Como apoiadores de Bolsonaro usaram mentiras para alegar perseguição do STF

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Usada para inflar os ânimos golpistas e alimentar os ataques às urnas que culminaram no 8 de Janeiro, a desinformação também está presente na tentativa de livrar Jair Bolsonaro (PL) das acusações sobre tentativa de golpe de Estado. O julgamento no STF (Supremo Tribunal Federal) que analisa a participação do presidente na trama golpista foi retomado nesta terça (9).

Nas redes e nas ruas, bolsonaristas têm aderido a três estratégias para alegar que o ex-presidente — que atualmente cumpre prisão domiciliar — é alvo de uma perseguição política:

  1. A de que não há provas na investigação da PF (Polícia Federal) que liguem Bolsonaro diretamente à trama golpista;
  2. A de que o ex-ajudante de ordens Mauro Cid não teria apresentado provas ou teria sido coagido pela PF e pelo ministro Alexandre de Moraes durante sua delação premiada;
  3. A de reciclar desinformações antigas sobre o sistema eleitoral, o 8 de Janeiro e o atentado a faca ocorrido em Juiz de Fora (MG) em 2018.

Os esforços para desassociar Bolsonaro da tentativa de golpe começaram antes mesmo do início do processo. Logo após o 8 de Janeiro, surgiu a tese dos infiltrados: os autores dos atos seriam petistas, não bolsonaristas. O objetivo era afastar qualquer responsabilidade de Bolsonaro e seu grupo político.

Com o início dos julgamentos dos presos no 8 de Janeiro no STF, em setembro de 2023, passaram a circular peças que acusavam o Judiciário de ser “parcial” ou “autoritário” – uma das justificativas da proposta de anistia que tem ganhado tração para livrar Bolsonaro de uma eventual condenação.

Neste ano, esse discurso de que os bolsonaristas são perseguidos pelo Supremo foi usado pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e pelo ex-comentarista político Paulo Figueiredo Filho para pressionar o governo dos Estados Unidos por sanções contra o Brasil e membros do Judiciário do país.

Em carta enviada ao governo brasileiro para anunciar um tarifaço de 50% sobre as importações brasileiras, Trump afirmou que os ministros do STF promoviam uma “caça às bruxas” contra Jair Bolsonaro, que seria alvo de perseguição, a despeito do apoio popular.

A seguir, Aos Fatos explica como líderes políticos e apoiadores têm recorrido às redes e ao palanque para tentar inocentar Jair Bolsonaro com o uso de desinformação.

Falta de provas

Print de um trecho do documento presente na denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) que citava decreto de Estado de Sítio. O texto diz: ‘(...) Alemanha a possibilidade de controle de normas constitucionais inconstitucionais, em especial ao reconhecer a existência de um direito supralegal, ou seja, um direito pressuposto natural acima da Constituição e de suas normas. [Aqui, tratar de forma breve das decisões inconstitucionais do STF]. Afinal, diante de todo o exposto e para assegurar a necessária restauração do Estado Democrático de Direito no Brasil, jogando de forma incondicional dentro das quatro linhas, com base em disposições expressas da Constituição Federal de 1988, declaro o Estado de Sítio; e, como ato contínuo, decreto Operação de Garantia da Lei e da Ordem, com (...)’.
Trecho de minuta apresentado na denúncia citava decreto de Estado de Sítio pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (Reprodução)

As tentativas de desqualificar as investigações surgiram logo após a Polícia Federal indiciar o ex-presidente por tentativa de golpe de Estado e outros crimes, em novembro de 2024. Em seguida, peças enganosas passaram a afirmar que não haveria provas no relatório da polícia.

Áudios obtidos pela PF e divulgados pela TV Globo, por exemplo, foram distorcidos para sugerir que não havia indícios que ligassem Bolsonaro à trama. Em paralelo, multiplicaram-se nas redes acusações de que o presidente estaria sendo perseguido politicamente.

A ofensiva voltou a ganhar força em fevereiro deste ano, quando a PGR protocolou uma denúncia contra Bolsonaro e outras 33 pessoas por organização criminosa, tentativa de abolição violenta do Estado Democrático de Direito e dano qualificado contra o patrimônio da União.

Quase imediatamente, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) publicou em suas redes que não havia “absolutamente nenhuma prova” contra o pai, ainda que o documento da procuradoria fosse embasado em uma série de fatos, como:

  • A “minuta golpista”, que previa a prisão do ministro Alexandre de Moraes e outras medidas de exceção de forma a convocar novas eleições;
  • Relatos de comandantes das Forças Armadas, que confirmaram ter sido apresentados à “minuta do golpe” e convidados a integrar a trama golpista;
  • E detalhes sobre o uso irregular da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) para disseminar desinformação e monitorar adversários políticos.

A delação de Mauro Cid

Fotografia que mostra o delator Mauro Cid — homem branco, cabelos castanhos, usa um terno preto, camisa branca e uma gravata verde, além de um relógio no braço esquerdo — e seu advogado Cezar Bitencourt — homem branco, cabelos castanhos, barba grisalha, usa um terno preto, camisa azul e gravata listrada em vermelho e branco. Ambos estão sentados com braços apoiados sobre uma mesa com papéis, copos descartáveis e dois microfones.
O delator Mauro Cid e o advogado Cezar Bitencourt durante o interrogatório dos réus da trama golpista (Ton Molina/STF).

Um dos pilares da investigação, a colaboração premiada firmada em 2023 pelo ex-ajudante de ordens Mauro Cid também foi alvo de mentiras nas redes, tanto para desqualificar as informações reveladas pelo militar quanto para sugerir que ele teria sido ameaçado durante os depoimentos.

Dois dias após a denúncia da PGR, em fevereiro, o ministro Alexandre de Moraes tornou públicos os vídeos da delação de Cid. Bolsonaristas, então, começaram a tirar de contexto recortes do depoimento para mentir que o ex-ajudante de ordens teria inocentado Jair Bolsonaro e que jamais teria usado a palavra “golpe”.

Mauro Cid prestou novo depoimento à Primeira Turma do STF em 9 de junho, que mais uma vez foi recortado e descontextualizado nas redes.

As peças alegavam que o ex-ajudante de ordens teria confirmado que Bolsonaro não teria assinado a “minuta do golpe”, e que isso o inocentava no processo. Os posts omitem, no entanto, trechos em que Cid afirma que o ex-presidente teria editado o documento e sugerido alterações.

Também circulou nas redes um trecho em que Cid afirmou ter ouvido do presidente que ele agiria apenas “dentro das quatro linhas da Constituição”. A fala seria uma suposta prova de que Bolsonaro não teria violado a lei. Contudo, em várias ocasiões, o ex-presidente citou que o artigo 142 permitiria uma intervenção militar – o que é falso.

Outra estratégia usada foi a de alegar que Cid teria sido coagido pela Polícia Federal ou pelo ministro Alexandre de Moraes durante os depoimentos. A afirmação — repetida inclusive por lideranças bolsonaristas durante os protestos de 7 de Setembro deste ano — foi desmentida pelo próprio advogado de defesa de Cid, Jair Alves Pereira, durante o julgamento no último dia 2.

Mentiras recicladas

Foto de coletiva de imprensa concedida por Jair Bolsonaro — homem branco, de cabelos curtos e grisalhos, usando terno preto, camisa branca e gravata azul clara estampada — após o STF (Supremo Tribunal Federal) aceitar a denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) que tornou o ex-presidente e outros sete aliados réus pela trama golpista. Ele está em frente a microfones, com as mãos erguidas em gesto enfático. À esquerda, está a deputada Caroline de Toni (PL-SC) — mulher branca, de cabelos lisos e castanhos, vestindo blusa marrom. Há outros homens próximos à deputada. À direita de Bolsonaro, aparece o senador Flávio Bolsonaro — homem branco, de cabelos castanhos, vestindo terno azul-marinho, camisa branca e sem gravata. Atrás, estão outros apoiadores e parlamentares, alguns usando óculos e ternos, observando a cena. Na parte inferior, há microfones de emissoras de rádio e TV.
Jair Bolsonaro e aliados após o STF aceitar denúncia da PGR que tornou o ex-presidente réu pela trama golpista (Lula Marques/Agência Brasil).

A última estratégia desinformativa foi capitaneada pelo próprio Bolsonaro ao longo do curso do processo. Repetindo o que fez ao longo de todo o seu mandato, o ex-presidente reciclou mentiras já checadas para vender a ideia de que estava sendo perseguido politicamente.

Na data em que foi tornado réu por tentativa de golpe, em 26 de março, Bolsonaro deu uma entrevista à imprensa em que repetiu diversas desinformações:

Entre maio e junho, o Supremo colheu depoimentos das testemunhas e dos réus do núcleo central da trama golpista, que inclui o ex-presidente. Em seu depoimento, Bolsonaro requentou novamente mentiras sobre o sistema eletrônico de votação e as eleições de 2022, de modo a sugerir que vinha sendo sistematicamente prejudicado pelo Judiciário brasileiro.

A estratégia também foi adotada por aliados próximos. Em discurso no 7 de Setembro deste ano, por exemplo, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro sugeriu que as autoridades estariam muito mais mobilizadas para condenar seu marido do que quando investigaram as causas do atentado a faca sofrido por ele em 2018.

A fala omite que a PF investigou o caso em dois inquéritos, que concluíram que o agressor, Adélio Bispo, agiu sozinho e sem ordens de terceiros.

O caminho da apuração

Aos Fatos realizou um levantamento de todas as peças enganosas verificadas e as cruzou com informações e acontecimentos identificados no decorrer do processo do qual Jair Bolsonaro (PL) é réu, por tentativa de golpe de Estado.

Depois, organizamos as informações em tópicos para explicar como a desinformação foi usada como estratégia para tentar inocentar e desvincular o ex-presidente da trama golpista. Para contextualizar, usamos checagens feitas pela equipe e notícias publicadas pela imprensa.

Referências

  1. g1
  2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9, 10, 11, 12, 13, 14, 15, 16, 17, 18, 19, 20 e 21)
  3. Agência Brasil (1 e 2)
  4. STF (1 e 2)
  5. CNN Brasil

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