Brasileiro se passa por autoridade americana para viralizar áudios falsos de Lula e Moraes

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Toda semana, o brasileiro Eduardo Henrique Matos, diretamente de Orlando, nos EUA, veste o uniforme de alguma autoridade americana, como uma farda do Exército ou um colete com a palavra “xerife”, entra em seu veículo e toca um áudio gerado por IA (inteligência artificial) para os mais de 1,7 milhão de seguidores de seu perfil, The Blacksmith Advisory.

Os áudios simulam ligações em que autoridades como o presidente Lula (PT) e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes discutem irregularidades ou tramam planos maquiavélicos, como o boicote a adversários ou a aprovação de medidas impopulares.

Apesar de nunca deixar claro como teria conseguido os tais áudios supostamente vazados, Matos monta a cena para fazer crer que teria acesso a arquivos obtidos pelas autoridades americanas em investigações.

Em um vídeo publicado em setembro do ano passado, por exemplo, ele diz: “todo mundo que entra na lista Magnitsky, ele entra para uma lista de rastreio do Serviço de Inteligência americano. Então tudo o que ele faz é monitorado. Então olha o que eles conseguiram pegar”. Em seguida, apresenta um áudio gerado por IA que imita a voz do ministro Alexandre de Moraes reclamando que teria perdido seu WhatsApp e sua conta na Apple.

Em um vídeo mais recente, Matos disse que o áudio estaria na deep web — termo usado para se referir à parcela da internet que não pode ser encontrada por meio de buscadores —, mas não explicou como chegou ao conteúdo.

Além disso, na maior parte das gravações, o influenciador usa fantasias com brasões escritos “Sheriff” e “US Army” e mostra armas de fogo. Há seguidores que, inclusive, o apelidaram de “o xerife”.

A imagem mostra um homem de pele clara sentado no banco do motorista de um carro, usando capacete tático camuflado, óculos escuros espelhados e colete tático camuflado sobre uma camiseta de manga longa cinza. Ele segura com a mão esquerda a alça do capacete próxima ao rosto e, com a mão direita, apoia um objeto escuro semelhante a um equipamento ou arma longa apoiado no corpo; no peito, há um distintivo circular preso ao colete. O interior do veículo é visível, com parte do volante e da porta, e ao fundo aparecem construções externas desfocadas. Na parte superior da imagem, há um texto gráfico que diz ‘Bomba! EUA em Alerta!’, e na parte inferior aparece o texto ‘Siga @theblacksmithadv’.
Matos usa roupas militares em alguns vídeos e, em outros, uma insígnia de xerife (Reprodução)

O brasileiro, no entanto, não tem nenhuma ligação aparente com autoridades americanas. Em contato com o Aos Fatos, o Exército americano negou ter algum Eduardo Henrique Matos em seus quadros.

Também procuramos pelo nome entre os xerifes dos condados da Flórida. Ele não aparece na lista oficial da associação Florida Sheriffs. O escritório de Orange County, onde a maior parte de Orlando está situada, também negou ao Aos Fatos ter admitido alguém com o nome semelhante em algum momento.

Ao ser questionado sobre sua relação com as autoridades e como ele teria acesso aos áudios, Matos não respondeu. Mais tarde, no entanto, ele gravou um vídeo rindo e dizendo que duvidava que o Aos Fatos teria conseguido contato com o exército e com a força policial americana.

O influenciador nunca provou ligação com as autoridades das quais ele se veste.

Histórico

Em busca nas redes, Aos Fatos encontrou fotos antigas em que Matos aparece em uma loja de bonés em Brasília, da qual era sócio. Posteriormente, ele se mudou para Orlando, onde faz serviços de instalação de leds (veja abaixo).

Segundo disse em uma entrevista, a decisão de deixar o Brasil ocorreu depois que seu primeiro negócio quebrou “por causa da Dilma”. De acordo com os dados disponíveis, Matos era sócio de seis empresas ligadas à venda de bonés. Todas elas constam como “situação inapta”, que ocorre quando a empresa não entrega as declarações fiscais obrigatórias por dois anos seguidos.

A imagem é uma captura de tela de uma publicação no Instagram que mostra dois homens em pé, lado a lado, diante de um painel de LED exibindo a bandeira dos Estados Unidos. À esquerda, há um homem de pele clara, cabelo curto escuro e barba curta, vestindo camiseta preta de mangas longas, com uma das mãos parcialmente levantada. À direita, há um homem de pele clara, cabelo curto escuro e barba curta, usando camisa azul de mangas curtas com logotipo no peito e um boné claro. Na parte inferior da imagem, aparece o texto gráfico ‘E ELE QUE INSTALOU’. À direita, são visíveis elementos da interface do Instagram, incluindo o nome do perfil, legenda, curtidas e comentários.
Matos diz que foi responsável por instalar tela da Sams Led em casa do ex-candidato à prefeitura de São Paulo, Pablo Marçal (Reprodução/Instagram)

Antes de espalhar desinformação sobre o cenário político brasileiro, Matos publicava conteúdo em que tirava dúvidas sobre a vida nos EUA. Até o início de 2025, os posts abordavam temas como empreendedorismo no exterior e o movimento Legendários, do qual faz parte.

Os conteúdos mais virais são os áudios falsos gerados por IA — que já foram republicados por outros bolsonaristas, como Allan dos Santos, blogueiro foragido da Justiça brasileira atualmente nos EUA. Hoje, seu perfil soma cerca de 70 milhões de visualizações mensais.

Indícios de geração artificial

Aos Fatos tem identificado conteúdos desinformativos publicados por Matos desde agosto do ano passado. De lá para cá, cinco checagens já foram feitas sobre publicações falsas e virais do seu perfil, que, juntas, acumulavam ao menos 2 milhões de visualizações no TikTok e 5 milhões de visualizações no Instagram. São elas:

  1. Áudios em que Moraes e o ex-ministro do Supremo Luís Roberto Barroso supostamente lamentam ter sido alvo de sanções aplicadas pelos EUA via Lei Magnitsky;
  2. Uma mensagem de voz em que Moraes ameaçaria os presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP);
  3. Uma ligação em que Lula parabenizaria Moraes pela prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL);
  4. Um áudio em que Moraes teria dito que proibiria o “vocabulário evangélico” no Brasil;
  5. E a suposta ligação que Lula teria feito para Moraes, na qual ele teria dito que alguma coisa deveria ser feita contra a candidatura presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Além dos conteúdos desmentidos, Matos publicou ao menos outros dois vídeos com vozes geradas por IA em 2026, que já foram vistos por 4 milhões de usuários no Instagram. Esses números levam em conta apenas as visualizações no perfil oficial e não contabilizam os compartilhamentos por outros perfis.

A imagem é uma captura de tela de uma publicação no Instagram que mostra um homem de pele clara, cabeça raspada ou cabelo muito curto, usando óculos escuros, camiseta cinza de mangas longas e colete tático preto com a inscrição ‘SHERIFF’ em amarelo. Ele aparece em ambiente externo, com vegetação, palmeiras e céu nublado ao fundo, segurando um objeto escuro semelhante a uma arma longa apoiada junto ao corpo. No canto superior esquerdo da imagem, há um texto gráfico que diz ‘Bombaaa! Acabou para Alex4ndr3 de Mor4es’. À direita, são visíveis elementos da interface do Instagram, incluindo nome do perfil, legenda, comentários, curtidas e ícones de interação.
Matos publicou nova ligação falsa de Alexandre de Moraes em janeiro e disse que encontrou áudio na ‘deepweb’ (Reprodução/Instagram)

Por mais que as vozes nos áudios pareçam, de fato, as reais, as publicações apresentam indícios de que se tratam de material manipulado:

  • As falas são pausadas e as sílabas muito bem separadas;
  • Algumas autoridades falam com sotaques diferentes ou não apresentam maneirismos — um exemplo é Lula, que costuma falar o “o” de algumas palavras com som de “u”;
  • As mensagens também tem um aspecto artificial, sem repetições, sem pausas, sem respiros longos ou palavras que indicam que o interlocutor está pensando enquanto fala;
  • E, por fim, os áudios são artificialmente didáticos, explicando expressões e identificando personagens depois de apelidos, o que não é comum em falas naturais.

Ouça aqui um exemplo de áudio falso.

Além dessas características, um outro aspecto que indica manipulação é o contexto. Os áudios divulgados são sempre relacionados a assuntos do momento, mas nunca veiculados por outro perfil ou publicação.

Eles também não mostram a conversa entre os interlocutores, apenas áudios de uma pessoa só. E Matos também não mostra a tela do celular ou prints da suposta conversa em que os áudios teriam sido enviados.

Durante sua participação no podcast Os Fella’s Cast, Matos disse que quem o acusa de usar IA está tentando “o descredibilizar por um detalhe”. Para ele, não importa se o áudio é falso ou não, desde que o conteúdo “seja verdadeiro”.

Conteúdo irregular

As publicações de Matos ferem as regras de comunidade das plataformas da Meta, que pedem que os perfis sejam autênticos e não usem informações falsas sobre sua biografia para enganar os usuários.

Também consta nas regras da Meta que conteúdos criados digitalmente, como “um vídeo fotorrealista ou um áudio com som realista, que tenha sido criado ou alterado digitalmente e que gere um risco particularmente elevado de enganar, de forma material, o público sobre uma questão de importância pública” devem ser rotulados como mídia manipulada, o que não acontece no caso de Matos.

O caso também vai contra as recomendações do Oversight Board da Meta de 2024, que sugeriu que a plataforma identifique conteúdos gerados por IA. Desde então, os usuários, no momento do upload, podem informar que suas publicações usaram ferramentas do tipo para serem criadas.

Aos Fatos questionou a Meta sobre o perfil de Matos. A plataforma, depois de solicitar mais tempo para responder os questionamentos, disse que não iria comentar.

A reportagem também entrou em contato com a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República), que disse que as ligações apresentadas por Matos são falsas e que “a propagação de desinformação tem efeitos devastadores para a sociedade em toda a sua forma — desde a concepção até a divulgação em si”.

Outro lado

Em dezembro, Aos Fatos entrou em contato com Matos por email e, como não houve resposta, enviou mensagens por WhatsApp. Nelas, a reportagem questionou qual aplicativo ele usava para gerar os áudios, o motivo pelo qual ele escondia a informação de que se tratavam de vozes criadas com IA e por que se vestia de militar ou policial mesmo sem ter ligação aparente com essas autoridades.

No dia 25 de dezembro, Matos respondeu apenas “Errado!”, sem indicar o que estaria incorreto nem apresentar qualquer contraponto. Aos Fatos voltou a questioná-lo sobre o eventual erro, mas não obteve resposta.

Em 27 de janeiro, Aos Fatos mandou uma nova mensagem para Matos, reforçando que a reportagem seria publicada e abrindo novamente o espaço para comentários dele. Horas depois, ele enviou um áudio dizendo apenas: “meu amigo, boa sorte”.

Sem rebater nenhuma das afirmações, Matos publicou nas redes um vídeo em que ofende a reportagem do Aos Fatos e faz doxxing — assédio digital por meio da divulgação de dados pessoais.

O repórter teve seu número de telefone exposto nas redes e passou a receber mensagens ofensivas de seguidores de Matos. Sob orientação jurídica, Aos Fatos preservou as provas do incidente e apresentou denúncia à Meta, que retirou o vídeo do ar no Instagram e no Facebook. Em nota, a big tech disse que as políticas da plataforma “proíbem o compartilhamento de informações de contato pessoal de terceiros”.

O caminho da apuração

Aos Fatos catalogou os vídeos desinformativos do perfil desde que o primeiro foi checado pela reportagem. Analisamos as publicações antigas e buscamos informações sobre o autor, como empresas e políticos ligados a ele. Também usamos ferramentas de análise de perfis de redes sociais, como Socialinsider e Social Blade, para calcular o impacto dos conteúdos enganosos.

Entramos em contato com as autoridades americanas pelas quais ele se passa em seus vídeos e também enviamos as gravações para o STF, para a Secom da Presidência da República e para a Meta.

Por fim, tentamos entrar em contato com o autor entre dezembro de 2025 e fevereiro deste ano. Além de não responder os questionamentos, Matos gravou um vídeo divulgando informações pessoais do repórter, o que incentivou assédio e ataques direcionados. A publicação foi apagada pela Meta horas depois.

Referências

  1. Florida Sheriffs
  2. Consulta Sócio
  3. Serasa
  4. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7 e 8)
  5. Meta (1, 2 e 3)

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