Luiz Fernando Menezes

Canal investigado pelo STF cria outra conta no YouTube para divulgar falas controversas de Bolsonaro

Por Amanda Ribeiro

31 de agosto de 2020, 10h32


O Foco do Brasil, canal de YouTube incluído pelo STF (Supremo Tribunal Federal) no inquérito sobre manifestações antidemocráticas, reformulou sua estratégia de publicação em meio ao avanço das investigações. Conhecido por divulgar as conversas do presidente com apoiadores desde a posse, o perfil adotou em junho um tom mais sóbrio, apagou gravações em que Jair Bolsonaro ataca a corte e criou uma conta paralela para veicular as declarações mais controversas dele, a JB News, que não está no radar das autoridades.

As mudanças puderam ser observadas poucos dias após o ministro Alexandre de Moraes expedir 26 mandados de prisão decorrentes do inquérito que apura a organização e o financiamento de protestos pela volta da ditadura e o fechamento do STF e do Congresso. A PGR (Procuradoria-Geral da República) estima que o Foco do Brasil faturou entre US$ 7 mil e US$ 18 mil somente com a transmissão de um desses atos, em 19 de abril.

A estratégia de contornar as restrições impostas pela Justiça também foi adotada por outras páginas bolsonaristas, como o Aos Fatos já mostrou. Explorando falhas no bloqueio das plataformas e criando novos perfis em sites que não foram afetados pela decisão, como a rede social americana Parler, eles recuperaram a maior parte do alcance que tinham nas mídias sociais e, em alguns casos, até o expandiram.

Antes presença constante no cercadinho do Palácio do Planalto, nas viagens e demais aparições do presidente pelo país, o Foco do Brasil passou a ter uma cara mais institucional, com vídeos de discursos oficiais do presidente e de eventos, como inaugurações de obras. Manifestações mais espontâneas de Bolsonaro e encontros com apoiadores, que eram publicadas diariamente, sumiram de lá e migraram para o JB News.

Em postagem no Twitter em 21 de junho, o Foco do Brasil convidou seus seguidores a se inscreverem no novo canal no YouTube com a promessa de “conteúdo exclusivo com o Presidente Jair Bolsonaro”. Nos comentários, um seguidor pergunta se ocorreu algo com o perfil oficial, mas não há resposta. Até o dia 25 de agosto, nenhum dos vídeos publicados no JB News mostrou cenas exclusivas do presidente.

O número de inscritos do JB News — e, consequentemente, a quantidade de visualizações das postagens — é bem menor do que o registrado no canal-mãe. Até 25 de agosto, a nova página tinha 98.300 inscritos, contra os 2,23 milhões do Foco do Brasil. A média de visualizações gira em torno de 30 mil a 40 mil por vídeo, enquanto as do canal principal geralmente passam dos 100 mil.

O ritmo de postagens também é menor. Entre os dias 19 de junho e 25 de agosto, foram 19 publicações. As gravações exaltam a atuação do governo, com títulos como “Presidente Bolsonaro sempre atencioso conversa com apoiadores” e os assuntos contidos nos encontros transitam geralmente em torno da pandemia ou do Judiciário.

Apagados. Além do avanço nas investigações da corte, a criação do canal JB News também coincidiu com a exclusão de dezenas de vídeos do Foco do Brasil no YouTube. Levantamento da empresa de análise de dados Novelo apontou que, em junho, foram deletados 81 gravações do canal e, em julho, mais 28. Os dados mostram que o Foco do Brasil tem feito limpezas sistemáticas em seus arquivos, com o recorde de vídeos deletados registrado em março deste ano: 124.

Pela mensagem que aparece sobre o vídeo deletado, é possível descobrir se o responsável por apagar os arquivos foi o canal ou o próprio YouTube. Em alguns links, no entanto, consta apenas uma mensagem genérica, que afirma que vídeo está indisponível. A Novelo Data afirmou que, nessas situações, não é possível ter certeza se foi o Foco do Brasil ou a plataforma quem fez a exclusão.

“Dado o histórico de vídeos deletados pelo YouTube no monitoramento da Novelo de canais de extrema-direita e a limpeza usual da Foco/Folha do Brasil, a gente estima que a maioria seja tirado do ar pelo próprio canal”, disse o jornalista Guilherme Felitti, responsável pelo monitoramento.

Apesar dessas limitações, é possível notar que várias das aparições do presidente na porta do Palácio do Planalto desapareceram do canal Foco do Brasil. Em levantamento a partir do contador de declarações do presidente — que muitas vezes depende de gravações encontradas apenas em canais bolsonaristas —, Aos Fatos identificou que vários dos vídeos apagados continham declarações ligadas à gestão da Covid-19 e a decisões do STF.

Alguns são do início da pandemia, como uma entrevista em 11 de março em que Bolsonaro afirma que “outras gripes mataram mais do que essa”, em uma tentativa de minimizar a gravidade do novo coronavírus, que ainda não fizera sua primeira vítima por aqui.

Uma postagem publicada meses adiante, em junho, e também excluída, fazia a mesma menção ao STF encontrada em um vídeo do JB News: “O Supremo deu todo poder para eles [governadores e prefeitos] para gerir esse tipo de problema [ligado a medidas de isolamento]. Eu só injeto bilhões nas mãos deles”, disse o presidente a um apoiador. Esse argumento, repetido 57 vezes com pequenas variações pelo presidente desde o início da pandemia, já foi desmentido até por ministros do STF.

Outros conteúdos que desapareceram do canal traziam falas do presidente a favor do uso da hidroxicloroquina para tratar Covid-19, embora o remédio não tenha eficácia comprovada contra a infecção. No dia 7 de julho, ele questionou um jornalista sobre a existência de algum outro medicamento além da cloroquina: “Qual é a outra alternativa? Você não tinha outra alternativa.”, disse, apesar de outras drogas estarem sendo testadas desde março.

Declarações sobre a eficácia da medicação, por outro lado, seguem no ar em vídeos do JB News. Em conversa com apoiadores no dia 23 de julho, Bolsonaro tirou a cloroquina do bolso para propagandear o uso contra a Covid-19. Um mês antes desse episódio, ao ouvir um homem dizer que foi ao médico e não conseguiu a prescrição da droga, sugere que ele procure outro médico para obter a receita.

Recursos. Envolvido no inquérito que investiga atos que pediam a volta da ditadura militar, a deposição dos ministros do STF e o fechamento do Congresso Nacional, o Foco do Brasil pode ter faturado entre US$ 7 mil e US$ 18 mil com a transmissão de um desses protestos, em 19 de abril, de acordo com a PGR (Procuradoria-Geral da República). Os recursos teriam origem em publicidade, parcerias, assinaturas e eventuais compras de produtos oferecidos, detalha O Globo.

O programa de assinantes promete conteúdos exclusivos sobre o presidente, mas, nos sete meses em que o Aos Fatos pagou os R$ 7,90 da assinatura, não foi publicado qualquer vídeo que não pudesse ser encontrado em outros canais.

Na última segunda-feira (31), depois de a reportagem apontar, via e-mail, que os requisitos do programa não eram cumpridos, o Foco do Brasil publicou vídeo exclusivo para assinantes que mostra o presidente Jair Bolsonaro conversando com apoiadores à porta do Planalto.

De acordo com as investigações do STF, o Foco do Brasil é comandado por José Luiz Bonito, conhecido como Roberto Boni, sósia do cantor Roberto Carlos. Ele também é investigado no inquérito das “fake news” por ataques e ameaças ao Congresso e ao Supremo em vídeos. O outro responsável é Anderson Azevedo Rossi, que aparece como responsável pelo CNPJ do Folha do Brasil Negócios Digitais.

O Foco do Brasil figura na lista de beneficiados pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social) com publicidade sobre a Reforma da Previdência por meio da plataforma de anúncios do Google Ads. Em busca no Portal da Transparência e no site da Câmara dos Deputados, no entanto, não foram encontradas evidências de que o canal tenha recebido verba pública diretamente em outras ocasiões.

Origem. O canal surgiu no YouTube em maio de 2014 ainda como Folha do Brasil. O nome teve que ser alterado após o pedido de registro de marca ter sido indeferido no Inpi (Instituto Nacional de Propriedade Industrial). Foi apontado que havia imitação da Folha de S.Paulo.

O Foco do Brasil ganhou projeção com a posse de Bolsonaro, tendo se tornado um dos principais veículos da base governista na plataforma. Antes de ser investigado pelo STF, a página acompanhava viagens, discursos, passeios e todos os encontros do presidente com apoiadores. O microfone com o logo do canal, uma letra B em verde e amarelo, pode ser visto até mesmo no cercado reservado à imprensa no Palácio do Planalto.

Em 2019, o Foco do Brasil chegou a ter um repórter cadastrado para a cobertura do Palácio do Planalto, de acordo com a lista de credenciados da Secom (Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência da República) obtida pelo Aos Fatos por meio da Lei de Acesso à Informação. Em 2020, o canal não consta na lista de credenciados embora publique semanalmente vídeos gravados da área reservada à imprensa no palácio.

Além de acompanhar o presidente, o canal transmite, diariamente, um telejornal que aborda as notícias do dia de uma perspectiva favorável a Bolsonaro. O programa é apresentado pelo palestrante motivacional Cleiton Basso e possui o mesmo logo do canal JB News.

Os vídeos do Foco do Brasil são amplamente compartilhados por políticos bolsonaristas e o próprio presidente já mencionou o canal em suas transmissões ao vivo. Em junho, ele chegou a recomendar o canal: “Não é porque fala bem, não. É porque fala a verdade”.

Os vídeos do Foco do Brasil também já foram divulgados por parlamentares como Carla Zambelli (PSL-SP), Filipe Barros (PSL-PR), Daniel Silveira (PSL-RJ) e Bia Kicis (PSL-DF). O principal apoiador da página, no entanto, é o deputado federal e filho do presidente, Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), que compartilhou vídeos do canal no Facebook em ao menos quatro ocasiões.

Em uma das postagens, de setembro de 2019, o parlamentar chegou a recomendar a página: “‪Cansado de tanta fake news? Quer ficar realmente informado sobre o que o Gov. Bolsonaro tem feito? Inscreva-se e assista no youtube o perfil FOLHA DO BRASIL”. O vídeo que ele compartilhou foi um dos tantos já excluídos do canal.

A investigação. Instaurado em 21 de abril a pedido do ministro Alexandre de Moraes, o inquérito que investiga a realização de atos antidemocráticos pelo país mira manifestantes defensores do fechamento do Congresso, do STF e da volta da ditadura militar. O fato de deputados federais estarem entre os alvos do inquérito justifica a competência do STF para o caso.

Na atualização mais recente, do dia 7 de agosto, o ministro Alexandre de Moraes rejeitou recursos apresentados pelos investigados e manteve a quebra de sigilo bancário e fiscal de parlamentares bolsonaristas e apoiadores do governo autorizada em junho. De acordo com Moraes, a PGR apresentou “indícios suficientes” da atuação de vários núcleos de uma associação criminosa, medida que justificaria a quebra de sigilo.

Procurado por meio da assessoria do STF, o ministro Alexandre de Moraes disse que só se manifesta sobre o inquérito nos autos.

Outro lado. O Aos Fatos procurou os responsáveis pelo Foco do Brasil para questionar a respeito dos motivos da criação do JB News e da exclusão dos vídeos da página original. Como o canal não oferece e-mail de contato, foram enviadas mensagens ao apresentador Cleiton Basso e ao cantor e youtuber Roberto Boni. O último não respondeu, e o primeiro afirmou que não respondia pelo canal e apenas prestava "serviços de apresentação de um jornal".

A reportagem foi orientada por Basso a procurar uma forma de contato nas páginas do Foco do Brasil nas redes sociais, já que ele disse também não ter autorização para fornecer dados de contato dos responsáveis. O Foco do Brasil, no entanto, não disponibiliza a opção de mensagem em nenhuma de suas páginas nas redes.

Referências:

1. G1 (Fontes 1, 2 e 3)
2. O Globo (Fontes 1 e 2)
3. Aos Fatos (Fontes 1 e 2)
4. UOL (Fontes 1 e 2)
5. Diario de Pernambuco
6. Folha de S.Paulo (Fontes 1 e 2)
7. Extra
8. Agência Pública
9. INPI