O senador e candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fez uma transmissão ao vivo no YouTube na noite desta quinta-feira (1º), e o Aos Fatos checou as suas declarações. O presidenciável optou pela live após desistir de participar do debate que seria promovido ontem pela Globo.
A desistência se deu após duas intimações judiciais alterarem as regras do programa: uma determinava a participação do candidato Renan Santos (Missão), que não havia sido convidado originalmente, e outra impedia a emissora de manter o púlpito de Lula vazio e de permitir que os outros participantes direcionassem perguntas ao petista.
O presidente havia anunciado que não participaria do debate e deu uma entrevista no mesmo horário para o podcast Flow. Veja as checagens.
Com a desistência de Flávio e as determinações judiciais, a Globo decidiu cancelar o debate.
Horas depois, o candidato do PL abriu uma live em que conversou com aliados por cerca de duas horas. Durante a transmissão, ele mentiu ao dizer que Lula seria o responsável por liberar as bets no Brasil e que seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, estaria exilado nos EUA.
O candidato contrariou ainda dados oficiais ao acusar Lula de ter aumentado a fome e promovido uma quebradeira de empresas no país.
Veja a seguir tudo que checamos.
Você [Lula] que é o pai do tigrinho
Flávio repete uma desinformação recorrente em suas falas públicas: a de que Lula seria o responsável pela liberação das bets no Brasil. Na verdade, as apostas esportivas online foram legalizadas em dezembro de 2018, durante o governo de Michel Temer (MDB).
Na época, Temer sancionou a lei nº 13.756/2018, derivada de uma medida provisória apresentada no mesmo ano. Apesar de legalizar as bets, o texto não trazia nenhum tipo de regulamentação, o que deveria ser feito pelo próximo governo em até quatro anos, conforme constava na própria lei. Sem regras, as bets operavam sem fiscalização e sem recolher impostos.
O governo de Jair Bolsonaro (PL) chegou a deixar um decreto de regulamentação pronto em 2022, mas não o publicou antes do prazo chegar ao fim, em 12 de dezembro de 2022.
Então, ficou a cargo do governo Lula regulamentar o setor. A gestão enviou uma nova nova MP, que foi aprovada pelo Congresso Nacional e virou a lei nº 14.790/2023, conhecida como Lei das Bets.
Isso significa, portanto, que as bets foram liberadas em 2018 e passaram cinco anos sem qualquer restrição. No dia 25 de setembro, o governo decidiu proibir as apostas online no Brasil por meio de uma nova MP.
Eu tenho um irmão exilado nos Estados Unidos
A declaração é enganosa porque omite que o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) se mudou voluntariamente para os EUA em março de 2025 para fazer lobby contra o governo e o Judiciário.
A partir da reeleição de Donald Trump, Eduardo passou a fazer visitas frequentes aos Estados Unidos para, segundo ele, “denunciar os fatos que acontecem no Brasil”. Nos primeiros três meses de 2025, ele viajou quatro vezes aos EUA e defendeu ações contra autoridades brasileiras.
No dia 18 de março do ano passado, Eduardo anunciou que iria se licenciar do cargo de deputado federal para morar nos EUA e “denunciar a perseguição” a qual sua família estaria sendo submetida. Até aquele momento, o então parlamentar não tinha nenhuma condenação ou sequer decisão judicial contra ele.
Cerca de dois meses depois da mudança, o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes determinou a abertura de um inquérito contra Eduardo Bolsonaro por possíveis crimes de coação no curso do processo e obstrução de investigação referente à tentativa de golpe de seu pai, Jair Bolsonaro (PL).
O prazo para que ele voltasse da licença terminava em julho de 2025. Como ele não retornou, em dezembro daquele ano a Mesa Diretora da Câmara declarou a perda de mandato.
Eduardo foi condenado por unanimidade por crime de coação em meio ao inquérito no STF em junho deste ano. A pena determinada pela 1ª Turma foi de quatro anos e dois meses de reclusão em regime semiaberto. Como não houve mandado de prisão, no entanto, ele ainda não é considerado foragido.
Nós estamos no Rio de Janeiro, e fomos impedidos [de ir ao debate] por causa de uma censura e uma interferência do Poder Judiciário.
A declaração foi considerada FALSA porque não houve nenhum tipo de decisão judicial para impedir que Flávio participasse do debate eleitoral da TV Globo, previsto para quinta-feira (1º), mas que acabou cancelado. Ele, por decisão própria, desistiu de participar na última hora.
Na quarta-feira (30), o presidente Lula (PT) decidiu que não iria ao programa e que concederia uma entrevista ao podcast Flow no mesmo horário do debate. Até aquele momento, Flávio, Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Romeu Zema (Novo) estavam confirmados.
Nas vésperas do debate, no entanto, duas intimações judiciais alteraram regras previstas pela emissora:
- Uma do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), Gilmar Mendes, que determinava que o candidato Renan Santos (Missão) deveria estar presente;
- E a outra, da ministra Estela Aranha, do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), que impedia que a Globo mostrasse o púlpito de Lula vazio e que proibia candidatos de dirigirem perguntas ao ausente.
Minutos depois das decisões — por volta das 19h30 —, Flávio publicou em suas redes que não iria ao debate “em função da censura imposta ao evento pelo TSE”.

Recorde de empresas fechadas
Não é verdade que o Brasil registrou um recorde de falência de empresas no atual governo. Esse resultado foi registrado em 2015, quando 1.828 CNPJs requisitaram a falência no país. Já entre 2023 a 2026, o número oscilou: 846 (em 2023), 862 (2024), 734 (2025) e 234 (até abril de 2026).
Segundo os dados da série histórica do Serasa Experian, o número de falências, inclusive, caiu entre 2024 e 2025 (veja gráfico abaixo). Nenhum dos três anos completos do governo Lula também registraram números de falências superiores aos registrados entre 2012 e 2019.
Eu não posso compactuar com censura, com interferência do Judiciário.
Nesta declaração, o candidato se contradiz, já que sua campanha ingressou com diversas ações na Justiça para censurar conteúdos desfavoráveis.
Na última semana, Flávio recorreu à Justiça Eleitoral para tirar do ar um post do humorista Antônio Tabet sobre Nossa Senhora Aparecida, que, apesar de não citá-lo nominalmente, fazia referência à polêmica envolvendo a santa.
Na sexta-feira (25) André Mendonça, ministro do STF assinou uma liminar que determinava a remoção da publicação do humorista. Junto dessa decisão, posts sem nenhuma referência a Flávio, memes e até posts defendendo a padroeira foram suspensos das redes.
A decisão foi derrubada por Flávio Dino no domingo (27) sob o argumento de que não havia ilicitude. Na segunda-feira (28), o ministro Luiz Fux, atendendo a um pedido do candidato do PL, derrubou a decisão de Dino. Voltou a valer, então, a liminar de Mendonça.
No dia seguinte (29), a rede social X contestou a ordem de Mendonça e pediu que as postagens fossem analisadas individualmente. A plataforma argumentou que a relação apresentada pela campanha do PL reunia materiais de naturezas distintas.
A determinação para que postagens que associam o candidato à remoção de Nossa Senhora do título de padroeira do Brasil continuam suspensas. Na quarta-feira (30), no entanto, a publicação do humorista foi liberada pelo TSE.
O assunto chegou ao centro da disputa eleitoral impulsionado por boatos de que Flávio estaria se articulando “contra a santa”. Não há proposta neste sentido, e o próprio político negou as alegações.
Além desse caso, a campanha de Flávio entrou com outras dezenas de representações para tentar censurar publicações nas redes. Só no último mês, por exemplo, eles solicitaram a derrubada:
- De uma publicação do PSOL que associava Flávio à milícia;
- De um vídeo feito por IA em que Flávio aparece dançando ao lado de Daniel Vorcaro;
- De publicações de petistas que o acusavam de ter homenageado Adriano da Nóbrega e de ter pedido R$ 134 milhões a Vorcaro.
[Lula deixou o povo brasileiro] com fome.
Os dados, na verdade, mostram um cenário oposto ao citado por Flávio Bolsonaro na live: o número de pessoas com fome caiu durante o governo Lula e chegou ao menor patamar já registrado.
Em 2024, o Brasil possuía 6,4 milhões de pessoas em situação de insegurança alimentar grave, o que significa cerca de 3,2% da população, segundo o último levantamento do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), publicado em outubro de 2025.
Também foi durante o atual governo que o Brasil deixou o Mapa da Fome pela segunda vez. O país havia conseguido esse marco em 2014, durante o governo de Dilma Rousseff (PT), mas voltou em 2022, sob Bolsonaro.
Você [Lula] que deixou o povo brasileiro endividado.
O Brasil registrou de fato no atual governo um aumento do número de inadimplentes — pessoas que estão atrasadas no pagamento de suas dívidas. Mas esse número já era alto desde o governo de Jair Bolsonaro (PL) e cresce constantemente desde o governo Temer (MDB).
Segundo os levantamentos do Serasa Experian:
- Em 2018, antes, portanto de Bolsonaro assumir a Presidência, 62,5 milhões de pessoas físicas estavam inadimplentes;
- Em dezembro de 2022, o número havia saltado para 69,4 milhões de pessoas;
- O último levantamento, de agosto de 2026, mostra que o Brasil possui 83,9 milhões de inadimplentes.
Cenário semelhante aparece no levantamento do CNDL (Confederação Nacional de Dirigentes Lojistas) e do SPC (Serviço de Proteção de Crédito):
- No último mês de 2018, o Brasil tinha 62,6 milhões de brasileiros com CPF negativado;
- Em dezembro de 2022, o levantamento registrou 65 milhões de brasileiros nessa situação;
- Em agosto deste ano, o número saltou para 75 milhões de brasileiros.
Já o total de pessoas endividadas — aquelas que assumiram parcelas futuras em compras ou empréstimos, mas não necessariamente estão inadimplentes — permanece estável. Relatórios do BC (Banco Central) sobre estatísticas monetárias mostram que, em julho de 2026, último dado disponível, 49,9% das famílias estavam endividadas — 30,8% se não considerarmos os financiamentos imobiliários
Para comparação, em dezembro de 2022, o endividamento atingia 49% das famílias — 31% se não levarmos em consideração financiamentos imobiliários.
Cerca de 32 milhões que não votaram nas últimas eleições
De acordo com os dados do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), 20,9% do eleitorado brasileiro não compareceu para votar no último pleito presidencial, em 2022. O percentual representa cerca de 32 milhões de pessoas. Esse foi o maior número de abstenções desde 1998, quando 21,4% dos eleitores não votaram.
Outro lado
Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de imprensa da campanha do senador no início da tarde desta sexta-feira (2) para abrir espaço para comentários. Não houve retorno até a publicação deste texto.
O caminho da apuração
Aos Fatos transcreveu a live de Flávio por meio do Escriba e separou as declarações checáveis do candidato à Presidência. As afirmações foram analisadas com uso de bases em dados e documentos públicos.
Aos Fatos também procurou a assessoria do candidato, mas não houve retorno.





