Canais usam vídeos fora de contexto e omitem fatos para culpar Irã por bombardeio a escola

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Horas depois de um bombardeio atingir o prédio de uma escola primária na cidade de Minab, no Irã, e matar ao menos 175 pessoas no último sábado (28), grupos e canais conspiracionistas americanos no Telegram começaram a alegar, sem provas, que o próprio governo iraniano seria o responsável pelo atentado.

Vídeos e imagens do local mostram que ao menos metade da unidade escolar foi destruída.O governo do Irã responsabilizou EUA e Israel pelo atentado — que matou, em sua maioria, crianças. O exército israelense e o governo americano negaram as acusações e disseram estar investigando o episódio.

O ataque, que foi condenado pela Unesco, ocorreu em meio a uma ofensiva conjunta de Israel e EUA contra o país persa, que respondeu disparando mísseis e drones contra diversas nações vizinhas.

A imagem mostra uma publicação com fundo preto na parte superior. O texto em branco diz: BREAKING: The regime in Iran has confessed and confirmed that the IRGC bombed an Iranian school yesterday, killing many children. When will the media issue retractions? Abaixo, aparece a captura de uma postagem do canal 'Radio Gilan', que indica '321.4K inscritos'. No canto superior esquerdo do vídeo há a marcação '0:04'. A imagem do vídeo mostra um prédio de dois andares parcialmente danificado, com fumaça saindo da estrutura. Diante do prédio, há várias pessoas espalhadas pelo local, caminhando entre destroços que cobrem o chão. Na parte inferior do vídeo, há uma legenda em inglês que diz, já traduzido: 'Um míssil aeroespacial do IRGC atinge uma escola no condado de Minab, província de Hormozgan'. Abaixo, em texto menor, lê-se: 'O Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica anunciou que isso foi um erro não intencional e que medidas sérias serão tomadas contra os responsáveis por esta ação'.
‘ÚLTIMA HORA: O regime iraniano confessou e confirmou que a Guarda Revolucionária Islâmica bombardeou uma escola iraniana ontem, matando várias crianças’, alegam as publicações conspiratórias

A escola atingida estava localizada ao lado da base militar Sayyid al-Shuhada, que também foi alvo de ataques no sábado (28). Segundo investigação da Al Jazeera, até 2016, a área era toda parte do complexo militar. Naquele ano, no entanto, foi criada a escola infantil feminina, separada da base. Em 2025, uma outra parte do complexo também deu lugar a uma clínica especializada.

Escola atingida (em azul) estava localizada ao lado de base militar do Irã, que também foi atacada na mesma data (Google Earth)

As publicações alegavam que a escola teria sido atingida intencionalmente pelo regime dos aiatolás como parte de uma “bandeira falsa” para culpar adversários externos e justificar retaliações. Não há indícios de que isso seja verdade.

Em pouco tempo, essa versão passou a circular em inglês em outras plataformas, como o X e o Instagram, chegando às redes brasileiras no dia seguinte. Um dos conteúdos falsos, por exemplo, afirma que o governo iraniano teria confessado que a escola foi bombardeada por engano.

A imagem é dividida verticalmente em duas partes. Na parte esquerda, aparece um céu azul claro. Um rastro branco curvo atravessa o céu, formando uma linha que sobe e depois se curva. Dois postes de energia com fios elétricos aparecem na parte inferior da imagem, cruzando o enquadramento. Na parte direita, há a captura de um vídeo. No topo, um retângulo vermelho contém o texto 'A verdade acaba sempre por aparecer'. A cena mostra um prédio parcialmente destruído, com escombros acumulados na frente. Várias pessoas estão reunidas próximas aos destroços. No centro da imagem há um ícone de reprodução em formato de triângulo dentro de um círculo. Na parte inferior, há um bloco azul com texto em branco que diz: 'O regime iraniano acaba por admitir: foi o próprio a bombardear escola. E agora, quem espalhou mentiras vai assumir o erro ou continuar em silêncio?'.
Publicações em português importam teoria conspiratória sobre bombardeio em escola iraniana (Reprodução: Facebook)

Vídeos descontextualizados

Para reforçar a alegação de que o Irã teria atacado seus próprios habitantes, usuários têm compartilhado vídeos que supostamente mostram um míssil iraniano falhando logo após o lançamento.

As imagens foram disseminadas, inclusive, pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel, acompanhadas de legenda que serviu como combustível para a tese sem comprovação: “Este é um míssil iraniano que caiu dentro do Irã e atingiu civis inocentes. Agora pense sobre quantas outras vezes isso aconteceu”.

Comparações feitas por geolocalização pelo analista de inteligência Tal Hagin e confirmadas pelo Aos Fatos mostram, no entanto, que a cena compartilhada pelos posts que circulam nas redes ocorreu na província de Zanjan, no noroeste do país. A região fica a mais de 1.300 quilômetros de Minab, localizada no extremo-sul.

A imagem é composta por duas partes lado a lado. Na parte esquerda, há uma fotografia de um céu azul claro com um rastro branco sinuoso que sobe verticalmente e depois se curva, formando um traçado irregular. No centro da imagem, uma torre metálica alta aparece destacada por um contorno oval em azul claro. Na parte inferior, aparecem prédios de poucos andares, com fachadas em tons de bege e marrom, e ao fundo há montanhas com picos cobertos de neve. Linhas coloridas foram desenhadas sobre alguns prédios: uma linha rosa sobre um telhado à esquerda e uma pequena marca amarela próxima a ele. À direita da torre, há um retângulo verde destacando a imagem ampliada de um edifício de fachada marrom com janelas alinhadas verticalmente. Na parte direita, há uma imagem de satélite vista de cima mostrando um quarteirão urbano com diversos prédios, ruas e árvores. Um prédio próximo a uma esquina está contornado por um retângulo verde. Em outra área, um formato oval azul claro destaca uma estrutura alongada. Há também pequenas marcações coloridas, incluindo uma linha rosa e um pequeno símbolo em formato de L em amarelo. No canto inferior direito, aparece uma escala indicando '400 ft'. No canto inferior esquerdo, está visível a marca 'Google Earth' e o crédito 'Maxar Technologies'. No canto superior esquerdo da imagem, sobre a parte esquerda, aparece o texto 'Geolocated by Tal Hagin and Stinky915846091', acompanhado de ícones de redes sociais.
Comparação entre frame do vídeo e imagem aérea de Zanjan confirma que elementos urbanos — como o prédio, casa e torre de energia destacados — coincidem, indicando que a gravação não ocorreu em Minab (Reprodução: X/Tal Hagin)

A estratégia de desinformar que países alvos de ataques no Oriente Médio estariam encenando o próprio sofrimento para manipular a opinião pública internacional não é nova. Aos Fatos mostrou como a difusão do termo “Pallywood” é usado para desacreditar imagens da guerra em Gaza e sugerir que cenas de fome, feridos e mortos seriam produções teatrais.

Assim como no caso palestino, a efetividade não depende de provas, mas de semear a dúvida se os bombardeios contra alvos civis, atingindo crianças e mulheres, principalmente, são reais ou não. Especialistas já apontaram que o efeito dessa estratégia é reduzir o impacto moral das imagens e relativizar possíveis violações do direito internacional humanitário.

Colaborou Luiz Fernando Menezes.

O caminho da apuração

Aos Fatos identificou publicações virais que difundem a versão desinformativa em inglês e verificou, por meio de busca nas redes e aplicativos de conversa, que as mesmas alegações passaram a circular no Brasil.

A partir disso, a reportagem verificou declarações oficiais de representantes iranianos sobre o ataque e também analisou o vídeo que mostra uma suposta falha de míssil, com identificação da localização real e comparação geográfica com a região atingida pelos ataques.

A equipe também contextualizou o padrão de desinformação com base em reportagens anteriores sobre o uso da narrativa “Pallywood” para desacreditar imagens de conflitos.

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