Checamos a entrevista de Lula à TV Globo

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O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), candidato à reeleição, foi entrevistado pela TV Globo na noite desta quinta-feira (27) e Aos Fatos transcreveu e checou as suas declarações. Durante a entrevista, o petista disse nunca ter se encontrado com a lobista Roberta Luchsinger, sócia de seu filho, embora existam pelo menos dois registros públicos dos dois. Ele também repetiu desinformações recorrentes em suas falas, como sobre a erradicação da fome no país e o crescimento do PIB em gestões passadas.

A transcrição da entrevista foi feita automaticamente pela ferramenta Escriba, desenvolvida pelo Aos Fatos, e passou por revisão constante da nossa equipe durante a transmissão e nas horas posteriores. As checagens foram ao ar à medida que as apurações, conduzidas por repórteres e editores, eram finalizadas. Elas podem ser modificadas e atualizadas nas horas subsequentes com informações complementares.

A assessoria do candidato foi avisada previamente sobre as checagens do Aos Fatos, que abre espaço para eventuais contestações ou correções.

Jornalista

Olá, boa noite. Boa noite. Nós estamos entrevistando esta semana os candidatos à presidência da República nas eleições 2026. Foram convidados os seis candidatos mais bem colocados na pesquisa Quaest de 14 de agosto. A ordem das entrevistas foi decidida num sorteio com a presença de representantes das campanhas. Hoje nós recebemos aqui no estúdio o candidato Luiz Inácio Lula da Silva, do PT.

Amanhã, nosso convidado é Flávio Bolsonaro, do PL, e no sábado, Augusto Cury, do Avante. Nós já entrevistamos Romeu Zema, do Novo; Ronaldo Caiado, do PSD; e Renan Santos, do Missão. Cada entrevista vai ter 40 minutos de duração, com dois blocos e as considerações finais dos candidatos. Vamos então começar relembrando a trajetória do candidato Lula.

Aos 80 anos, Luiz Inácio Lula da Silva concorre à reeleição, pleiteando um quarto mandato. Lula nasceu em Caetés, no Agreste de Pernambuco, na época um distrito de Garnhuns. Em 1969, já em São Paulo, começou a trajetória política como metalúrgico e líder de movimentos sindicais. Ele participou da fundação do Partido dos Trabalhadores no dia 10 de fevereiro de 1980.

Foi deputado federal na Constituinte de 88 e presidente da República pela primeira vez em 2002, depois de disputar a quarta eleição. Lula foi reeleito em 2006 e obteve o terceiro mandato em 2022. Nas eleições deste ano, concorre ao lado de Geraldo Alckmin, candidato a vice pelo PSB.

Boa noite, candidato. Muito obrigado pela presença do senhor. Boa noite.

Lula

Boa noite, Tralli. Boa noite, Renata.

Jornalista

O tempo da entrevista começa a valer a partir de agora. Candidato, três inquéritos da Polícia Federal investigam o seu filho, Fábio Luiz Lula da Silva. A suspeita é de corrupção e tráfico de influência em órgãos federais. A PF apura se ele usou o fato de ser o seu filho para conduzir negócios de interesse privado dentro do Palácio do Planalto, do Ministério da Saúde e também na Dataprev. Os policiais federais afirmam também que ele mantinha uma sociedade oculta com outros dois empresários, Fernando Bittar e a lobista Roberta Luchsinger.

O senhor tem dito que é seu filho que tem que provar que é inocente e que, se ele for culpado, não vai haver privilégios. Mas cabe ao senhor responder pelo governo. Pergunta então ao senhor: que avaliação o senhor faz dessas acusações de corrupção e tráfico de influência na sua gestão?

Lula

Veja primeiro, Tralli,

não tem nenhuma acusação [contra meu filho]. São ilações, ilações, ilações tiradas de telefonemas.

Lula chama as suspeitas contra o filho de ilação, que é uma dedução ou conclusão a partir de fatos ou indícios. Fábio Luís da Silva, o Lulinha, está sendo investigado em três inquéritos no STF (Supremo Tribunal Federal) que apuram tráfico de influência no governo federal. Nenhum deles, no entanto, gerou até o momento uma acusação formal contra o filho do presidente ou foi concluído. Lulinha também chegou a ser citado no relatório da CPMI do INSS, no início do ano, mas o documento foi rejeitado.

Eu conheço isso muito bem, porque já vivi isso. O que eu tenho dito? Eu não sou do Ministério Público, eu não sou delegado, eu não sou juiz, eu sou presidente da República e pai do Fábio. Se o Fábio cometeu qualquer ilícito, qualquer ilícito ele terá que pagar como qualquer cidadão brasileiro cometeu ilícito.

Eu não vou afastar delegado da Polícia Federal, eu não vou fazer qualquer movimento para que meu filho seja acobertado se ele tiver erro, como outros já fizeram. Ele sabe o que eu passei, sabe o que a minha filha passou, ele sabe que a Marisa morreu por conta da falsa acusação que foi feita na Lava Jato. Portanto, ele tem obrigação de não ter feito o erro.

Eu estou muito tranquilo compreendendo a República tudo o que for preciso fazer no âmbito da polícia e da Justiça para aturar (...) será dado toda e qualquer garantia. Esse é o comportamento do presidente da República. Não é do pai do Fábio, é do presidente da República que tem que olhar para 215 milhões de brasileiros em igualdade de condições.

Jornalista

Mas, candidato, e as mensagens obtidas? Pela Polícia Federal, no celular dessa lobista, Roberta Luchsinger. Numa das conversas, candidato, ela afirma que seu filho entra em campo quando precisa e que os dois eram uma coisa só. E ela diz, abre aspas: eu sou o Fábio. Numa outra mensagem, ela afirma: eu trabalho a política via palácio. Eu sou boa de costura política. Os brasileiros não merecem algum tipo de explicação mais robusta diante de tudo isso que a Polícia Federal levantou até agora?

Lula

Tralli, você é jornalista e você conhece isso melhor do que ninguém. Fui vítima ali na Lava Jato da maior mentira montada neste país para evitar que eu fosse presidente na República. Eu poderia ter feito qualquer coisa para não prestar depoimento. Eu fiz questão de prestar mais de 20 depoimentos. Fiquei 580 dias na cadeia, porque somente eu sabia a verdade. E eu queria provar que a imprensa estava divulgando coisas mentirosas. Que o Moro tinha mentido para a imprensa, que o Dallagnol tinha mentido para a imprensa, com o meu filho vai acontecer a mesma coisa. Só ele sabe a verdade. Se ele fez erro, ele pagará. Não existe outro jeito. Ele não será protegido por ser meu filho, por ser meu irmão, nada. Portanto, ele sabe o que ele tem que fazer. Ele tem que provar a inocência dele. E eu tenho certeza que ele vai ser inocente. Vamos esperar o tempo. Não haverá da parte da Presidência da República um milímetro de movimento para proteger o meu filho. A acusação está feita, a Polícia Federal está investigando, a Polícia Federal está vazando coisas para a imprensa e eu espero que aconteça o julgamento. Se tiver que vir prestar depoimento, ele vai prestar depoimento, vai participar dos inquéritos. Se ele for culpado, pagará o preço. Se não for, ele será inocentado.

Jornalista

Candidato, em um desses inquéritos, a Polícia Federal, ela traz indícios de que seu filho teria atuado junto ao Palácio do Planalto para agendar uma reunião entre essa lobista e o então secretário executivo do Ministério da Saúde, conhecido como Berger. E aí, numa dessas mensagens, a lobista avisa seu filho que chegou a Brasília e ele responde, que ótimo, vai com tudo. É uma relação adequada, candidato?

Lula

Você acha que se eu pegasse o seu celular e fosse investigar tudo o que você falou, só tinha coisa certa, coisa correta? O que uma pilantra pode fazer no telefone? O que um cara qualquer pode fazer no telefone? Eu estou dizendo para você que o fato de ter pego conversa no telefone não justifica a absolutamente nada. Até agora não existe uma prova de um centavo público.

Até agora não existe uma prova de uma conversa do meu filho com qualquer ministro.

Até o momento, não foram divulgadas conversas de Lulinha com algum ministro. O filho primogênito do presidente é alvo de três investigações da Polícia Federal autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal. Em uma delas, que apura suspeitas de tráfico de influência, foram divulgadas mensagens de Lulinha com a lobista Roberta Luchsinger. O diálogo mostra que o filho do presidente diz ter encontrado para almoços com Marco Aurélio Ribeiro, conhecido como Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, e com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger do Nascimento Barbosa, o Berger. O cargo de Swedenberger é o segundo mais importante no ministério. Em uma das mensagens, Lulinha diz que já era o terceiro almoço que tinha com ele.

E eu tenho certeza que não fez. Agora, uma coisa eu vou lhe dizer, meu filho vai ser investigado como qualquer cidadão brasileiro.

Jornalista

Agora, candidato...

Lula

Eu estou só na expectativa de que termine esse inquérito, porque o que acontece? Nós, ele está sendo acusado de uma acusação, de um crime que nós descobrimos. Na Previdência Social, criaram em 2019 a quadrilha da exploração da Previdência Social. Nós vamos focar nesse assunto muito em breve. Nós, eu vou antecipar para você, nós pagamos 5 bilhões de reais a 3 mil... Pagamos 3 bilhões e meio de reais às 5 milhões de pessoas que foram assaltadas e já arrecadamos quase que 100 bilhões das coisas que nós tomamos das quadrilhas que estavam montadas. Portanto, meu caro, é o seguinte: se tem um brasileiro que quer que as coisas sejam investigadas...

Jornalista

Agora, o senhor se referiu há pouco sobre essa lobista e eu gostaria justamente de saber porque foi outra mensagem obtida pela Polícia Federal que diz que essa lobista, Roberta Luchsinger, afirma que o senhor teria oferecido um cargo a ela. E dito isso, que o senhor teria dito para ela: escolhe onde você quer ficar. Eu pergunto ao senhor: se isso aconteceu e se o senhor já recebeu essa empresária no Palácio.

Lula

Só faltou ela dizer o seguinte: que eu ofereci para ela o Ministério da Defesa, o Comando da Marinha, da Aeronáutica... É de uma imbecilidade.

Eu não conheço essa moça, nunca vi essa moça na minha vida.

A declaração é FALSA porque Roberta Luchsinger publicou, em seu Instagram, ao menos duas fotos com o presidente Lula: um post do dia 3 de novembro de 2022 e outro do dia 27 de outubro do mesmo ano. Ela também possui fotos com ministros e integrantes do governo após o petista ter sido eleito para seu terceiro mandato.

Reprodução
Reprodução

Nunca conversei com essa moça, ela nunca esteve próximo de mim. É o seguinte, malandro, sabe, é igual em qualquer lugar do mundo. (...) Eu estou acompanhando. O caso mais grave do que esse é o do Banco Master, que está silenciado.

Jornalista

Nós vamos também tratar desse assunto, mas antes gostaria de saber a sua avaliação. (...) A investigação da Polícia Federal envolve também um outro nome muito próximo ao senhor, que é o seu ex-chefe de gabinete, o Marco Aurélio Santana Ribeiro, conhecido como Marcola. A Polícia Federal diz que foi ele quem ajudou a agendar essa reunião dessa lobista no Ministério da Saúde e chegou até a receber a minuta de um contrato que favoreceria a empresa ligada ao Careca do INSS, que é considerado o pivô do escândalo do INSS. A minha pergunta ao senhor é a seguinte: o senhor não considera que esse tipo de relação leva suspeitas para dentro do Palácio?

Lula

Leva, leva, lógico que leva. Leva suspeita e leva desconfiança para mim. Porque o Marcola era meu chefe de gabinete. Agora, qual é o papel de chefe de gabinete? (...) O papel dele é encaminhar para o ministério. Agora, o que nós precisamos saber é o seguinte, essa mulher conseguiu liberar o dinheiro que ela disse que estava atrás. Ela conseguiu liberar. Ela conseguiu liberar o dinheiro. Tem prova de que tem dinheiro público, porque aí é que está o crime. Por isso é que eu não sou precipitado, Renata. Eu fui acusado de ter um apartamento que eu não tinha,

eu fui acusado de ter uma chácara que eu não tinha –

A fala simplifica o teor da acusação contra Lula. O petista de fato não era o proprietário formal do sítio em Atibaia (SP), que estava registrado em nome dos empresários Fernando Bittar e Jonas Suassuna, ex-sócios de seu filho Fabio Luis. A acusação, porém, não se restringia à propriedade do imóvel. O Ministério Público sustentava que Lula e sua família eram os beneficiários de reformas realizadas no local custeadas por empreiteiras como forma de pagamento de vantagens indevidas. Lula chegou a ser condenado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso, mas a condenação foi anulada pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em 2021 após a Corte entender que a Justiça Federal de Curitiba não tinha competência para julgar o caso. Na época, foi determinado que o caso fosse remetido à Justiça Federal do Distrito Federal, tribunal de primeira instância, para uma nova avaliação. Em agosto de 2021, a denúncia foi rejeitada com a justificativa de que o Ministério Público não havia apresentado provas para recomeçar a ação.

e só foi provada a inocência quando o processo foi anulado.

Portanto, como eu não sou juiz, eu vou muito devagar com isso. Eu não gosto de fazer pirotecnia com acusações sem que você teme no inquérito. Todos eles, todos eles que foram citados, todos eles que participaram, o caminho é um só. É o caminho da apuração, da investigação, ou da inocência, ou da condenação, se tiver cometido o crime.

Jornalista

Sobre a apuração, a Polícia Federal apurou mais. Ela disse também que essa lobista não só teria, por intermédio do seu ex-chefe de gabinete, conseguido a tal reunião, Mas ela também pagou despesas pessoais do seu então chefe de gabinete. Boletos, parcelas de financiamento de um carro, faturas de cartão de crédito. Ele ganhou ainda joias, pediu a ela um quadro no valor de 100 mil euros. O Marcola disse que, de fato, foi um empréstimo de 249 mil reais, que ele devolveu esse dinheiro. Mas eu pergunto ao senhor: é adequado o chefe de gabinete da Presidência da República ganhar joias e ter contas pagas por uma lobista? (...) Interesse em contratos do governo, o senhor sabia dessa relação que se passava na antessala do seu gabinete?

Lula

Deixa eu contar uma coisa pra você. Não é adequado. É totalmente errado. E o Marcola sabe do erro que ele cometeu, porque não é esse o papel do chefe de gabinete. Ele sabe disso. Ele sabe da importância de ser chefe de gabinete.

Agora, ele diz que tomou 249 mil reais de emprestado, é o que está na imprensa. Só ele sabe a verdade, se ele tomou ou não. Quando tiver uma uma acareação entre os dois é que vai saber se foi empréstimo ou não. Eu, por enquanto, acredito na versão dele de que foi empréstimo.

Jornalista

Por que ele não pede um empréstimo a um banco?

Lula

Por que ele não falou comigo? Eu disse para ele, cara, eu sou quase que nem seu pai. Por que você não falou comigo? Por que você não falou comigo do problema que você estava tendo? Agora é o seguinte: ele cometeu, ele pagará pelo ele que ele cometeu. É isso que vai acontecer. Era uma pessoa da minha total confiança.

Trabalha comigo há sete anos, todo o tempo que eu fiquei preso no Paraná, ele ficou o tempo inteiro lá. Agora, se eu cometi o erro, pago o preço do erro cometido. É isso. E eu espero que a polícia cumpra com a sua função. Ministério Público cumpra a sua função e o juiz faça o julgamento que for necessário fazer de acordo com os autos do processo. O que eu não me deixo impactar é por ilações. Eu conheço muito, muito. E já fui vítima muito disso. Então eu estou muito tranquilo com relação a isso. Muito deprimido e muito chateado. Porque o meu filho sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometer, eu vou pagar. O Marcola sabe que não poderia cometer nenhum erro. Se cometer, eu vou pagar. É assim que funciona.

Jornalista

Candidato, o senhor há pouco citou o escândalo do INSS, então nós vamos entrar agora nesse assunto aqui com o senhor. Nesse escândalo, para a gente refrescar a memória, mais de 4 milhões de aposentados e pensionistas brasileiros foram vítimas desses descontos ilegais. As fraudes aconteceram entre 2019 e 2024, podem ter passado de 6 bilhões de reais e as investigações revelaram que mais de 60% desses descontos sob suspeita aconteceram no seu governo. O presidente do INSS, ele está preso preventivamente. O Alessandro Stefanuto, ele é investigado por corrupção, organização criminosa, lavagem de dinheiro, entre outros crimes. Que explicação que o senhor dá hoje a esses aposentados e pensionistas?

Lula

Nós já demos a explicação. Primeiro que nós já devolvemos 3 milhões e meio de reais.

3 bilhões e meio de reais.

Até 27 de março, data do último balanço do governo federal, já haviam sido devolvidos R$ 2,95 bilhões. Outros R$ 547 milhões foram liberados até julho de 2026 por meio da Medida Provisória 1.378/2026. Ao se somar os dois valores, chega-se ao montante mencionado pelo presidente. Os desvios do INSS aconteceram principalmente entre 2019 e 2024 e envolviam cobranças indevidas no valor de aproximadamente de R$ 6 bilhões de beneficiários do Regime Geral de Previdência Social.

Não tem um aposentado que foi roubado e que não foi devolvido o dinheiro. E esse dinheiro vai ser ressarcido pelos bens que nós aprendemos da quadrilha.

Uma quadrilha que foi montada em 2019. Inclusive com a participação do ministro da Previdência daquela época.

Não é possível afirmar quando, de fato, a quadrilha responsável pelo esquema de fraudes no INSS foi montada, mas há indícios de que os desvios começaram antes de 2019 e se intensificaram posteriormente. Entre 2019 e 2024, entidades associativas e sindicatos cobraram em descontos associativos de aposentados e pensionistas um montante estimado em R$ 6,3 bilhões. Além disso, não havia ministro da Previdência Social em 2019. A pasta foi extinta entre 2016 e 2019 e suas atribuições ficaram a cargo da Secretaria de Previdência, vinculada ao Ministério da Fazenda. O Ministério da Previdência Social só foi recriado em 2021.

E nós passamos dois anos investigando, tanto a CGU quanto a Polícia Federal. Investigando, porque se a gente faz a denúncia antes da gente ter o processo como um todo, a gente atrapalharia, facilitando os bandidos. Nós temos questão de colocar na cadeia as pessoas. Virem o que é que estou a dar, virem o que é que estou a lhe pagar. Vamos fazer questão de ressarcir os cofres públicos com os bens que nós aprendemos deles.

Jornalista

Agora, fato é que no segundo ano do seu mandato, a quantidade de descontos suspeitos de legalidade mais do que triplicou em relação a 2022. O seu então ministro da Previdência, Carlos Lupi, foi alertado de que havia indícios de irregularidade. Ele soube disso em 2023, ou seja, dois anos antes da operação da Polícia Federal revelar o escândalo. O Lupi teve tempo para agir, mas ele só suspendeu os contratos um ano depois de saber, de tomar conhecimento dos fatos. Que explicações ele deu para o senhor?

Lula

Renata, nem os contratos foram suspensos pelo Lupi. Nós fomos a fundo para investigar, porque a gente não queria que a quadrilha se desmontasse. Demorou, demorou, porque a investigação demora.

Jornalista

Que explicação? O senhor ficou satisfeito com a explicação?

Lula

A explicação é que a Polícia Federal trabalhou com muita seriedade, a CGU trabalhou com muita seriedade para investigar. Levou dois anos. O dado concreto é que a quadrilha foi montada em 2019. Presa por nós, descoberta por nós, os previdenciários receberam o seu dinheiro de volta e nós vamos receber o que a Previdência pagou para a quadrilha. É simples.

Jornalista

O senhor pediu explicação?

Lula

Não pediu explicação, ele saiu do governo, é do governo... Ninguém nunca reconhece... Ninguém nunca reconhece que tinha corrupção. Precisou a CGU e a Polícia Federal investigar. E é assim que funciona a realidade, não tem outro jeito de funcionar. Tem coisas que passam 80 anos, passam até por... a luta é pura. No nosso caso, a Polícia Federal, a CGU, a AGU trabalham para que a gente coloque de pé toda e qualquer denúncia que aparecer.

Jornalista

O senhor disse que pediu explicações a Lupi e que ele saiu do governo. Recentemente, o senhor subiu num palanque com o Carlos Lupi, fez elogios a ele, recebeu apoio dele. Então, pergunto ao senhor: o senhor não vê problema em pedir voto ao lado de alguém que demorou para agir, para barrar os desvios e foi o responsável pela indicação do presidente do INSS, que está preso?

Lula

Deixa eu lhe falar uma coisa, ele não está condenado, ele é um cidadão livre. Você acha que você pode deixar de conversar com uma pessoa que é sua amiga, que foi... cometeu um erro? Se a pessoa está em liberdade e não está condenado?

Jornalista

Não é conversar, é pedir elogios. Fazer elogios.

Lula

Não, elogios não. Deixa eu te contar uma coisa. A relação política não tem nada a ver com a relaçãoadministrativa. Se ele tivesse cometido, e a Polícia Federal já tivesse acusado, ele já tivesse sido condenado, era uma coisa. Ele não está. Então vamos aguardar, Renata. Vamos aguardar a investigação.

Eu sei o que é isso, Renata, porque eu já passei por isso. Você sabe, como jornalista, que eu fui vítima da maior mentira montada neste país. Quem tinha como objetivo não me deixar ser candidato em 2018, tinha como objetivo desmontar a indústria de engenharia deste país e criar uma imagem negativa da Petrobras. Eu coloquei a minha cara e falei: eu vou.

Eu poderia ter saído do Brasil. Eu decidi: eu vou pra cadeia porque eu quero provar que o Moro é mentiroso. Quero provar que o Dallagnol é mentiroso. E quero provar que a imprensa... O dinheiro vai pedir desculpa, porque a imprensa brasileira comprou, comprou uma mentira, vendeu a mentira e nunca reconheceu que comprou a mentira.

Jornalista

Candidato, o jornalismo da Globo cumpriu a sua obrigação de noticiar os fatos durante essa cobertura...

Lula

É difícil pedir desculpas, é difícil pedir desculpas. A imprensa brasileira sabe que ela produziu um monstro mentiroso chamado Moro, chamado Dallagnol. Eu não esqueço do Power Point mentiroso contra mim. Eu não esqueço. Agora, eu me dispus...

Jornalista

Candidato, em relação a essa...

Lula

Eu me dispus a ir para a cadeia, me dispus a ir para a cadeia. Para voltar a ser presidente da República...

Jornalista

O senhor falou do PowerPoint, eu só quero dizer ao senhor, por favor, em relação a essa questão do PowerPoint, nossos princípios editoriais. Nós fizemos a devida retratação sobre esse assunto, então eu peço que a gente siga com a entrevista, ainda sobre esse assunto tão importante no Brasil, que se chama Previdência Social. Além de todos esses descontos indevidos, essa fraude bilionária, né, que começou em 2019, 23, 24, foi descoberta só depois. Tem um problema sério hoje ainda no Brasil que afeta aposentados e pensionistas, que é a fila do INSS. Quando o senhor assumiu esse terceiro mandato, o senhor prometeu zerar essa fila, não zerou a fila. Hoje ela está na casa de 1 milhão e 300 mil pessoas. Então, eu pergunto ao senhor, o que é que o senhor vai fazer, se reeleito, para oferecer mais qualidade nesse serviço essencial para os brasileiros?

Lula

Tralli, se você prometer que vai à Brasília, eu na semana que vem vou anunciar que a fila zerou. A espera de 45 dias vai estar apenas em 250 mil pessoas, que é o normal. Você não pode deixar de dizer, Tralli, que no meu governo, os aposentados recebiam aposentadoria, recebiam uma carta em casa dizendo: você tem tempo de aposentadoria, pode vir receber. Uma mulher que dava a luz, ela recebia o pré-natal quase junto com a criança. Uma pessoa que estava doente, era imediatamente.

As pessoas recebiam em carta os benefícios. Eles desmontaram, desmontaram o Brasil, desmontaram a Previdência. Nós chegamos e tinham 3 milhões de pessoas na fila e nós vamos entregar agora a fila terminada na Previdência Social. Você está convidado antecipadamente para ir à Brasília assistir o ato em que a gente vai comemorar com os aposentados. Semana que vem.

Jornalista

Candidato, caso Master. Um aliado histórico seu aparece nas investigações, Jaques Wagner, que até junho era líder do governo no Senado. A Polícia Federal apura se ele recebeu um apartamento como propina em troca de promover interesses do banqueiro Daniel Vorcaro na Bahia e no Senado. Apesar dessa investigação, o senhor continuou demonstrando apoio e pediu inclusive votos pro Jaques Wagner. Por isso eu lhe pergunto: antes de pedir votos pra ele, não é preciso aguardar as investigações desse caso, esclarecer de fato o envolvimento dele nesse caso?

Lula

O Banco Master causou um prejuízo a esse país de 60 bilhões de reais. 60 bilhões, não foi 60 dólares, foi 60 bilhões de reais. E tem muita gente nesse país envolvido. Até agora não está provado que o Wagner tem relação com o Banco Master. Até agora não está provado que o Wagner tem relação com o Master. O Wagner tem relação com o Augusto, que na época não era nem do Banco Master. O que eu não posso admitir para mim e aceitar é que eu possa fazer política vivendo de ilações todo santo dia. Você tem um processo, tem uma apuração, tem uma investigação, as pessoas são inocentes até provem contrário. As pessoas são inocentes até provem contrário. Se um dia, Renata, você for acusada, você torça para você tenha amigo que acha que você é inocente até provar sua culpa.

Jornalista

Mas pedir voto para ele antes das investigações serem...

Lula

Ele é senador da República, é candidato à reeleição, é um homem que tem relação comigo há 45 anos, desde o tempo de sindicalista, eu não posso colocar em dúvida o comportamento e a relação do Wagner comigo, por conta de uma ilação, não posso. Eu posso dizer eu tenho consciência que o Wagner é honesto, tenho consciência. Se ele cometeu um desvio, vai acontecer com ele o que vai acontecer com qualquer pessoa, vai pagar o preço do erro que cometeu. Eu não sou uma pessoa que muda de calçada quando encontra um amigo que está sendo acusado de alguma coisa, não. Até provem contrário, todos são inocentes.

Jornalista

Candidato, vamos falar de contas públicas e ajuste fiscal?

Lula

Eu acho que tá na hora de falar, porque estava parecendo que eu estava no Ministério Público.

Jornalista

Candidato, a dívida pública no seu governo ultrapassou os 10 trilhões de reais. E, além do tamanho da dívida, o problema é a direção que ela está tomando, a gente chama de trajetória da dívida. No seu governo, a dívida disparou 10 pontos percentuais, atingiu 82% do PIB. E essa trajetória, ela pressiona os juros que encarecem o crédito, que dificultam o investimento e que pesa no bolso das famílias. O seu programa de governo menciona uma necessidade de um ajuste fiscal, mas não traz metas explícitas para os próximos quatro anos. Então eu quero saber do senhor: quais são as suas metas e para que percentual do PIB o senhor pretende trazer essa dívida?

Lula

Renata, eu pensei que uma jornalista da tua qualidade, da tua competência, pudesse começar essa pergunta falando diferente, Renata. Você pode dizer: presidente Lula, o senhor foi o único presidente na história do Brasil que fez superávit primário durante oito anos do seu primeiro mandato. Dos países do G20, eu fui o único que fiz superávit primário durante oito anos. Nunca tive problema fiscal nesse país. Você acha que o Brasil está com problema de dívida pública porque nós chegamos a 80%? Sabe por quê? Porque nós estamos há mais de 10 anos sem crescer. Você sabe quando é que o PIB voltou a crescer acima de 2%, Renata? Quando eu voltei à Presidência da República. Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5% em 2010?

Você se esquece que eu deixei esse país crescendo 7,5%

De fato, o Brasil registrou um crescimento de 7,53% do PIB ao final de 2010, último ano do segundo mandato de Lula, conforme o IBGE.

e quando eu voltei, ele estava crescendo 1%. Ele só cresceu 3%, sabe, em 2023, 2024, 2025.

Lula repete uma desinformação recorrente em suas falas. Diferentemente do que ele sugere, o PIB brasileiro cresceu acima de 3% em três anos: 2011 (3,97%), durante o governo de Dilma Rousseff; e 2021 (4,76%) e 2022 (3,02%), na gestão de Jair Bolsonaro (PL). O presidente também exagera o crescimento de 2025 que foi de 2,3%, e não 3%.

Então deixa eu te falar uma coisa, na medida que você começa a crescer a economia, o PIB começa a cair, a dívida começa a cair com relação a dívida. 80% de dívida, sabe, um país, não é muito se você olhar para os Estados Unidos.

Jornalista

Essa não é uma preocupação...

Lula

Olha para o Japão, olha para a Itália. Você sabe qual é a dívida dos Estados Unidos? 120% do PIB, é 40 trilhões de dólares. Olha, o que é importante é o seguinte, uma dívida, sabe, uma parte dela é por conta da taxa de juros, que vocês defenderam a vida inteira o Banco Central independente.

Jornalista

Candidato, o seu ministro....

Lula

Você está lembrado que o Fernando Henrique Cardoso trocou três presidentes do Banco Central? Eu entrei, fiquei dois anos com o presidente do Bolsonaro. Porque se você não fizer a pergunta completa, eu vou dizer para você, a mim não preocupa a dívida pública. Eu vou lhe dizer por quê. Eu herdei esse governo em janeiro de 2023 com um déficit fiscal de 2,8%. Você sabe quanto vai ser o orçamento este ano? Superávit primário de 0,1%.

Portanto, se tem alguém nesse país que tem responsabilidade fiscal, sou eu.

Jornalista

E nem a trajetória da dívida o preocupa.

Lula

Eu quero a trajetória de baixar a taxa de juros. Porque tem uma coisa que nós temos que entender, ô Renata. Nós pegamos esse país numa situação... nós não tínhamos orçamento para governar. Você está lembrado da PEC da transição? A PEC da transição foi inclusive para pagar rombo deixado pelo outro governo. Deixou um rombo de 94 bilhões, sabe, de dívida com as pessoas, que nós tivemos que pagar.

Jornalista

Eu quero aproveitar esse assunto ainda, candidato...

Lula

Eu sinceramente, Renata. Eu tenho uma coisa que eu digo sempre, responsabilidade eu aprendi com a dona Lindu. Ela juntava os filhos, pegava o dinheiro e falava: vocês não podem comprar e gastar o que vocês não têm. Eu vou dizer uma coisa pra você lembrar. Em dezembro de 2008, por ocasião da crise do subprime nos Estados Unidos, o comércio entrou numa crise. Eu fui pra televisão, fiz um discurso de oito minutos convocando a sociedade brasileira a consumir. Porque era verdade que estava tendo desemprego, mas se ele não consumisse, ia ter mais desemprego ainda. Consuma com responsabilidade. Se você consumir com responsabilidade, você vai poder pagar sua dívida e o país vai voltar a crescer. Foi o ano em que as classes C e D consumiram mais do que a classe A e B. Então, se tem uma coisa que valoriza a minha vida, chama-se responsabilidade fiscal. Eu tenho uma equipe econômica que era do Haddad, que era do Guido, que agora é do Dario, com muita responsabilidade fiscal. Eu sei o que eu quero nesse país. Eu sei o que eu quero ser candidato outra vez.

Jornalista

Candidato, aproveitando então que o senhor acaba de tocar no nome do seu ministro da Fazenda, Dario Durigan, eu queria muito entrar nesse assunto agora com o senhor que é o seguinte: o próprio ministro da Fazenda do senhor tem manifestado preocupação com a rolagem da dívida pública, ele disse que o próximo governo vai ter que fazer ajustes fiscais, vai ter que reduzir gastos obrigatórios. Então, eu pergunto ao senhor o seguinte, o senhor pretende reduzir gastos obrigatórios? Porque é muito importante esclarecer isso para a sociedade e para a população. E se o senhor pretende reduzir gastos obrigatórios, quais exatamente? Que compromisso que o senhor estabelece, se reeleito?

Lula

O meu estabelecimento é o seguinte: é fazer esse país crescer. A minha proposta de ser candidato a presidência da República outra vez é porque eu já fiz o básico que eu tinha que fazer. Você está lembrado que eu comecei em 2003 dizendo que ao terminar o meu mandato, cada brasileiro que estiver almoçando, tomando café, jantando, eu terei realizado a obra da minha vida. Eu fiz mais do que isso. Depois eu fiz o PAC no segundo mandato, depois eu fiz o PAC 3, agora nesse mandato, com 1 trilhão e 900 bilhões de investimentos, dos quais até 2026, agora em dezembro, são 1 trilhão e 340 bilhões, dos quais 97% já quitados.

Então o que eu quero pro próximo mandato: eu quero fazer uma revolução tecnológica nesse país. Eu quero voltar a fazer com que esse país possa disputar com o mundo rico. Esse país vai ter que ser dono dos minerais críticos e das terras raras, esse país vai ter que apostar em uma inteligência artificial com linguagem portuguesa, esse país vai ter que tentar fazer uma reforma para que a gente tenha a nossa defesa tomando conta de 8 milhões e meio de quilômetros quadrados, que tá totalmente abandonado.

Nós tamos que vendo que, depois da China, nós temos possivelmente o país que tem mais minerais críticos e terras raras. E você percebe que tá sendo vendido enquanto a gente não faz a regulação. Eu tive com o Alcolumbre essa semana, pedindo para ele, vamos aprovar a regulação para que a gente não permita que as nossas riquezas sejam vendidas, porque isso, se a gente souber extrair, sabe? Transformar e produzir o material que a gente pode, fazer bateria, fazer chip, fazer celular, aqui dentro do Brasil, a gente vai estar criando um passaporte para dar oportunidade para a juventude brasileira, sabe? Ter orgulho de que no seu país ela vai ter condições de estudar, de trabalhar e de ganhar sua vida. É esse o futuro que eu quero para o país. E é por isso que eu estou pleiteando o quarto mandato. Porque

eu já acabei com a fome duas vezes.

Lula trata a saída do Brasil do Mapa da Fome como se fosse a erradicação total do problema no país, mas não é bem assim. É fato que o país deixou o Mapa da Fome da ONU (Organização das Nações Unidas) em 2014, no governo Dilma, e agora em 2025. Isso, no entanto, não significa que a fome acabou. Em 2013, um ano antes do Brasil sair do mapa pela primeira vez, 3,6% da população (cerca de 7,2 milhões de pessoas) estava em situação de insegurança alimentar grave — nome estatístico da fome. Já em 2024, último ano disponível, essa taxa era de 3,2% (cerca de 6,4 milhões de pessoas).

Duas. Você sabe que quando eu voltei agora, esse país estava destruído. Destruído. O déficit era 2,8%. O último foi 08. E agora, nesse orçamento, vai ser positivo. Nós vamos fazer superávit esse ano.

Jornalista

Candidato, depois...

Lula

Porque sabe o que acontece, o Tralli? Eu aprendi muito cedo.

Jornalista

Posso avançar nos assuntos, por favor?

Lula

E se eu gastar mais do que eu ganho, eu não vou conseguir realizar nada. Eu vou me perder. Então eu tenho, na próxima pergunta eu vou lhe contar a minha conversa com o FMI. Esse país aqui, porque se a gente não contar, a meninada que está ouvindo a gente não entende.

Esse país aqui devia 30 bilhões de dólares [ao FMI].

É verdade que Lula assumiu o governo em 2003 com uma dívida no FMI (Fundo Monetário Internacional) de US$ 30 bilhões, mas a declaração dele omite um contexto importante: conforme explica um documento da instituição, o próprio petista deu aval para o empréstimo feito em 2002, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Entre outras medidas, o dinheiro foi usado para vender dólares no mercado de câmbio e conter a apreciação da moeda estrangeira. A fuga de dólares estava relacionada com a imprevisibilidade que a eleição de Lula representava para o mercado. A dívida, de fato, foi quitada em 2005, quando ele já era presidente.

Esse país aqui, o Malan não conseguia uma audiência o FMI. Esse país aqui não podia pagar suas importações. Quando eu assumi a presidência, todos os economistas diziam que o país estava quebrado. Pois bem, o país não quebrou. Eu paguei 30 bilhões do FMI. Fiz a primeira reserva de dólar desse país, de 270 bilhões de reais, que é o que segura a estabilidade econômica desse país até hoje.

Jornalista

Ainda falando sobre economia, sobre essa questão de dívida pública, quero muito ouvir o senhor sobre a crise nas estatais. As estatais brasileiras federais estão acumulando prejuízo de 20 bilhões de reais no seu governo. E o caso mais emblemático, mais grave, é o dos Correios. Já são quatro anos seguidos de prejuízo, é um rombo histórico, são 15 bilhões de reais, candidato. A própria direção da estatal diz que parte da crise se deve à baixa qualidade da operação da empresa. Não ter eficiência num setor cada vez mais competitivo significa risco de prejuízo. O senhor considera vender os Correios?

Lula

Deixa eu lhe falar uma coisa, Tralli. Você já era nascido em 1985? Desde 1985, o Correio Brasileiro vive crise e alguém quer privatizar o Correio. O Correio é uma empresa muito importante para o Brasil, porque ela está em todos os municípios brasileiros. Obviamente que o Correio, a vítima da crise do Correio, é que ele não se adaptou aos novos tempos. Não se adaptou. Surgiu muita empresa de fazer entrega e o Correio ficou na mesmice. Não só a gente está com uma nova administração no Correio, que está com a responsabilidade de fazer o enxugamento que for necessário, sabe, nas contas do Correio. Se for necessário fazer associação com a empresa, nós faremos com a empresa brasileira, com empresa estrangeira, porque a gente quer um Correio prestando serviços junto com qualquer outra empresa.

Jornalista

O senhor garante, então, que o Correio vai sair dessa crise?

Lula

Garanto.

Jornalista

Vai sair desse tombo? Vai sair dessa dívida toda?

Lula

Garanto.

Jormalista

O senhor não considera vender?

Lula

Não considero vender o correio, não considero.

Jornalista

Candidato?

Lula

Considero recuperar o correio, sabe? E para ele prestar serviço de qualidade ao povo brasileiro.

Jornalista

A gente vai continuar essa entrevista já, já, só um pequeno intervalo e a gente volta em instantes.

Nós estamos de volta com o segundo bloco da entrevista com Luiz Inácio Lula da Silva, candidato do PT à Presidência da República. Candidato, vamos falar de educação. Estamos de... vamos falar do acesso à escola entre jovens de 4 a 17 anos, que está na casa dos 97%, está perto da universalização, o que é bom. Mas a gente sabe que acesso não é a mesma coisa que aprendizagem. E um estudo do Todos pela Educação, divulgado agora em agosto, mostra que 6 em cada 10 jovens brasileiros terminam o ensino médio na rede pública sem aprender o básico em matemática. Eu quero saber do senhor por que esse resultado e qual é o seu plano para melhorar, se o senhor for reeleito?

Lula

Então, deixa eu te dizer uma coisa, Renata. Se tem uma coisa que eu tenho orgulho é que o Brasil nunca teve um presidente da República que cuidasse da educação como eu cuidei. Eu sou o presidente da República que mais coloquei aluno em escola de tempo integral. Nós fizemos um pacto com os prefeitos para a alfabetização das crianças na idade certa, que a gente previa até 2030 chegar a 80% dos jovens. Chegamos a 66% no primeiro ano desse acordo.

Porque as coisas estão evoluindo muito. Eu criei o Fundeb para garantir que os meninos do ensino médio não desistissem da escola. Quinhentos mil desistiam por ano para ajudar no orçamento familiar. Nós criamos o Bolsa Família, ou melhor, nós criamos o Pé-de-Meia garantindo uma conta, uma poupança para o jovem para ele não desistir da escola. Isso diminuiu a evasão no primeiro ano em mais de 60% dos alunos. E sou o presidente que mais fiz universidade nesse país. Mais fiz institutos federais. Dos quase 800 institutos desse país, 80% foi feito por mim e pela Dilma.

Jornalista

E com relação a essa dificuldade do aprendizado?

Lula

Veja, a dificuldade no aprendizado você tem que entender, o estado como o Ceará a molecada é mais evoluída do que em São Paulo. Porque na verdade a educação básica, ela é administrada pelo estado. O governo tem o Fundeb que ajuda os estados. Mas cada estado age de um jeito. O Ceará e o Piauí são os dois estados pobres que têm o melhor nível de educação nesse país. Você sabia que 40% dos alunos que passam no vestibular do ITA em São José dos Campos são cearenses?

Por isso eu levei o ITA para Fortaleza, como premiação. Você sabe que nós criamos aqui no Rio de Janeiro uma faculdade da matemática para premiar os alunos que participam das Olimpíadas da Matemática, os que têm medalha de ouro, nós fazemos um vestibular entre eles e os 400 melhores estão numa faculdade de matemática aqui, com dormida, comida, porque a gente não quer perder mais gênio.

Jornalista

E os especialistas em educação dizem que é muito importante investir na formação dos professores. Qual é a sua proposta para isso?

Lula

Então, olha, sabe o que nós fizemos? Nós estamos dando uma bolsa de estudos para o menino do Enem que passar em primeiro lugar, que for ser professor, ele vai ganhar uma bolsa de estudo para estudar para professor. Porque normalmente ele não quer, os melhores, quer outra coisa. E nós estamos dando uma bolsa porque nós sabemos que a qualidade do professor influencia, sabe, na formação do aluno.

Jornalista

Então, candidato, para a gente falar de um outro tema, pois não...

Lula

Quem criou a Olimpíada da Matemática no Brasil, na escola pública, fui eu. Contra a vontade de muita gente que dizia que as crianças não gostavam de matemática. Na primeira inscrição, entrou 10 milhões de crianças. Na segunda, 14 milhões de crianças. Na terceira, 18 milhões de crianças. E quando as crianças aprendem a desfiar o casulo da matemática, passa a ser a matéria que eles mais gostam. Então, agora, no futuro, por isso que eu quero um quarto mandato, nós precisamos colocar muito gente para fazer matemática, muita gente para fazer engenharia, muita gente para aprender esse mundo digital e discutir inteligência artificial, porque nós não queremos ficar subordinados à briga dos Estados Unidos com a China.

Jornalista

Agora, antes de encerrar, eu gostaria de ouvir do senhor sobre um tema muito importante que é segurança pública.

Uma das maiores preocupações do brasileiro hoje.

Exato. Nos últimos 24 anos... O nosso tempo é curto.

Lula

Acabou a educação?

Jornalista

Nós estamos tentando avançar nos temas, candidato, porque estão faltando menos de 5 minutos.

Lula

Deixa eu falar uma coisa importante...

Jornalista

Nos últimos 24 anos, então, 17 foram com o PT na Presidência. O senhor está no terceiro mandato, são 12 anos na cadeira de presidente. Na sua avaliação, candidato, por que nesses mais de 20 anos o crime organizado se espalhou pelo Brasil? Preciso ouvi-lo sobre isso.

Lula

É importante que a gente contribua para formar as pessoas que estão nos assistindo. Na Constituição de 88, a Constituição aprovou que a segurança pública era da responsabilidade do estado. A sociedade civil estava cansada dos militares terem ingerência nas políticas estaduais e nós, então, a pedido de todos os progressistas da Constituinte, demos para o estado. O governo federal ficou com a Polícia Federal, com a Polícia Rodoviária Federal e com a Polícia Penal.

Eu estou discutindo no Congresso Nacional, foi colocado para votar agora. Por isso que eu almocei com o Alcolumbre e com o Hugo Motta, votar a PEC da Segurança Pública, porque a hora que for aprovar a PEC da Segurança Pública, eu crio o Ministério da Segurança Pública. Por que eu vou criar o ministério? Porque primeiro eu quero estabelecer qual é a participação de cada ente federado da segurança pública. Qual vai ser o papel da União, qual vai ser o papel do estado e qual vai ser o papel do município. Porque aí sim a gente vai trabalhar muito forte, talvez irmanado.

Teve muitos governadores que não quiseram. Tarcísio não quis, Caiado não quis, porque não querem que o governo federal se meta na segurança pública.

Jornalista

Candidato, aproveitando, então, posso aproveitar esse gancho que o senhor falou da coordenação entre governadores, a PEC da segurança, que o senhor está tentando passar no Congresso Nacional, lembrando então que o senhor vai completar 12 anos como presidente. O PT governa a Bahia tem 20 anos e a Bahia hoje tem 5 das 10 cidades mais violentas do Brasil. O maior número de mortes violentas de crianças e adolescentes é o triplo da média nacional. Por que o PT não tem conseguido coordenar ações eficientes e em segurança na Bahia, mesmo governando o país e o Estado ao mesmo tempo e há tanto tempo, candidato?

Lula

Não seja injusto com a Bahia. Nenhum governador do Brasil, nenhum, conseguiu resolver o problema da segurança pública. Nenhum conseguiu segurar. Se você pegar do Oiapoque ao Chuí ninguém conseguiu. Ninguém. Você é de São Paulo, Tralli.

Jornalista

Mas nem tendo o governo do Estado e o governo federal, candidato?

Lula

E você, muito menino, cansou de ver as campanhas do Maluf lá em São Paulo. Bandido bom é bandido morto. Cansou de ver carreta passeando com o artista fantasiado de prisioneiro. Ninguém consegue resolver. Só vai conseguir se a gente tiver muito investimento em inteligência. É isso que eu quero fazer. O que eu quero fazer? Aprovando a PEC, nós vamos criar o Ministério da Segurança Pública.

Vamos decidir qual é o papel da Polícia Federal nos estados, porque você sabe que a Polícia Federal não pode investigar crime nos estados, a não ser que seja crime federal. E nem sempre os governadores pedem. Se não fosse a Polícia Federal, a gente não pegava o assassino da Marielle aqui. E o governador não queria que a gente fizesse investigar. Então, o que é que eu quero? Nós fizemos agora, aprovamos uma lei antifacção, estamos trabalhando a questão do combate ao crime organizado, por isso eu fui levar para o Trump uma proposta por escrito. Se os Estados Unidos quiserem trabalhar junto com o Brasil para combater o narcotráfico, o crime organizado, o Brasil está pronto e preparado. Montamos uma base da Polícia Federal em Manaus para tomar conta da fronteira com representantes de policiais de cada país da América do Sul para que a gente possa enfrentar. Por quê? Qual é o meu desejo? O meu desejo é recuperar o território do povo. Sabe aquela rua? É do povo do Rio, não é do bandido. A escola é do povo, não é do bandido. O bairro é da escola. Nós precisamos, então, enfrentar isso. E enfrentar uma coisa mais grave, que é enfrentar o andar de cima. Como nós fizemos a Operação Carbono Oculto, que foi a maior operação já feita na história desse país. Nós estamos preparados para muitas operações. O que eu quero é que prefeituras importantes como Rio de Janeiro, São Paulo, tem que ter policial com ação de policial, não vai ficar o policial sem poder prender.

Se a gente fizer uma combinação de criar uma espécie de SUSP da Segurança Pública, e a gente trabalhar conjuntamente, eu posso te garantir que o povo brasileiro que vai ganhar. E por isso que eu fui conversar com o Alcolumbre. Vamos aprovar a PEC, porque aprovando a PEC, eu crio o ministério na semana seguinte. E depois de criar o ministério, não é que ele vai funcionar rapidamente, não. Eu vou ter que convencer o Dario, que está assistindo o programa daqui, de que tem que colocar recursos, porque pra gente ter uma polícia eficiente e a gente acabar com o crime organizado, a gente vai ter que ter muito dinheiro.

Jornalista

Candidato, o nosso tempo acabou. Eu peço agora que o senhor faça as suas considerações finais, a sua despedida do eleitor. O senhor tem um minuto.

Lula

O Renata e Tralli e telespectadores que, sabe, que estão nos assistindo. Eu quero dizer para vocês que eu vivo hoje, aos 80 anos, o melhor momento da minha passagem pelo planeta Terra. Eu tenho consciência do que nós fizemos nesse país. Eu tenho dito para todo mundo que se você pesquisar desde a proclamação da República até o dia de hoje, você não vai encontrar nenhum governo que fez a quantidade de política de inclusão social que nós fizemos. É muito estranho dizer que o metalúrgico sem diploma universitário é o presidente que mais fez universidade nesse país. É muito estranho dizer que um presidente sem diploma universitário foi o que fez mais instituto federal nesse país.

É importante dizer que quando eu cheguei na Presidência, nós tínhamos 5 milhões de trabalhadores no mercado de trabalho com diploma universitário. Hoje nós temos 25 milhões

Em 2003, 5,5 milhões de brasileiros com diploma universitário estavam empregados. Já em 2025, a população ocupada com renda do trabalho e com ensino superior chegou a cerca de 25,5 milhões de pessoas.

e eu quero chegar a 50, porque eu quero que o Brasil seja exportador de inteligência e de conhecimento. Eu não quero que o Brasil continue exportando, sabe, minério de ferro, soja e milho, sabe, que é muito importante, mas é importante a gente exportar inteligência que é isso que vai dar competitividade. Nós vamos fazer um forte investimento em educação, vamos apresentar um plano de educação.

Jornalista

Terminou o tempo, candidato.

Lula

Então, obrigado.

Jornalista

Quero agradecer muito a entrevista. Muito obrigado aqui pela sua presença.

Lula

Obrigado, Tralli. Obrigado, Renata.

Jornalista

Obrigada. Amanhã, o nosso entrevistado é Flávio Bolsonaro, o candidato Flávio Bo

Boa noite, muito obrigado e até amanhã.

Referências

  1. <em>Escriba</em>

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