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Candidatos pagam anúncios no Facebook com ataques ao STF e convocação ao 7 de Setembro

Por Bianca Bortolon, Ethel Rudnitzki, João Barbosa e Milena Mangabeira

6 de setembro de 2022, 17h38

“Um Brasil verdadeiramente independente é aquele em que supremo é o povo”, diz o deputado Filipe Barros (PL-PR), que foi responsável por vazar ao presidente da República e candidato à reeleição, Jair Bolsonaro (PL), o inquérito sigiloso da Polícia Federal sobre uma invasão hacker ao TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

“Suprema é a vontade popular”, continua Barros no vídeo, um anúncio pago pelo CNPJ de sua campanha à reeleição que circula no Facebook e no Instagram, plataformas da Meta, desde sexta-feira (2). Ao final, ele chama os seguidores a participarem de manifestações do 7 de Setembro em defesa de uma “uma pátria livre do controle daqueles que são loucos pelo poder”, em referência a ministros do STF (Supremo Tribunal Federal).

O conteúdo pago pelo parlamentar teve entre 250 mil e 325 mil visualizações apenas no Paraná, estado que ele representa. A propaganda custou entre R$ 4.500 e R$ 6.000 à campanha de Barros, que até agora recebeu R$ 1 milhão do Fundo Eleitoral Especial (92% do total) e outros R$ 83 mil em doações de pessoas físicas (8%).

  • O Radar Aos Fatos identificou 495 anúncios nas plataformas da Meta veiculados entre o início da campanha eleitoral (16.ago) e o último domingo (4) convocando eleitores para manifestações nesta quarta-feira (7);
  • A maior parte (269 anúncios, 54,3% da amostra) foi paga por candidaturas;
  • Outros 54 (10,9%) foram impulsionados por perfis de candidatos, mas registrados por CNPJs não associados oficialmente às campanhas ou sem aviso de propaganda eleitoral, exigidos pelo TSE (Tribunal Superior Eleitoral);
  • Além de Barros, outros 75 candidatos impulsionaram anúncios do tipo.

Ao todo, as peças custaram entre R$ 39,7 mil e R$ 92,4 mil aos anunciantes — a empresa não informa o valor exato, apenas faixas —, dos quais mais de 60% foram pagos por campanhas eleitorais.

Além disso, pelo menos 130 anúncios contêm ataques a instituições ou desinformação sobre o processo eleitoral (26% da amostra). Essas peças alcançaram mais de 2,2 milhões de impressões no Facebook e no Instagram, custando entre R$ 16,9 mil e R$ 31,7 mil.

“A divulgação massiva de conteúdo ofensivo à democracia, o ataque a outros candidatos e o ataque ao processo eleitoral pode configurar tanto uma propaganda irregular, sujeita a multa, mas a depender da escala pode configurar abuso no uso dos meios de comunicação social”, afirma Silvana Batini, professora da FGV Direito Rio e procuradora regional da República que atuou também como procuradora eleitoral. “Isso pode gerar a cassação do registro do candidato.”

O segundo candidato que mais gastou com anúncios relacionados aos atos foi Sérgio Americano Mendes (PTB-MG), postulante à Câmara dos Deputados, que impulsionou 61 postagens convocando para as manifestações. “Quem tem medo do povo são os tiranos”, dizem os anúncios, que custaram no máximo R$ 6.000 e foram registrados no CNPJ da campanha de Mendes das eleições de 2020, na qual concorreu à prefeitura da cidade mineira Nova Lima. A maior parte (52%) dos recursos recebidos pela campanha até agora veio do Fundo Eleitoral Especial, totalizando R$ 300 mil.

Líder do movimento Nas Ruas, que organiza manifestações a favor de Bolsonaro em todo o país, o candidato a deputado estadual Tomé Abduch (Republicanos-SP) também pagou por nove anúncios em que utiliza palavras de ordem e ataques para convocar seus seguidores a comparecerem aos atos no dia da independência. Em uma das publicações, que teve mais de 50 mil impressões, ele desinforma ao reivindicar “eleições limpas e auditáveis”. O sistema eleitoral brasileiro possui recursos de auditoria como o registro digital do voto, testes de integridade nas urnas e inspeções de código-fonte. Os anúncios de Abduch estão registrados no CNPJ de sua campanha, que até agora só recebeu recursos de doações.

Já a campanha de Fabiana Barroso (PL) — candidata a deputada estadual por São Paulo conhecida nas redes como Fabiana Bolsonaro — pagou R$ 2.000 por um anúncio em que convida seus seguidores para as manifestações com o jargão “a nossa bandeira jamais será vermelha”. Todos os recursos recebidos por sua campanha até agora vêm do Fundo Eleitoral Especial, embora ela ainda não tenha declarado nenhum gasto.

Questionados, os candidatos não responderam sobre o uso de suas verbas de campanha para promoção das manifestações até a publicação da reportagem.

Anúncios em ascensão

Entre 29 de agosto e 4 de setembro, o número de anúncios no Facebook e Instagram que convocam seguidores para os atos de 7 de Setembro mais que dobrou. Foram impulsionados 295 publicações a respeito das manifestações, contra 137 na semana anterior e 65 na primeira semana de campanha eleitoral.

O dia com maior impulsionamento de anúncios foi a última sexta-feira (2), em que foram impulsionadas 100 publicações. Também houve um pico no número de anúncios publicados no dia 28 de agosto, data do debate entre presidenciáveis organizado em parceria por Band, TV Cultura, Folha de S.Paulo e UOL.

METODOLOGIA

O Radar Aos Fatos coletou, por meio da API da biblioteca de anúncios do Facebook, 1.330 posts promovidos na plataforma entre 16 de agosto e 4 de setembro deste ano que continham termos relacionados ao 7 de Setembro e manifestações.

Em seguida, analisou individualmente cada uma das publicações e as classificou de acordo com três critérios:

  • se convocavam seguidores para os atos;
  • se disseminavam ataques a instituições ou desinformação;
  • se foram promovidos por candidatos a cargos eletivos em 2022.

Referências:
1. Veja
2. TSE (1, 2, 3, 4, 5)
3. Aos Fatos

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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