes do setor gravaram vídeos afirmando que não iriam aderir ao protesto;
  • O deputado federal Zé Trovão (PL-SC), defensor da categoria, também declarou ser contra a paralisação e disse que a ação estaria sendo usada como uma maneira dos organizadores ganharem capital político;
  • De fato, Coelho e Chicão têm pretensões eleitorais: o desembargador aposentado já se lançou pré-candidato ao Senado em 2026 pelo Novo-DF e Chicão já disputou três eleições, a última pelo DC;
  • Em agosto, a dupla também havia anunciado uma paralisação que não teve adesão.

Dia da paralisação

Esta quinta-feira (4), dia marcado para o início da mobilização, amanheceu sem a prometida paralisação nacional: não há registros de interdições relevantes em estradas.

A falta de adesão, de certa forma, foi reconhecida pelos próprios usuários que estavam promovendo a paralisação. Desde a manhã, eles passaram a compartilhar vídeos descontextualizados para sugerir que caminhoneiros estariam parados em protesto.

A imagem mostra, à esquerda, a tela de um televisor exibindo uma estrada sinuosa em área de vegetação, com vários veículos alinhados; no canto inferior aparece uma faixa azul com o texto ‘CAMINHONEIROS PROTESTAM EM RODOVIAS DE VÁRIOS ESTADOS’. À direita, há uma captura de tela de comentários em uma rede social, com fotos de perfil pixeladas e textos diversos sobre o tema do protesto, acompanhados de ícones de interação como curtidas, respostas e emojis.
Nas redes, imagens antigas são compartilhadas como se fossem recentes (Reprodução/TikTok)

Em entrevista à IstoÉ, o presidente da Abrava (Associação Brasileira dos Condutores de Veículos Automotores), Wallace Landim, conhecido como Chorão, disse que a manifestação não teve adesão da categoria, que não concorda de forma unânime com a pauta da anistia.

“Isso deixou o segmento preocupado, porque é uma ação velada, uma tentativa de usar a pauta do transporte para levantar um movimento político”, explicou.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com Chicão na última quarta-feira (3) para questionar sobre a representatividade da União Brasileira de Caminhoneiros e abrir espaço para comentários. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

Não conseguimos contatar o perfil do X Democracia Viva, mas o espaço segue aberto a eventuais posicionamentos.

O caminho da apuração

Aos Fatos têm reunido publicações sobre manifestações e convocações para protestos bolsonaristas desde a prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro. Desde o final de semana, após verificar que se tornaram mais frequentes posts sobre uma suposta paralisação de caminhoneiros, a equipe tem documentado essas publicações em uma tabela.

Esse processo de pesquisa foi intensificado na última quarta-feira (3), quando foi protocolado o aviso de greve. Aos Fatos então contatou a CNTA e procurou posicionamentos de representantes da categoria.

Por fim, procuramos Chicão e o perfil no X Democracia Vive para abrir espaço para eventuais comentários sobre a reportagem.

Referências

  1. BBC Brasil
  2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4 e 5)
  3. Valor
  4. Estadão (1 e 2)
  5. Reuters
  6. Metrópoles (1 e 2)
  7. Facebook (CNTTL)
  8. Fetrabens
  9. TSE
  10. InfoMoney
  11. IstoÉ

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