Canais de YouTube alvos do STF estão entre os mais compartilhados em grupos bolsonaristas no WhatsApp

Por Bárbara Libório, Marina Gama Cubas e João Barbosa

8 de julho de 2020, 13h56


Oito canais de YouTube que são alvo do STF (Supremo Tribunal Federal) nos inquéritos que apuram produção de "fake news" e financiamento de atos antidemocráticos estão entre os mais compartilhados por 237 grupos bolsonaristas no WhatsApp. O Radar Aos Fatos analisou as 50 mensagens contendo links de YouTube que mais circularam nesses grupos entre os dias 10 a 24 de junho de 2020 e verificou que 13 delas levavam para um dos canais investigados.

Do total de 50 links, 45 vídeos de 33 canais diferentes puderam ser examinados (um havia sido removido pelo usuário, dois eram privados e outros dois vídeos eram repetidos). Eles foram repassados 275 vezes nos grupos monitorados, e os canais que são alvo do STF representaram 34% (94) desses compartilhamentos no WhatsApp.

Juntos, os vídeos dos canais Te atualizei, Dr Marcelo Frazão, Terça Livre TV, Enzuh, Carla Zambelli, Oswaldo Eustáquio, Foco do Brasil e Bernardo P Küster também tiveram 35% do total de 9 milhões de visualizações do conteúdo analisado no YouTube (dados capturados em 2 de julho).

Três dos oito canais estão, ainda, entre os cinco mais populares nos grupos analisados ao lado de Nossa Rede Brasil e Papo Conservador com Gustavo Gayer. Juntos, os cinco somam 40% dos compartilhamentos de mensagens com links de YouTube nos grupos de WhatsApp.

O canal Te atualizei pertence a Bárbara Zambaldi Destefani, responsável também pelo perfil @taoquei no Twitter, investigado no inquérito das "fake news". O Terça Livre TV é do veículo homônimo do blogueiro Allan dos Santos, alvo do mesmo inquérito. Já o canal Dr. Marcelo Frazão pertence a Marcelo Frazão, dono do perfil Dr Frazão Marcelo no Instagram, um dos que tiveram seus dados de monetização requeridos pelo ministro Alexandre Moraes na apuração sobre perfis que "encorajam atos antidemocráticos".

Já o youtuber e empresário Gustavo Gayer foi denunciado pelo Conselho Federal de Enfermagem por divulgar um vídeo com informações falsas na internet, dizendo que uma manifestação de enfermeiros em maio no Distrito Federal não havia sido organizada pela categoria.

Desinformação. O Radar Aos Fatos assistiu aos 45 vídeos mais compartilhados e identificou presença de desinformação em 13. Juntos, eles representam 20% (1,8 milhão) das 9 milhões de visualizações do material analisado no YouTube (dados de 2 de julho) e foram compartilhados nos grupos 81 vezes (29% dos 275 compartilhamentos dos vídeos analisados).

Entre informações falsas, distorcidas e teorias de conspiração, os temas de desinformação se dividiram entre a pandemia e a vacina do novo coronavírus, política, comunismo e a possibilidade de expropriação de uma empresa pelo governo da Argentina. Os conteúdos enganosos foram disseminados pelos canais AlexMagaiver Vídeos, Canal Monarquia Livre, Canal Professor Bellei, Mundo Rural Business, Nossa Rede Brasil, PAPO CONSERVADOR com GUSTAVO GAYER, Patriotas, Questione-se, Ricardo Felicio - Oficial, Terça Livre TV e Top Tube Brasil.

A narrativa que permeia a maior parte das peças de desinformação identificadas (9 dos 13 vídeos) foi a de que a pandemia do novo coronavírus seria parte de um plano da China para expandir sua influência pelo mundo. Segundo os conteúdos analisados, essa ofensiva chinesa se daria por meio da vacina contra a Covid-19, da implementação da tecnologia 5G, do financiamento de partidos políticos e até de acordos escusos com o STF. Os nove vídeos que, sem provas, amplificam essa narrativa somam 1,2 milhão de views no YouTube e apareceram 36 vezes nos grupos monitorados.

Doria e a vacina chinesa. No período analisado (10 a 24 de junho de 2020), que coincidiu com o anúncio do acordo entre o governo paulista e a farmacêutica chinesa Sinovac Biotech para a testagem em São Paulo de uma vacina para o coronavírus, as teorias sobre a influência da China no Brasil foram usadas principalmente para atacar o governador João Doria (PSDB).

Os vídeos analisados pelo Radar Aos Fatos amplificam a teoria conspiratória de que o acordo entre o governo de São Paulo e a indústria chinesa são, na verdade, uma forma de "vender o estado aos chineses".

Um vídeo do canal Top Tube Brasil, por exemplo, afirma que "Doria vai tirar do povo e transferir o dinheiro público para o governo chinês". Outro vídeo, do canal Papo Conservador com Gustavo Guyer, afirma que as primeiras fases de teste da vacina foram feitas pelo Instituto Wuhan, que o youtuber afirma ser o mesmo da onde o "vírus editado" saiu. A OMS (Organização Mundial da Saúde), no entanto, afirma que todas as evidências disponíveis indicam que o novo coronavírus teria se originado da natureza, não artificialmente.

Outros vídeos, como alguns do canal Terça Livre TV, também afirmam que "o governo Doria continua as tratativas para entregar o estado para o Partido Comunista chinês" e colocam a vacina em descrédito, argumentando que os brasileiros serão usados como "cobaias". Aos Fatos já checou uma peça de desinformação que afirmava que a vacina não teria sido testada em nenhum lugar do mundo e verificou que ela já passou por duas fases de testes e foi administrada em 744 chineses.

Em outro vídeo, eles afirmam que "Bill Gates já estava falando de vacina antes de ter o coronavírus". O empresário já foi alvo de diversas teorias da conspiração sobre a pandemia. Uma das mais difundidas é a de que ele sabia sobre a pandemia antecipadamente, citando uma patente de vacina registrada por um grupo britânico que recebeu financiamento da Fundação Gates - a vacina, no entanto, não estava relacionada ao novo coronavírus, mas a um coronavírus diferente que afeta as aves.

Outro vídeo do canal também afirma que há hospitais que deveriam receber pacientes com coronavírus e estão vazios em alguns estados. Aos Fatos já checou diversos vídeos, imagens e peças de desinformação que trazem essa narrativa enganosa.

Na esfera política, um vídeo do Mundo Rural Business, uma consultoria especializada em agronegócio, afirma que o presidente argentino Alberto Férnandez, que iniciou uma discussão sobre o processo de desapropriação da agroexportadora Vicentin, está com os "dois pés no comunismo" e poderia estar preparando a Argentina para, no futuro, "ser vendida a preço de banana para a Nova República Comunista da China". Aos Fatos já checou peças de desinformação sobre a expropriação do grupo e não encontrou evidências que tratam da desapropriação de outras empresas no país pelo governo. O canal também já publicou vídeos em que afirma que os chineses usam a pandemia para controlar a economia mundial, e não apenas no setor do agronegócio.

Tais narrativas conspiratórias sobre a China reverberam o discurso de aliados do presidente Jair Bolsonaro em outras redes sociais. O presidente da Fundação Palmares, Sérgio Camargo, e o presidente nacional do PTB, Roberto Jefferson, por exemplo já insinuaram nas redes sociais ligações entre Doria e a China e também colocaram em descrédito a nova vacina, assim como o deputado federal Daniel Silveira (PSL-RJ).

O próprio discurso do presidente Jair Bolsonaro sobre a China teve diferentes momentos nos últimos anos. Durante a campanha eleitoral de 2018, Bolsonaro fez diversas críticas ao país, que, segundo ele, não estava comprando no Brasil, mas sim comprando o Brasil.

Com o início da pandemia foram muitas as tensões. Em março, seu filho, o deputado federal Eduardo Bolsonaro, culpou a China pelo coronavírus e gerou uma crise diplomática. Em abril, o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, publicou uma postagem no Twitter com insinuações de que a China poderia se beneficiar, de propósito, da crise mundial causada pelo coronavírus. O STF abriu um inquérito para investigá-lo por suposto racismo contra chineses.

O STF. A atuação do Supremo Tribunal Federal, sobretudo no inquérito das ‘fake news’, foi o principal assunto tratado nos vídeos que circularam entre os grupos bolsonaristas no WhatsApp, estando presente em 20 deles. Compartilhados por 138 mensagens, os vídeos tiveram mais de 5,3 milhões de visualizações (59% do total alcançado pelos 45 vídeos analisados) no YouTube até o dia 2 de julho.

Diferentemente dos temas anteriores, no entanto, os conteúdos foram em tom crítico e não contemplavam desinformação. Durante o período analisado por Radar Aos Fatos, os ministros da corte decidiram sobre a constitucionalidade desse inquérito e a PF (Polícia Federal) iniciou uma operação de busca e apreensão nas casas de citados na investigação sobre os atos antidemocráticos. Com isso, parte dos vídeos questiona a atuação do STF que seria, ao mesmo tempo, vítima e julgadora das causas.

De todo o conteúdo analisado, 13 vídeos falavam especificamente do inquérito das ‘fake news’, sempre condenando a investigação. Essas produções obtiveram 55% das visualizações do conjunto do conteúdo analisado no YouTube.

No total, dois ministros foram mais citados: Alexandre de Moraes, que conduz os dois inquéritos, e Celso de Mello, que autorizou no dia 22 de maio a divulgação do vídeo da reunião ministerial de Bolsonaro. Nesse último caso, as críticas afirmam que a decisão de publicizar o conteúdo prejudicou o então ministro da Educação, Abraham Weintraub, culminando em sua saída da pasta.

O ministro Marco Aurélio Mello, único a divergir sobre a constitucionalidade do inquérito, chegou a receber elogios de integrantes de um programa do canal Terça Livre, ao referir-se ao inquérito das fake news como “natimorto”, durante seu voto em sessão do plenário.

Outros temas. Crítica a governadores (12 vídeos) e à imprensa (11) também foram temas recorrentes, tendo representado 33% e 39% das visualizações totais no YouTube, respectivamente.

Entre os governadores, o de São Paulo, João Doria (PSDB), foi o mais criticado, seguido pelo do Pará, Hélder Barbalho (MDB), acusado nos vídeos por irregularidades na compra de respiradores no estado, e pelo do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), citado em vídeo que o relaciona à prisão de Fabrício Queiroz, que falam sobre má gestão pública e que pedem seu impeachment.

Comentários que buscavam minimizar a importância de medidas de proteção contra a Covid-19 aparecem em 10 vídeos analisados, que representam 34% das visualizações dos 45 links do YouTube.

Dentre os vídeos analisados, apenas um criticou Bolsonaro. A autora era Cris Bernart - assessora do vereador de São Paulo Fernando Holiday (Patriota), coordenador do MBL (Movimento Brasil Livre) -, que dias antes havia criticado o presidente em frente ao Palácio do Planalto. Ela foi alvo de ataques em quatro vídeos compartilhados no grupos de WhatsApp.

Outro lado. A equipe Radar Aos Fatos entrou em contato com os canais AlexMagaiver Vídeos, Canal Monarquia Livre, Canal Professor Bellei, Mundo Rural Business, Nossa Rede Brasil, PAPO CONSERVADOR com GUSTAVO GAYER, Patriotas, Questione-se, Ricardo Felicio - Oficial, Terça Livre TV e Top Tube Brasil pedindo um posicionamento sobre os conteúdos analisados.

O canal Terça Livre TV respondeu apenas com ofensas à equipe do Aos Fatos e não se pronunciou sobre as narrativas pontuadas.

O canal Mundo Rural Business afirmou que "é necessário contextualizar que temos por objetivo maior antecipar o amanhã, já que é isso que garante ao público tempo hábil para tomadas de decisão estratégias dentro do seu negócio" e que tem o "direito de expressar posições estratégicas de mercado em vídeos, assim como o direito de levantar possibilidades como uma empresa jornalística investigativa deve fazer".

Até a publicação dessa reportagem, os outros canais não haviam se posicionado.

Metodologia

Com dados obtidos em parceria com a empresa de data science Twist, Radar Aos Fatos capturou as 2.000 mensagens mais compartilhadas durante os dias 10 a 24 de junho entre 237 grupos bolsonaristas monitorados. Durante o período, foram trocadas mais de 310 mil mensagens.

Foram analisadas por Radar Aos Fatos as 50 mensagens mais compartilhadas que continham links para o YouTube. A equipe pôde analisar 45 vídeos (um vídeo havia sido removido pelo usuário, dois eram privados e dois vídeos eram repetidos). Um vídeo também foi retirado do ar durante a produção da matéria.

Os vídeos foram assistidos pela equipe e categorizados por temas. Também foi feita análise para saber se eles continham algum tipo de narrativa de desinformação. Todos os vídeos categorizados podem ser encontrados aqui.

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.