China não monopoliza resina plástica nem comprou a safra de soja do Brasil até 2022

Por Priscila Pacheco

30 de outubro de 2020, 16h36


Um texto que circula nas redes sociais engana ao sustentar que a China tem o monopólio do polietileno, uma resina plástica, e que, por isso, os preços dos produtos com essa matéria-prima estão inflados. Hoje, o país asiático é responsável por 30% da produção mundial de plásticos, incluindo essa resina. Além disso, segundo a Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), o Brasil é abastecido pela Braskem, empresa nacional, e importa polietileno principalmente dos EUA e da Argentina.

A corrente (veja aqui) desinforma ainda ao alegar que a China comprou toda a produção de soja brasileira até 2022. Por mais que, de fato, parte da safra já tenha sido vendida, não é possível saber se tudo foi adquirido pelos chineses.

A peça de desinformação circula nas redes sociais desde setembro, mas voltou a ser compartilhada principalmente no WhatsApp, onde foi sugerida por leitores como checagem (inscreva-se aqui). A corrente também aparece em postagens no Facebook e foi marcada pelo Aos Fatos com o selo FALSO na ferramenta de verificação (entenda como funciona).


FALSO

Sabem pq tudo está subindo?? Não tem mais resina plástica, polietileno matéria prima básica para indústria de plástico no mercado. Está tudo na mão dos Chineses. A China têm o monopólio da resina. Tudo que foi importado é dominado pela Braskem da Odebrecht. Em pouco tempo, uns 40 dias a indústria vai parar .

Apesar da escassez e do aumento no valor de resinas derivadas do petróleo para fabricar plástico, como PE (polietileno), PVC (policloreto de vinila) e PP (polipropileno), no Brasil e no mercado internacional, não é verdade que a China tenha o monopólio do PE. Segundo relatório do Plastics Europe Market Research Group de 2018, a China é responsável por 30% da produção mundial de plásticos, incluindo a resina termoplástica polietileno.

Outros 21% da produção de resinas são de países asiáticos que não a China; 17%, da Europa; 7%, do continente africano; 4%, da América Latina; 18%, do Nafta (tratado norte-americano de livre-comércio que inclui Estados Unidos, Canadá e México); e 3%, da comunidade dos estados independentes, que congrega países da antiga União Soviética.

A Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico) disse para o Aos Fatos, por e-mail, que 55% do polietileno importado pelo Brasil, neste ano, vieram dos Estados Unidos. Outros 25% são da Argentina. Além disso, o mercado interno é abastecido pela Braskem, empresa petroquímica brasileira.

Em setembro, a Braskem anunciou que foi retomada a taxa de utilização normal das centrais petroquímicas no Brasil para atender a alta demanda por resinas termoplásticas de diversos setores no mercado brasileiro. Em maio, por conta da Covid-19, a empresa havia comunicado ao mercado a redução de carga das unidades de produção no país para 64% da capacidade nominal. De acordo com a portaria 20.809 publicada no Diário Oficial da União em 14 de setembro, o setor de plásticos é um dos mais impactados pela pandemia por causa da desaceleração econômica.

Assim, a peça de informação também engana ao dizer que a Braskem domina a importação de resinas, pois, na verdade, a empresa é produtora dos insumos. Além do Brasil, a companhia atua em outros países da América Latina e nos Estados Unidos. A sua produção tem destaque para PE, PP e PVC. Em nota para o Aos Fatos, a empresa também afirma que não importa resina de outras companhias.


FALSO

A produção inteira de soja do Brasil está comprada pela China até 2022.

A peça provavelmente se refere à notícia de que produtores de soja, principalmente os matogrossenses, teriam vendido parte da safra a ser colhida em 2022 já neste ano. Segundo o Imea (Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária), 3,5% do que será colhido daqui a dois anos em Mato Grosso, maior produtor de soja do país, estava vendido até o final de agosto. Logo, é FALSO que toda a safra foi adquirida.

Além disso, Cleiton Gauer, gestor de Inteligência de Mercado do Imea, disse ao Aos Fatos, por telefone, que não tem como saber para quem foi comercializado o produto. “Nós não temos como afirmar que foi somente para a China ou se foi para outros lugares. O que a gente supõe é que, como a China é o maior comprador, ela tende a ter uma fatia da próxima safra”, comenta.

Gauer também explica que é uma prática comum vender safras com antecedência, mas nem tanto, como agora. A desvalorização do real diante do dólar é um dos fatores que propiciam a comerialização tão adiantada.

“É uma modificação de cenário, do produtor se preparando, se precavendo, principalmente protegendo ou travando os custos, para não ter nenhuma surpresa lá na safra. Estão aproveitando as oportunidades desses melhores preços para garantir o insumo da próxima safra”, diz.

Inclusive, 50,5% da soja semeada a partir da segunda quinzena de setembro já havia sido vendida em julho, 25,2% a mais se comparado ao mesmo mês de 2019. Por fim, a China é a principal compradora de soja brasileira, mas não adquire 100% dos grãos comercializados. Até agosto de 2020, o Brasil havia enviado ao país chinês 4,7 milhões de toneladas de soja em grão. Na segunda e na terceira posições estão a União Europeia e a Tailândia, que receberam 501,2 mil toneladas e 445,4 toneladas respectivamente.


A peça de desinformação circulou nas redes sociais em meados de setembro, quando foi desmentida pelo Boatos.org e pela Agência Lupa. Nas últimas semanas, no entanto, voltou a ser compartilhada principalmente no WhatsApp, onde foi sugerida por dezenas de leitores do Aos Fatos como checagem.

Colaborou Luiz Fernando Menezes.

Referências:

1. Valor Econômico
2. Plastic Europe
3. Projeto Pack.org
4. DOU
5. Braskem
6. Yahoo
7. G1
8. Globo Rural
9. Ministério da Agricultura

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