Fernando Frazão/ABr

🕐 Esta reportagem foi publicada há mais de seis meses

Campanha contra Crivella traz dados fora de contexto e especulação

Por Bernardo Moura e Ana Rita Cunha

6 de outubro de 2016, 13h18

Candidatos a prefeito em dois pólos distintos do espectro político, Marcelo Crivella (PRB) e Marcelo Freixo (PSOL) são alvos de um enxame de boatos nas redes sociais desde que sucederam ao segundo turno. Por isso, Aos Fatos foi atrás da origem dessas histórias para medir seu grau de veracidade.

Por meio de apuração criteriosa, a reportagem verificou que a maioria dos boatos espalhados pelas redes tem algum fundamento verdadeiro, mas extrapolam os fatos ao fazer especulações futuras e ameaças a direitos previstos na legislação.

Já que a maioria dos rumores aglutinam previsões para a eventual gestão do candidato vencedor, Aos Fatos se absteve de classificá-los com seus tradicionais selos. A reportagem procurou explicar, com contexto e fatos concretos, como se dá a relação de poder entre os candidatos, suas bases e seus aliados.

Veja, abaixo, o que checamos sobre Marcelo Crivella. Para saber o que checamos a respeito de Marcelo Freixo, clique aqui.


1

Crivella diz que negros gostam de cachaça, prostituição e macumba

Editado, um vídeo em que Crivella diz que “os negros gostam de cachaça, prostituição e macumba” durante um culto evangélico se espalhou nas redes sociais no início da campanha deste ano e voltou a circular após a definição do segundo turno no Rio. A fala, no entanto, foi retirada do contexto original, como mostra um outro vídeo publicado pela campanha do senador pelo PRB.

Nesta versão, com 122 segundos a mais que o vídeo que viralizou no Facebook, é possível compreender que Crivella atribuiu a frase a uma muçulmana que foi ao seu templo recém-inaugurado na África do Sul.

“Uma muçulmana atravessava o corredor, olhava pro meu salão vazio e pff, olhava pro outro lado e pff. Te mandaram para o lugar errado, você é branco. Os negros gostam de cachaça, prostituição e macumba na África. De tal maneira que você vai fracassar. Mas você sabe que ali é que eu vi que nós, brasileiros, não somos negros, não somos brancos, não somos vermelhos, nós somos tudo isso e muito mais”, diz ele.


2

Crivella vai trazer Garotinho de volta para a política do Rio

A foto acima, de Crivella com a família Garotinho, tem circulado nas redes sociais com alertas a respeito da suposta influência dos ex-governadores Anthony e Rosinha e da deputada federal Clarissa Garotinho em um eventual governo do candidato do PRB. No entanto, é de 2014.

Ainda assim, é verdade que o PR, partido do clã Garotinho, ocupa posição de destaque na campanha de Crivella, tendo indicado seu candidato a vice-prefeito, Fernando MacDowell. Em entrevista ao RJTV antes do primeiro turno, Crivella reconheceu a importância de Clarissa Garotinho no acordo que selou a aliança com o PR. O jornal O Globo publicou reportagem com informações de bastidores de que Garotinho se aproximou de Crivella em troca de espaço e cargos no governo.

Questionado por Aos Fatos por meio de sua assessoria, Crivella negou ter negociado cargos com Garotinho e disse que “é muito provinciano reduzir uma aliança partidária a uma questão familiar, além de desrespeitoso com os partidos”. Ele confirmou ainda que a foto que circula nas redes sociais é de 2014, quando recebeu o apoio do PR de Garotinho para enfrentar Luiz Fernando Pezão (PMDB) no segundo turno das eleições estaduais. O ex-governador ficou em terceiro lugar na disputa.


3

Pastores evangélicos usam cultos para pedir votos para Crivella

Um vídeo gravado durante a pregação de um pastor evangélico que pede votos para Crivella aos fiéis é compartilhado nas redes sociais para denunciar propaganda irregular a favor do candidato do PRB em templos protestantes. No primeiro turno, as imagens chegaram a ser compartilhadas pelo candidato Índio da Costa (PSD).

O vídeo, no entanto, é de 2014 e integrou reportagem do jornal O Globo sobre a influência dos evangélicos na campanha de Crivella para o governo do Estado. Dias depois da divulgação do vídeo, o TRE notificou a Igreja Universal do Reino de Deus por fazer campanha, sob pena de multa de R$ 500 mil por dia.

A resolução 23.404 do Tribunal Superior Eleitoral prevê, no parágrafo 2º do artigo 11, punição para o candidato beneficiado por campanha em templos religiosos com notificação e multa entre R$ 2.000 e R$ 8.000.

Questionado por Aos Fatos a respeito do comportamento do pastor, o candidato disse que “não se deve misturar política com religião”.


4

Crivella questiona a teoria da evolução de Darwin e vai adotar criacionismo nas escolas

Em pronunciamento na tribuna do Senado em fevereiro de 2009, Crivella afirmou que a teoria da evolução de Charles Darwin “não passa de teoria”. Mais adiante, o político diz que “não há provas conclusivas de que haja qualquer indício na natureza que uma espécie possa gerar outra espécie”. Por fim, Crivella questiona o surgimento da ameba e afirma que “se a doutrina do evolucionismo está correta, se um gênero nasceu do outro, e a natureza assim evolui, porque não se encontrou até hoje um fóssil sequer em que seja metade anfíbio e metade ave, ou peixe”.

As declarações foram compiladas pelo Blog do Fernando Rodrigues em um vídeo que circula na internet para denunciar que, se eleito, Crivella adotará o ensino do criacionismo nas escolas municipais.

O candidato afirmou, em resposta a questionamento de Aos Fatos, que “nunca deixaria qualquer convicção religiosa influenciar a política educacional das escolas públicas”. “O Brasil é um país laico, o estado do Rio é laico e o município do Rio de Janeiro é laico”, disse ainda.

O candidato não respondeu se é adepto do criacionismo.

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