Na acusação que embasou a captura e a prisão de Nicolás Maduro no sábado (3), o governo dos Estados Unidos apontou que o venezuelano seria o líder da organização Cartel de los Soles (ou Cartel dos Sóis, em português). De acordo com o governo de Donald Trump, o grupo seria vinculado ao narcotráfico e composto por oficiais militares da Venezuela.
No entanto, o Cartel de los Soles, não existe — pelo menos não da forma usual e hierárquica com que se estrutura um cartel, segundo especialistas ouvidos por Aos Fatos. Essa nomenclatura é usada historicamente para se referir à corrupção sistemática nas Forças Armadas venezuelanas, sem liderança ou organização fixas.
O próprio Departamento de Justiça dos EUA voltou atrás na terça-feira (6) em relação à acusação de que Maduro lideraria a organização criminosa. O governo Trump, no entanto, ainda acusa o venezuelano de narcoterrorismo e aponta a Venezuela como uma das principais rotas de cocaína para os EUA.
As acusações envolvendo o Cartel de los Soles não são novas; elas têm sido exploradas pelos americanos há décadas para imputar crimes à alta cúpula do governo venezuelano.
Com base em registros históricos e entrevistas com especialistas, Aos Fatos explica a seguir de onde veio o termo Cartel de los Soles e como ele foi usado para acusar Maduro e outros líderes venezuelanos de vínculos com o narcotráfico.
- O que é o Cartel de los Soles?
- Como o cartel foi parar na acusação dos EUA?
- A Venezuela é mesmo um dos principais distribuidores de drogas para os EUA?
1. O que é o Cartel de los Soles?
O Cartel de los Soles é uma denominação usada para se referir a oficiais e grupos de militares envolvidos em corrupção na Venezuela, de acordo com o InSight Crime, think tank que monitora organizações criminosas latino-americanas. Não se trata, portanto, de uma facção ou grupo formal, com estrutura hierárquica, mas uma denominação usada historicamente para se referir à corrupção sistêmica nas Forças Armadas venezuelanas.
O termo foi usado pela primeira vez em 1993, quando dois generais da Guarda Nacional venezuelana foram investigados por tráfico de drogas. Citada pela imprensa em reportagens na época, a expressão fazia referência às insígnias usadas pelos militares, que tinham formato de sol.
O Cartel de los Soles voltou a aparecer no noticiário em 2004, quando um jornalista venezuelano usou o termo para acusar o comandante da Guarda Nacional e diretor de inteligência do país, Alexis Maneiro, de estar ligado a traficantes.
“A verdade é que não há evidências públicas, disponíveis para consulta, de que o Cartel de los Soles exista. Trata-se de uma hipótese criada nos anos 1990 de que alta cúpula das Forças Armadas venezuelanas atuaria como uma rede criminosa ligada ao narcotráfico, por conta de sua proximidade com os grupos guerrilheiros colombianos”, explicou a professora de relações internacionais da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) Carolina Pedroso ao Aos Fatos.
Segundo um especialista em segurança venezuelano, que preferiu não se identificar, “em meados da década de 1990, havia alegações sobre o envolvimento de um grupo de generais, principalmente da Guarda Nacional, no tráfico de drogas. Era uma espécie de feudo hereditário”.
“Quando um guarda deixava o cargo, quem o substituía assumia as mesmas funções nesse mercado e no tráfico de drogas. Essa era, em certa medida, a dinâmica do chamado Cartel de los Soles naquela época. Mas sempre houve o debate sobre se era realmente um cartel ou um grupo, uma aliança mais ou menos frágil de oficiais, mas também de policiais e civis que operavam ao seu redor”.
O governo Maduro nega a existência do Cartel de los Soles e afirma que se trata de uma invenção dos EUA para atacar a Venezuela. “Não sei há quantos anos inventaram isso, e nesse tempo já teve uns 300 chefes; sempre que alguém os incomoda, colocam essa pessoa no comando do Cartel de los Soles”, disse o ministro de Interior e Justiça da Venezuela, Diosdado Cabello, em agosto de 2025.
2. Como o cartel foi parar na acusação dos EUA?
O nome da suposta organização já apareceu em acusações feitas por diversas gestões americanas ao longo das décadas:
- Em 2007, durante o governo Bush, a NBC publicou uma reportagem em que diz que autoridades americanas teriam afirmado que o cartel seria uma operação do narcotráfico colombiano junto da Guarda Nacional da Venezuela;
- Em 2013, na gestão Obama, o Departamento de Justiça investigou o Cartel de los Soles — que, na época, acreditava ser uma aliança entre o governo de Hugo Chávez e oficiais — e indiciou três venezuelanos;
- Em 2016, dois oficiais venezuelanos foram acusados pelos americanos de participar de uma conspiração de distribuição internacional de cocaína. Reportagens citavam o cartel;
- Em 2020, no primeiro governo Trump, o Departamento de Justiça acusou Maduro de chefiar o Cartel de los Soles. Na denúncia, os promotores sustentaram que, desde ao menos 1999, o grupo seria liderado e administrado pelo presidente e outros membros do alto escalão do governo;
- A pressão sobre o líder venezuelano ficou ainda maior no início do segundo governo Trump, que o acusou inúmeras vezes de estar ligado ao narcotráfico;
- Em novembro de 2025, o Departamento de Estado dos EUA classificou o Cartel de los Soles como uma organização terrorista. O comunicado dizia que o grupo seria liderado por Maduro e outros indivíduos da alta cúpula do governo e era “responsável pela violência terrorista no hemisfério, assim como o tráfico de drogas nos EUA e na Europa”;
- Na época, o secretário de Guerra americano, Pete Hegseth, disse que a classificação do cartel “trazia uma gama de novas opções” para os americanos lidarem com os traficantes da região. Ao classificar uma organização como terrorista, os EUA podem usar poder militar para desmantelá-la.
A acusação feita pelo Departamento de Justiça em 2020 foi praticamente transposta para o texto que justificou a captura de Maduro na semana passada.
A citação ao Cartel de los Soles reverberou, inclusive, entre a direita brasileira, que passou a disseminar outras informações sem comprovação.
Segundo a oposição, o grupo seria “um braço” do Foro de São Paulo (fórum da esquerda latino-americana) e, por isso, o presidente Lula (PT) também poderia ser preso pelos americanos — o que não faz sentido, já que as evidências apontam que não se trata de uma organização com hierarquia e lideranças fixas.

Na terça-feira (6), o Departamento de Justiça dos EUA recuou e reescreveu a acusação contra Maduro. A descrição anterior, que dizia que o Cartel de Los Soles seria uma organização do narcotráfico, passou a dizer que o nome se referiria a um “sistema de clientelismo” entre o narcotráfico da elite venezuelana e funcionários e oficiais do governo.

Ao New York Times, a diretora adjunta da ONG International Crisis Group, Elizabeth Dickinson, disse que a nova descrição mostra que os americanos sabem que não conseguiriam provar no tribunal as ligações entre Maduro e a suposta organização.
Além da relação com o Cartel de Los Soles, as autoridades americanas acusam o líder venezuelano de ligação com as Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), a ELN (Exército de Libertação Nacional), o Cartel de Sinaloa, os Zetas e a TdA (Tren de Aragua), organizações criminosas que foram consideradas terroristas pelos EUA em fevereiro de 2025.
Apesar das mudanças no texto, Maduro continua sendo acusado dos mesmos crimes: posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, conspiração para posse de metralhadoras e dispositivos destrutivos, conspiração para o narcoterrorismo e conspiração para o tráfico de cocaína.
3. A Venezuela é mesmo um dos principais distribuidores de drogas para os EUA?
Segundo os dados públicos, não.
O levantamento mais recente da UNODC (Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime), do ano passado, mostra que as maiores rotas de tráfico para os EUA partem do México e da América Central.
Em relação à cocaína, droga mais citada na acusação contra Maduro, o cultivo e processamento são feitos majoritariamente na Colômbia, na Bolívia e no Peru.
A Venezuela atuaria mais como uma espécie de mediadora da cocaína produzida na Colômbia, mas a produção geralmente vai para a Europa, não para os EUA, segundo o especialista venezuelano entrevistado pelo Aos Fatos.
O próprio DEA (Drug Enforcement Administration, órgão do governo americano) não cita a Venezuela em seu relatório anual sobre tráfico de drogas. Na edição de 2024, é dito que “a Colômbia é a principal fonte de cocaína apreendida nos EUA, mas a cocaína também é produzida no Peru e na Bolívia”. O texto também menciona que 97% da cocaína apreendida vem desses três países.
Apesar de não constar na acusação formal contra Maduro, Trump também já afirmou em outras ocasiões que a Venezuela seria responsável pela distribuição de fentanil para os EUA, o que é mentira. Não há registro de produção da droga no país sul-americano. Segundo o DEA, o fentanil é produzido no México com insumos químicos da China.
O caminho da apuração
Aos Fatos procurou especialistas em geopolítica e segurança na América Latina e consultou relatórios e documentos envolvendo o chamado Cartel de los Soles. Também contatamos a equipe do Efecto Cocuyo, agência de checagem venezuelana, que nos auxiliou com documentos, links e dicas de fontes.
Para encontrar os dados referentes às rotas de drogas nos EUA, consultamos os levantamentos mais recentes das Nações Unidas e do governo americano.
Por fim, entramos em contato com o blogueiro foragido Allan dos Santos para abrir espaço para comentários, mas não houve retorno até a publicação da reportagem.




