Internet aproveita abundância de documentos do caso Epstein para acusar famosos de canibalismo

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Cerca de um mês depois da revelação de novos documentos sobre o caso de Jeffrey Epstein, a internet continua inventando mentiras para tentar minar a reputação de artistas e políticos.

Mas vamos combinar: era de se esperar. São tantos documentos — cerca de 3 milhões de páginas, 2.000 vídeos e 180 mil imagens — sobre o empresário acusado de liderar uma rede de tráfico sexual que não é difícil acreditar em eventuais bizarrices que pipocam por aí.

Na última semana, começou a viralizar nas redes — tanto nos EUA quanto aqui no Brasil — a história de que os emails continham provas de que a apresentadora Ellen Degeneres e o ator Leonardo DiCaprio teriam praticado canibalismo em eventos promovidos pelo empresário.

Frame de vídeo mostra Ellen Degeneres — mulher branca, loira, de cabelos curtos, vestindo terno branco e camisa azul. No primeiro plano, há o texto “a mais faminta”.
Vídeo com quase 2 milhões de visualizações alega que Degeneres seria considerada a “mais faminta” da lista de Epstein (Reprodução/TikTok)

Segundo as peças de desinformação, o nome dos artistas seria citado nos documentos junto com a alegação de que eles adorariam comer pizza — o que, segundo a teoria da conspiração, seria um código para “comer carne humana”.

Os conspiracionistas provavelmente inventaram esse “código” com base no Pizzagate, uma história comprovadamente falsa de que a elite democrata americana usaria uma pizzaria em Washington como fachada para uma rede de tráfico humano, exploração sexual infantil e até canibalismo.

Assim como o Pizzagate, a história da pizza de Degeneres e DiCaprio também é falsa: em busca nos documentos do caso Epstein no site do Departamento de Justiça americano, não encontramos nenhuma citação semelhante.

  • O nome “Degeneres” aparece 17 vezes, mas nenhuma delas traz uma conversa direta entre a apresentadora e Epstein. A grande maioria dos casos são menções aleatórias a notícias ou tuítes que fazem referência a ela;
  • Algumas publicações dizem ainda que uma prova de que Degeneres teria envolvimento com atividades ilícitas seria a sua mudança dos EUA. Para os conspiracionistas, ela teria saído do país para fugir de uma eventual penalização pelas informações que seriam divulgadas nos documentos liberados;
  • O fato, no entanto, é que a apresentadora deixou os EUA no final de 2024, após a vitória de Donald Trump nas eleições;
  • Já o nome “DiCaprio” aparece 64 vezes na base de dados. Da mesma forma, no entanto, não há nenhum envolvimento claro do ator em atos criminosos;
  • Em um email enviado em 2016 para o médico indiano Deepak Chopra, por exemplo, Epstein pergunta se ele acha que DiCaprio se interessaria em jantar com “Woody” — uma provável menção ao diretor Woody Allen. Chopra responde, então, que iria perguntar “se ele está por aqui”. Não há informações sobre a ocorrência desse jantar.

As acusações de canibalismo nasceram de uma conspiração criada por representantes da direita americana, como o apresentador Tucker Carlson, que têm dito que os emails teriam códigos secretos para se referir à pedofilia e ao canibalismo.

A organização de checagem americana Snopes, que investigou os documentos a fundo, afirma que, de fato, há acusações de canibalismo e sacrifícios ritualísticos, mas elas não são comprovadas.

As citações diretas a “canibalismo” e “canibal”, por exemplo, aparecem em trechos e títulos de notícias, em um artigo acadêmico, um diálogo entre Epstein e outro homem (mas sem indicação de crime) e em um email recebido pelo empresário em que o remetente cita um restaurante chamado Cannibal — de fato, havia um estabelecimento com esse nome em Nova York.

Email, em inglês, de remetente sigiloso e destinado a Jeffrey Epstein, do dia 4 de maio de 2023. Tradução do texto: “Francis tem tempo para vir amanhã e mostrar como fazê-lo! Alguém afim de uma aula de carne-seca? Ele também vai trazer um pouco da sua nova receita de carne-seca do restaurante. E manda abraços. Ele está trabalhando em um restaurante chamado Cannibal e cozinha… saca só… carne-seca e bife! Ele tem tempo amanhã 3h da tarde se isso for ok para você’.
Remetente oculto enviou email, em 2013, sobre uma suposta aula de culinária (Reprodução)

Como não cair em desinformação sobre o caso Epstein

O caso Epstein é um ótimo motor de desinformação por conta da quantidade de documentos disponíveis: são muitos registros e ninguém vai se dar ao trabalho de ler milhões de páginas.

Caso você esteja desconfiando de algo que viu na internet sobre o caso, é possível adotar passos rápidos e simples para checar a veracidade da alegação:

  1. É possível realizar buscas por termos e nomes no site do Departamento de Justiça americano;
  2. Existem projetos de visualização das informações do caso, como o JMail — uma simulação da caixa de entrada de Epstein no Gmail — e arquivos no github que também permitem pesquisas;
  3. Lembre-se que a citação ao nome de uma pessoa não necessariamente a envolve em algum crime. Centenas de pessoas são citadas nos documentos porque aparecem em notícias compartilhadas por Epstein ou recebidas via clipping. Também há o caso de azarados, como a apresentadora Luciana Gimenez, que tinha uma conta no mesmo banco que o empresário;
  4. Por fim, sempre verifique se alguém já desmentiu a história ou se a pessoa citada comentou o caso.

Referências

  1. New York Times
  2. Britannica
  3. Departamento de Justiça dos EUA (1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
  4. Global News
  5. CNN
  6. Snopes
  7. Yelp
  8. JMail
  9. github
  10. g1

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