Paulo Pinto/Fotos Públicas

Com dados imprecisos, prefeitos de Rio e São Paulo culpam ‘chuvas atípicas’ por enchentes há mais de 20 anos

Por Amanda Ribeiro e Bruno Fávero

14 de fevereiro de 2020, 19h10


Cidades brasileiras sofrem todos os anos com enchentes e deslizamentos como os que voltaram a acontecer neste mês em São Paulo e no Rio de Janeiro. Quase tão rotineiras quanto os desastres são as declarações de gestores públicos, que culpam chuvas atípicas pelos problemas – 9 dos 11 últimos prefeitos das duas maiores capitais brasileiras deram afirmações nesse sentido.

A maioria das alegações, porém, não é corroborada por dados: as precipitações foram realmente excepcionais (com menos de cinco ocorrências similares nos 20 anos anteriores) em apenas 5 de 13 vezes em que essa justificativa foi usada pelos gestores desde 1997, período coberto pelo levantamento do Aos Fatos (veja detalhes abaixo).

O prefeito de São Paulo, Bruno Covas (PSDB), foi o último a usar desse expediente ao culpar o excesso de chuvas pelas enchentes de segunda-feira (10), que mataram sete pessoas na cidade. Entretanto, tempestades de volume similar ou mais intensas aconteceram outras oito vezes desde 2000, segundo dados do Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) coletados no bairro de Santana.

O mesmo aconteceu com o prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella (Republicanos), em fevereiro de 2018, quando enchentes afetaram vários pontos das zonas sul e oeste da capital. Na ocasião, ele disse que os desastres haviam sido causados por "uma tempestade que nunca tivemos no Rio de Janeiro" — na verdade, outras 46 chuvas similares ou mais intensas já haviam caído na cidade desde 1998, segundo um pluviômetro da prefeitura instalado em Copacabana.

Em São Paulo, a reportagem encontrou registros de seis dos últimos sete prefeitos culpando a excepcionalidade das chuvas pelos prejuízos causados na cidade — Celso Pitta (então no antigo PPB, morto em 2015), Marta Suplicy (então no PT, hoje sem partido), José Serra (PSDB), Gilberto Kassab (então no DEM, hoje no PSD), João Doria (PSDB) e Bruno Covas (PSDB). A única exceção no período foi Fernando Haddad (PT).

Já no Rio, 3 dos 4 últimos prefeitos – Cesar Maia (então no PFL, hoje DEM), Eduardo Paes (então no PMDB, hoje no DEM) e Marcelo Crivella já disseram que as enchentes foram causadas por chuvas atípicas. A exceção foi Luiz Paulo Conde (então no PFL, já falecido).

Desastre anunciado. Há, entre esses casos, declarações que se seguiram a chuvas realmente excepcionais, como a tempestade de 218 mm que atingiu o Rio em 2019, recorde da série histórica que começou em 1997, ou as chuvas de janeiro de 2010 em São Paulo, que acumularam 480 mm no mês, até então o segundo maior valor desde 1961.

Mesmo chuvas atípicas, entretanto, não deveriam surpreender as prefeituras – é sabido que o aquecimento global têm causado um aumento na frequência de precipitações extremas e também que as cidades brasileiras não estão prontas para lidar com o problema, dizem especialistas.

"Há três décadas climatologistas vêm advertindo para o aumento da frequência de eventos climáticos extremos à medida que a atmosfera terrestre aquece. O ‘atípico’ hoje é o novo normal, mas o planejamento urbano e a resposta a desastres no Brasil seguem ignorando esse fato”, diz Carlos Rittl, doutor em biologia tropical e secretário-executivo do Observatório do Clima.

Na mesma linha, Augusto José Pereira Filho, professor do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências da USP (Universidade de São Paulo) diz que a própria constituição das cidades também impulsiona o processo. “A gente produziu um ambiente impermeável, superaquecido, que no verão funciona como atrator de tempestade", diz.

Mas o aumento nas precipitações não é suficiente para explicar por que, há décadas, tantas pessoas morrem em enchentes e deslizamentos nas cidades brasileiras. Por mais que seja um fator importante, a chuva não pode ser dissociada das falhas no planejamento urbano em casos desastres naturais, afirma Kátia Canil, professora de Planejamento Territorial da UFABC (Universidade Federal do ABC).

“A forma como a cidade está construída é que faz com que a gente tenha situações de risco e outros desastres. As marginais [do rio Tietê] estão construídas em uma 'planície de inundação', o próprio nome já diz. Ou seja, é a chuva ou a forma como a gente ocupou?”

Novos caminhos. Mesmo que a raiz do problema esteja na própria construção das cidades, há uma série de medidas – de treinamentos de emergência à valorização das áreas verdes das – que podem amenizar os desastres, diz Canil.

Um primeiro passo é preparar melhor os servidores públicos e a população para que lidem com potenciais danos provocados por essas chuvas. “Teve uma coisa muito positiva na mídia [nas últimas chuvas que atingiram as duas capitais], porque se falou: 'evitem sair de casa, não saiam de casa hoje'. A gente não tinha essa cultura, as pessoas ficam desesperadas para chegar no emprego, chegar na escola", diz.

Ainda mais importante, no entanto, é fazer um planejamento amplo que inclua políticas de prevenção e alterações na infraestrutura da cidade, afirma Canil. Isso envolve, por exemplo, mapear áreas sensíveis e propor intervenções específicas para esses lugares.

Também é essencial, diz, privilegiar projetos que aumentem as áreas verdes (elas facilitam a infiltração da água no solo), reduzir o uso de concreto e trabalhar com técnicas de bioengenharia – um exemplo recente é um teste anunciado pela Prefeitura de São Paulo em parceria com a USP para conter o processo de erosão do córrego Corveta Camacuã, na zona oeste.

Em nível nacional, o secretário executivo do Observatório do Clima, Carlos Rittl, lembra da existência de um Plano Nacional de Adaptação à Mudança do Clima. “Ele foi publicado em 2015 e contém diretrizes para ações e investimentos de construção de resiliência no país inteiro. Esse plano nunca foi executado e, no governo Bolsonaro, a própria secretaria que cuidava dele foi extinta”.

Abaixo, veja as declarações de prefeitos de Rio e São Paulo sobre as enchentes:

RIO DE JANEIRO

A gente teve uma chuva forte de 152 mm nas últimas quatro horas na Rocinha e 162mm em Copacabana. Essa é uma chuva completamente atípica. A gente sempre tem previsão de chuva forte, mas não assim com esse dobro de intensidade que é a média do mês de abril inteiro.

Marcelo Crivella (Republicanos) — 8 de abril de 2019

Quanto choveu: 218 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 0


Tivemos uma tempestade que nunca tivemos no Rio de Janeiro na quarta-feira, uma tempestade que, segundo especialistas, nunca tinha ocorrido antes na cidade.

Marcelo Crivella (Republicanos) — 22 de fevereiro de 2018

Quanto choveu: 63,6 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 46

Estamos, neste momento, enfrentando uma coisa atípica. A gente tinha imaginado que as chuvas tinham acabado em março. Nunca imaginávamos que no meio do ano tivesse uma chuva tão forte [...] No momento dessas tragédias, dessa chuva enorme, não se tem notícias do Rio de Janeiro num mês de junho tão chuvoso

Marcelo Crivella (Republicanos) — 21 de junho de 2017

Quanto choveu: 68,80
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 34

A prefeitura estava preparada. Não havia previsão de chuva dessa intensidade. Não há galeria limpa que resista a esse volume de água

Eduardo Paes (então no PMDB, hoje no DEM) — 6 de abril de 2010

Quanto choveu: 193,8 mm
Chuvas similares ou mais intensas (1997-2010): 0

A prefeitura do Rio tem um culpado para o deslizamento de terra e lama que bloqueou o Túnel Rebouças nesta quarta-feira (24): a chuva. Segundo o secretário municipal de Obras, Eider Dantas, em 24 horas choveu 219 milímetros no Cosme Velho, bairro da Zona Sul onde houve o acidente. Segundo a Defesa Civil, o normal para essa época do ano é 90 milímetros, no mês inteiro.

Reportagem da TV Globo sobre a gestão de Cesar Maia (então no PFL, hoje no DEM) - 24 de outubro de 2007

Quanto choveu: 112,8 (em Copacabana)
Chuvas similares ou mais intensas (1997-2007): 2


SÃO PAULO

Desde às 3h, em alguns pontos da cidade choveu metade do que era previsto para o mês de fevereiro, o que levou ao transbordamento dos rios Tietê e Pinheiros e prejudicou a fluidez das águas da chuva, alagando várias vias da capital paulista

Bruno Covas (PSDB) — 10 de fevereiro 2020

Quanto choveu: 114 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos últimos 20 anos: 8

São Paulo viveu, de ontem para hoje, em duas horas, o maior volume de chuvas que ela já viu nos últimos 30 anos. Um grau de precipitação surpreendente. Choveu em duas horas o que choveu em um mês

João Doria (PSDB) — 07 de abril de 2017

Quanto choveu: 82 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 20

Estamos no 11º dia de janeiro, já choveu 93% em relação à média do mês, o que mostra que a intensidade é muito grande [...] Se a qualquer momento chover mais que a capacidade de investimentos é evidente que haverá alagamentos

Gilberto Kassab (PSD) — Janeiro de 2011

Quanto choveu: 493,7 mm (em um mês)
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 4

50 dias dias de chuva direto sem trégua [...] não tem cidade que aguente

Gilberto Kassab (então no DEM, hoje no PSD) — 22 de fevereiro de 2010

Quanto choveu: 480 mm (em todo o mês de janeiro)
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 1

As chuvas dessa semana foram totalmente atípicas

Gilberto Kassab (PSD) — 12 de setembro de 2009

Quanto choveu: 78,1 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 14

Foi uma calamidade. Em duas horas caiu a quantidade de água correspondente a 40 dias de chuva. Os piscinões não foram suficientes para conter esse volume de água e transbordaram

José Serra (PSDB) — 4 de abril de 2005

Quanto choveu: 11,2 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 926

O que aconteceu foi o que disse o secretário de Infra-Estrutura Urbana [Roberto Bortolotto]. Poderiam ter sido feitas as obras que quisessem que, com o que caiu de chuva na cidade, não teria jeito.

Marta Suplicy (então no PT) — 4 de fevereiro de 2004

Quanto choveu: 70 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 9

Questionado sobre que garantia a população teria de que os alagamentos não se repetiriam, Pitta -que já havia dito no ano passado que São Pedro estava do seu lado- contou mais uma vez com a providência divina. Ele afirmou que a chuva de anteontem foi excepcional, daí a certeza de que não haveria repetição dos problemas

Reportagem da Folha citando Celso Pitta (então no PPB, morto em 2015) — 6 de março de 1998

Quanto choveu: 37,2 mm
Chuvas similares ou mais intensas nos 20 anos anteriores: 182

Referências:

1. Agora
2. EBC
3. G1 1, 2, 3 e 4
4. Jornal da USP
5. MMA
6. O Globo
7. UOL
8. Folha 1, 2 e 3
9. Estadão 1 e 2
10. Prefeitura de São Paulo

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