Não, cidades gaúchas não foram alvo de teste climático da ONU e dos Rockefeller

Por Luiz Fernando Menezes

10 de junho de 2024, 11h16

Se você acompanha esta newsletter, já deve ter percebido que teorias conspiratórias muitas vezes nascem da necessidade de negar a realidade. Essa estratégia desinformativa se torna ainda mais clara quando o assunto são desastres climáticos: usuários criam mentiras mirabolantes para tentar culpar “a elite”, quando, na verdade, as tragédias são resultado de ações da humanidade como um todo.

No ano passado, por exemplo, viralizaram nas redes publicações que diziam que os incêndios florestais nos EUA e no Canadá foram causados por lasers que vinham do céu e não pelas mudanças climáticas.

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Já neste ano, em meio às enchentes no Rio Grande do Sul, passaram a circular publicações que alegavam que as chuvas tinham sido causadas por “ondas Haarp”, uma tecnologia que transmite ondas de rádio.

Isso também já foi desmentido: essas ondas não conseguem manipular o clima, muito menos enviar o grande volume de chuva que atingiu o Rio Grande do Sul. Trata-se apenas de um programa americano iniciado na década de 1990 para estudar o comportamento das ondas eletromagnéticas.

“As ondas de rádio nas faixas de frequência que o HAARP transmite não são absorvidas nem na troposfera nem na estratosfera – os dois níveis da atmosfera que produzem o clima da Terra. Como não há interação, não há como controlar o clima. O sistema HAARP é basicamente um grande transmissor de rádio. As ondas de rádio interagem com cargas e correntes elétricas, e não interagem significativamente com a troposfera” — afirma o site oficial do projeto.

Mesmo com os inúmeros desmentidos, a teoria conspiratória não só continua circulando como ganhou novos contornos nas últimas semanas. Uma publicação viral passou a sugerir que as chuvas do Rio Grande do Sul foram um teste da ONU e da Fundação Rockefeller, que selecionaram 33 cidades para passar por eventos climáticos extremos.

Segundo a publicação (veja abaixo), as organizações estariam usando “tecnologias de geoengenharia para causar adulteração do clima e consequentemente provocando cataclismas nas cidades alvo”.

Vídeo distorce documentos e entrevista de André Trigueiro para criar teoria conspiratória sobre enchentes no RS
'Cidades resilientes.' Alerta de Trigueiro foi distorcido para fazer crer que ele estava denunciando existência de plano maligno da ONU (Reprodução/Instagram)

São tantas camadas de desinformação que é melhor listar os desmentidos:

  • Não há uma lista de “cidades-alvo” da ONU. O projeto da Fundação Rockefeller citado pelas publicações é o “100 Cidades Resilientes”, que previa financiamento para que municípios de diferentes países se tornassem mais resistentes a problemas econômicos, sociais e estruturais, incluindo as mudanças climáticas. Lançada em 2013 e encerrada em 2019, a proposta escolheu como representantes brasileiras as capitais Porto Alegre e Rio de Janeiro;
  • As peças distorcem também uma fala do jornalista André Trigueiro, que explicava em vídeo o conceito de “cidade resiliente” — nome dado aos locais que têm condições e estrutura para se recuperar de crises e eventos extremos. Os posts sugerem que o jornalista estaria denunciando os testes, quando, na verdade, ele só alertava para a necessidade de cidades se prepararem para desastres;
  • O vídeo alega ainda que a fonte da denúncia seria um “militar americano”. O documento apresentado como prova, no entanto, foi produzido em 1996 — antes, portanto, do projeto da Fundação Rockefeller — e imaginava uma estratégia futura para a Força Aérea dos EUA. Os autores citam no ofício um “futuro sistema de modificação climática” que, até onde sabemos, nunca foi posto em prática.

Logo, a culpa das enchentes não é de algumas dúzias de homens à frente da ONU nem da Fundação Rockefeller — elas são responsabilidade de todos os seres humanos, que há séculos promovem a destruição do meio ambiente como forma de sustento econômico.

Além das mudanças climáticas, comprovadamente causadas pela ação humana, especialistas também apontam como fatores de risco as construções em áreas de alagamento, a falta de manutenção de diques e barreiras e a falta de obras que permitam o escoamento da água.

Então, chega de criar teorias conspiratórias e apontar o dedo: a responsabilidade é coletiva.

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