Brasil não anunciou interrupção total de exportações para os EUA

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Não é verdade que o governo Lula anunciou a interrupção total de exportações para os Estados Unidos em resposta ao tarifaço de Donald Trump. Procurado pelo Aos Fatos, o MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) negou as alegações. As peças de desinformação também disseminam uma série de outras mentiras sobre dados econômicos e investimentos estrangeiros.

Publicações com o conteúdo enganoso acumulavam cerca de 200 mil visualizações no YouTube e dezenas de compartilhamentos no Facebook até a tarde desta terça-feira (2).

TRUMP EM DESESPERO! Brasil Corta Exportações e Trump Implora por Negociação!

A imagem mostra a fachada de um prédio branco com colunas. Na frente dele está hasteada uma bandeira dos Estados Unidos, ondulando ao vento contra um céu azul. No canto superior direito, há um círculo preto com um logotipo desfocado dentro. Na parte inferior da imagem, aparece um texto em destaque: 'TRUMP EM DESESPERO! Brasil Corta Exportações e Trump Implora por Negociação!'.

Publicações mentem ao afirmar que o Brasil anunciou a interrupção total de exportações para os Estados Unidos como resposta ao tarifaço imposto pelo governo americano. Em nota, o MDIC afirmou que a informação é falsa:

“As operações de comércio exterior se dão entre agentes privados, e não há qualquer ação, por parte do governo brasileiro, no sentido de impedir o comércio com os Estados Unidos. As ações do governo brasileiro, neste momento, estão alinhadas ao Plano Brasil Soberano e buscam unicamente apoiar as empresas atingidas pela imposição tarifária norte-americana às exportações brasileiras, ajudando a proteger os negócios e os empregos”, informou a pasta.

Apesar de não ter bloqueado as exportações, o governo anunciou medidas de reação às tarifas americanas. No dia 6 de agosto, o Brasil apresentou um pedido de consulta aos EUA na OMC (Organização Mundial do Comércio), questionando a legalidade da medida.

O governo também contratou um escritório de advocacia nos EUA para tentar reverter as sanções impostas por Trump. Segundo a AGU (Advocacia-Geral da União), os advogados atuarão “administrativa e judicialmente em defesa do Estado brasileiro”.

Em 28 de agosto, o presidente Lula autorizou ainda o início de consultas para aplicação da Lei da Reciprocidade Econômica. Sancionada em abril, a norma possibilita ao governo adotar medidas contra países ou blocos que imponham barreiras comerciais, legais ou políticas abusivas contra o Brasil.

Entre as possíveis ações estão a imposição de tarifas sobre importações, a suspensão de concessões comerciais e investimentos e restrições relacionadas à propriedade intelectual. De acordo com o Itamaraty, ao todo, o processo pode levar cerca de sete meses.

Outras informações falsas. Uma das peças desinformativas de maior alcance é um vídeo no qual uma voz narra uma série de acontecimentos fictícios após o anúncio da suposta interrupção das exportações brasileiras aos EUA.

A gravação afirma, por exemplo, que Trump teria enviado uma delegação de emergência a Brasília para negociar a retirada imediata das tarifas. O autor chega a dizer que a mídia americana estaria tratando o episódio como a “maior humilhação diplomática da história”. Não há registro de nenhuma informação similar em canais oficiais ou na imprensa.

O vídeo alega também que, uma semana após o suposto rompimento comercial, a China teria assinado contratos de US$ 150 bilhões com o Brasil. O número, porém, corresponde ao montante movimentado pelo comércio entre os dois países em 2024.

Outras distorções incluem dados econômicos inflados:

  • A gravação alega, sem fontes, que o Brasil registrou um aumento de 340% em investimentos estrangeiros e expectativas de crescimento de 8% do PIB (Produto Interno Bruto). Ambas as afirmações são falsas;
  • Aos Fatos não encontrou registros de instituições projetando uma alta do tipo para o PIB em 2025. No segundo trimestre, a economia brasileira cresceu 2,2% em relação ao mesmo período do ano passado;
  • Também não há dados que comprovem um aumento de 340% nos investimentos externos. De acordo com o Banco Central, os aportes superaram as expectativas e voltaram a cobrir o rombo das contas externas, mas em nenhum momento o aumento de 340% foi citado pela instituição.
O caminho da apuração

Aos Fatos entrou em contato com o MDIC, que negou a alegação. Também utilizamos o Escriba para transcrever o vídeo desinformativo de maior alcance e constatar se havia outras informações falsas na peça. Essas informações foram checadas com base em dados oficiais e em reportagens publicadas pela imprensa.

Referências

  1. Agência Brasil
  2. O Globo (1 e 2)
  3. Governo federal (1 e 2)
  4. Uol
  5. CNN Brasil

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