Horas depois de um bombardeio atingir o prédio de uma escola primária na cidade de Minab, no Irã, e matar ao menos 175 pessoas no último sábado (28), grupos e canais conspiracionistas americanos no Telegram começaram a alegar, sem provas, que o próprio governo iraniano seria o responsável pelo atentado.
Vídeos e imagens do local mostram que ao menos metade da unidade escolar foi destruída.O governo do Irã responsabilizou EUA e Israel pelo atentado — que matou, em sua maioria, crianças. O exército israelense e o governo americano negaram as acusações e disseram estar investigando o episódio.
O ataque, que foi condenado pela Unesco, ocorreu em meio a uma ofensiva conjunta de Israel e EUA contra o país persa, que respondeu disparando mísseis e drones contra diversas nações vizinhas.

A escola atingida estava localizada ao lado da base militar Sayyid al-Shuhada, que também foi alvo de ataques no sábado (28). Segundo investigação da Al Jazeera, até 2016, a área era toda parte do complexo militar. Naquele ano, no entanto, foi criada a escola infantil feminina, separada da base. Em 2025, uma outra parte do complexo também deu lugar a uma clínica especializada.

As publicações alegavam que a escola teria sido atingida intencionalmente pelo regime dos aiatolás como parte de uma “bandeira falsa” para culpar adversários externos e justificar retaliações. Não há indícios de que isso seja verdade.
Em pouco tempo, essa versão passou a circular em inglês em outras plataformas, como o X e o Instagram, chegando às redes brasileiras no dia seguinte. Um dos conteúdos falsos, por exemplo, afirma que o governo iraniano teria confessado que a escola foi bombardeada por engano.

Vídeos descontextualizados
Para reforçar a alegação de que o Irã teria atacado seus próprios habitantes, usuários têm compartilhado vídeos que supostamente mostram um míssil iraniano falhando logo após o lançamento.
As imagens foram disseminadas, inclusive, pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel, acompanhadas de legenda que serviu como combustível para a tese sem comprovação: “Este é um míssil iraniano que caiu dentro do Irã e atingiu civis inocentes. Agora pense sobre quantas outras vezes isso aconteceu”.
Do you see this missile?
— Israel Foreign Ministry (@IsraelMFA) March 3, 2026
This is an Iranian missile that fell inside Iran and struck innocent civilians.
Now think about how many other times this has happened. pic.twitter.com/5RXZc6G370
Comparações feitas por geolocalização pelo analista de inteligência Tal Hagin e confirmadas pelo Aos Fatos mostram, no entanto, que a cena compartilhada pelos posts que circulam nas redes ocorreu na província de Zanjan, no noroeste do país. A região fica a mais de 1.300 quilômetros de Minab, localizada no extremo-sul.

A estratégia de desinformar que países alvos de ataques no Oriente Médio estariam encenando o próprio sofrimento para manipular a opinião pública internacional não é nova. Aos Fatos mostrou como a difusão do termo “Pallywood” é usado para desacreditar imagens da guerra em Gaza e sugerir que cenas de fome, feridos e mortos seriam produções teatrais.
Assim como no caso palestino, a efetividade não depende de provas, mas de semear a dúvida se os bombardeios contra alvos civis, atingindo crianças e mulheres, principalmente, são reais ou não. Especialistas já apontaram que o efeito dessa estratégia é reduzir o impacto moral das imagens e relativizar possíveis violações do direito internacional humanitário.
Colaborou Luiz Fernando Menezes.
O caminho da apuração
Aos Fatos identificou publicações virais que difundem a versão desinformativa em inglês e verificou, por meio de busca nas redes e aplicativos de conversa, que as mesmas alegações passaram a circular no Brasil.
A partir disso, a reportagem verificou declarações oficiais de representantes iranianos sobre o ataque e também analisou o vídeo que mostra uma suposta falha de míssil, com identificação da localização real e comparação geográfica com a região atingida pelos ataques.
A equipe também contextualizou o padrão de desinformação com base em reportagens anteriores sobre o uso da narrativa “Pallywood” para desacreditar imagens de conflitos.





