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Por onde passam as doações até chegarem às vítimas de enchentes no RS

Por Marco Faustino

20 de maio de 2024, 16h56

A distribuição de doações às vítimas das enchentes que já causaram ao menos 157 mortes no Rio Grande do Sul tem sido explorada para gerar desinformação nas redes. Nas últimas semanas, publicações disseminaram mentiras para alegar que autoridades estariam impedindo a chegada de mantimentos ou se apropriando de donativos enviados pela população para inflar o auxílio prestado pelo governo federal aos municípios.

Aos Fatos consultou prefeituras, o governo gaúcho, o governo federal, as Forças Armadas, a Defesa Civil, os Correios e outros órgãos para explicar qual o destino de contribuições financeiras, alimentos, roupas, medicamentos e materiais de limpeza e higiene pessoal doados às pessoas atingidas pela tragédia.

  1. Doações do governo federal
  2. Doações aos Correios e às Forças Armadas
  3. Doações ao governo do Rio Grande do Sul
  4. Doações aos municípios gaúchos e a entidades civis
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1. DOAÇÕES DO GOVERNO FEDERAL

Além da liberação de recursos financeiros e do auxílio de R$ 5.100 prometido à população afetada pelas enchentes, o governo federal também está distribuindo alimentos, itens de limpeza e outros bens de consumo. As ações estão sendo realizadas por ministérios e estatais com estratégias logísticas diversas.

Abaixo, Aos Fatos lista algumas delas:

Infográfico mostra o caminho percorrido entre a compra e a entrega de cestas básicas doadas pelo governo federal ao RS. Mapa mostra que cestas saem de Brasília e vão até o estado gaúcho com a ajuda dos Correios e da Força Aérea

Ministério do Desenvolvimento Social, Família e Combate à Fome. De acordo com os dados mais recentes do governo, o MDS já entregou 29.836 cestas básicas à unidade distribuidora da Conab (Companhia Nacional de Abastecimento) em Canoas (RS). A previsão é que sejam enviados um total de 52 mil pacotes, que contêm alimentos como arroz, feijão, leite em pó, óleo de soja e açúcar.

O processo de distribuição é o seguinte:

  1. Os pacotes são embalados em Brasília pela empresa Quit Alimentos em sacos com o logotipo do governo federal e um alerta de proibição de venda;
  2. As cestas são empilhadas e transportadas pela empresa ou pelos Correios para a unidade de armazenamento da Conab em Canoas. A orientação é que elas não sejam fracionadas ou reembaladas durante o trajeto;
  3. Ao chegarem à unidade, os mantimentos são distribuídos pela Conab aos municípios afetados pelas enchentes.

Ministério da Saúde. A pasta tem centralizado o envio de medicamentos e itens de higiene pessoal, além de doses de vacinas, frascos de insulina e imunoglobulina e outros insumos necessários ao tratamento de problemas crônicos de saúde:

  • No último dia 12, foram distribuídos kits de emergência com remédios para atender até 300 mil pacientes. Enviados pelo ministério à Secretaria estadual de Saúde, os medicamentos serão entregues aos municípios conforme a necessidade;
  • No dia 11, também foram doados ao estado 603 mil itens de higiene pessoal, como absorventes, toalhas umedecidas e fraldas. A logística foi feita pelo ministério em parceria com a Força Aérea.

Ministério das Relações Exteriores. O Itamaraty é o responsável por coordenar a entrega de donativos enviados do exterior por governos, entidades e pessoas físicas:

  • O Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados) se comprometeu a doar casas modulares, kits para cozinhas comunitárias e kits de higiene. Os itens devem chegar ao Brasil num voo solidário da companhia aérea Latam, em data a ser definida;
  • Os donativos arrecadados por Portugal — e cuja negociação foi alvo de desinformação (veja aqui e aqui) — também começaram a chegar na última sexta (17) em um voo da Latam;
  • Já os bens arrecadados em pontos de coleta em Londres serão distribuídos com a ajuda do grupo de voluntários Legendários, formado por jogadores de futebol e por empresários do ramo esportivo.
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2. DOAÇÕES AOS CORREIOS E ÀS FORÇAS ARMADAS


Mais de 10 mil agências dos Correios das regiões Nordeste, Sudeste e Sul também estão servindo como ponto de coleta de doações às vítimas das enchentes. Os mantimentos obtidos em polos regionais da estatal são encaminhados à central em São Paulo, onde é feita a gestão logística. A empresa controla o estoque e faz os envios para as cidades gaúchas conforme orientação da Defesa Civil.

A orientação é que os pacotes sejam entregues divididos por categorias e embalados em sacos transparentes ou caixas. Os itens mais necessários no momento são:

  • Água e alimentos da cesta básica;
  • Fraldas e itens de higiene pessoal;
  • Itens de limpeza;
  • Roupas de cama e de banho;
  • Ração para animais de estimação.

Na última quinta-feira (16), foi suspensa a coleta de roupas, que corresponde a 70% dos donativos recebidos nas agências dos Correios até o momento.

Forças Armadas. Exército, Marinha e Aeronáutica disponibilizaram instalações, veículos, aeronaves e navios para a coleta e o transporte de doações. Cada uma das Forças atua seguindo uma logística própria:

  • A Força Aérea está transportando alimentos, água, roupas e medicamentos até a Base Aérea de Canoas. Os donativos desembarcados no local são separados pela Defesa Civil estadual e pela Secretaria de Saúde, que cuidam respectivamente da triagem de roupas e mantimentos e da separação de medicamentos;
  • O Exército também está mobilizando recursos para coletar e encaminhar doações de voluntários. Foram organizados diversos pontos de coleta em organizações militares situadas em cidades como Brasília, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador. As cargas são transportadas em caminhões, aeronaves e embarcações;

A Marinha também disponibilizou navios como o Atlântico e o Antares para transportar donativos, equipamentos e pessoal. Foram levados ao estado gaúcho, além de equipamentos e pessoal, mais de uma centena de toneladas de mantimentos e medicamentos.

3. DOAÇÕES AO GOVERNO DO RIO GRANDE DO SUL


A coleta e a distribuição de donativos ao governo gaúcho está sendo intermediada pela Defesa Civil do estado. Há pontos de arrecadação em Porto Alegre e em centros regionais em Lajeado (RS), Encantado (RS) e Caxias do Sul (RS).

A central de doações da Defesa Civil estadual coordena o envio da ajuda de acordo com as necessidades reportadas pelos municípios. As regionais do órgão fazem contato com a central em Porto Alegre e os itens são enviados por caminhão, aeronave ou embarcação, a depender das condições da cidade. É possível conferir a lista dos itens mais necessários aqui.

As orientações são as seguintes:

  • Remédios podem ser doados por ONGs, laboratórios farmacêuticos, distribuidoras de medicamentos e administrações municipais, mas não por pessoas físicas. Os itens devem ser informados por email, especificando a quantidade, apresentação, lote e validade;
  • Os interessados em contribuir com refeições prontas (marmitas) devem fazer contato prévio com a Defesa Civil do município que pretendem ajudar;
  • Empresas e organizações que desejarem enviar doações deverão contatar previamente a Defesa Civil para informações logísticas.

Foto mostra transporte de 15 mil cobertores do 30 mil comprados com recursos doados via Pix ao governo estadual gaúcho, que serão distribuídos pela Defesa Civil estadual (Jurgen Mayrhofer/Ascom SSPS)
Cobertores. Segunda remessa de 15 mil cobertores, das 30 mil unidades compradas com recursos doados via Pix do SOS Rio Grande do Sul, serão distribuídas pela Defesa Civil estadual (Jurgen Mayrhofer/Ascom SSPS)

Contribuições financeiras. O governo gaúcho também tem arrecadado recursos via Pix pela conta SOS Rio Grande do Sul, aberta no Banrisul durante as enchentes de 2023 e agora reativada. Os recursos são administrados por um comitê formado por órgãos do governo, entidades privadas e movimentos sociais. Desde o início de maio, foram arrecadados R$ 101 milhões.

De acordo com o comitê gestor, parte dos recursos foi usada na compra de cobertores e o restante será repassado às vítimas na forma de vouchers de R$ 2.000, distribuídos à população de baixa renda dos municípios afetados mediante alguns critérios (veja aqui).

Por fim, o governo também disponibilizou meios para receber doações do exterior. As contribuições em dinheiro poderão ser feitas por pessoas físicas e jurídicas por meio de instituições parceiras do Banrisul.

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4. DOAÇÕES AOS MUNICÍPIOS GAÚCHOS


Cada prefeitura tem seus próprios procedimentos para a coleta e a distribuição dos donativos. Abaixo, o Aos Fatos fornece um panorama do que tem acontecido em quatro municípios afetados pela tragédia.

Foto mostra central logística da capital gaúcha que organiza doações e encaminha para centros de distribuição da prefeitura (Cesar Lopes/ PMPA)
Porto Alegre. Central logística da capital organiza doações e encaminha para centros de distribuição da prefeitura (Cesar Lopes/PMPA)

Porto Alegre. Na capital, há atualmente 17 centros de distribuição, responsáveis pelo recebimento de diferentes tipos de donativos. Eles são os responsáveis por encaminhar os materiais aos 154 abrigos organizados pelo município e por entidades parceiras.

Pessoas que não estão em abrigos e desejam receber donativos precisam fazer um cadastro via WhatsApp. A entrega será feita pela prefeitura no endereço indicado e o atendimento será conforme a disponibilidade em estoque.

O cadastramento da prefeitura não tem relação com um vídeo desinformativo que circulou nas redes há algumas semanas. Os posts enganavam ao alegar que todas as vítimas precisavam preencher um formulário da Defesa Civil estadual para receber ajuda do governo.

Canoas. Foram montadas centrais de coleta e distribuição de mantimentos, que são entregues em abrigos ou retirados diretamente pelas famílias. As doações que chegam em sacolas mais frágeis são colocadas em sacos resistentes, todos genéricos e sem identificação da prefeitura. Os voluntários que desejam entregar doações às vítimas devem preencher um cadastro.

O campus da Ulbra (Universidade Luterana do Brasil) localizado na cidade é o maior abrigo do Rio Grande do Sul em número de pessoas, com cerca de 6.000 desalojados. Os donativos recebidos no campus são organizados e distribuídos por colaboradores da instituição com o apoio de voluntários. Já os excedentes são encaminhados à prefeitura por meio de representantes da Defesa Civil ou do órgão municipal de assistência social.

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Nas Redes É falso que caminhões com doações estão sendo abordados em posto em Gravataí

Santa Maria e Gravataí. Nos municípios, a distribuição de cestas básicas está sendo feita por unidades do Cras (Centro de Referência de Assistência Social), mantidos por prefeituras e pelo governo federal. Os centros analisam as necessidades das famílias e também orientam sobre eventuais programas de auxílio financeiro.

Em Santa Maria, a arrecadação está concentrada no Centro Desportivo Municipal. Os mantimentos chegam por via terrestre e aérea por meio de veículos particulares e militares e depois são distribuídos às famílias.

Já a Prefeitura de Gravataí afirmou ao Aos Fatos que não foi tão afetada pelas enchentes, e que por isso só tem recebido donativos de empresas e da sociedade civil. Os alimentos destinados à administração municipal são separados e direcionados aos Cras. Um ginásio da cidade também está sendo usado por voluntários para encaminhar donativos a outros municípios.

Infográficos por Méuri Elle.

Referências:

1. O Globo
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5)
3. Governo federal (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9)
4. Agência Brasil
5. Correios
6. g1
7. FAB
8. Exército
9. Marinha (1, 2)
10. Governo do Rio Grande do Sul (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7)
11. GZH (1, 2)
12. Defesa Civil RS
13. Prefeitura de Porto Alegre

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