Secom pagou R$ 40 mil para transmitir evento em que Bolsonaro mentiu sobre meninas venezuelanas

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Durante discurso a representantes do setor de supermercados, em 16 de maio deste ano, o presidente Jair Bolsonaro (PL) relatou o episódio em que teria presenciado, nas palavras dele, menores venezuelanas sendo exploradas sexualmente numa comunidade do Distrito Federal. O evento foi transmitido ao vivo pela TV Brasil a um custo de R$ 40.294,82, pagos com dinheiro público pela Secom (Secretaria Especial de Comunicação da Presidência da República).

De acordo com Bolsonaro, meninas venezuelanas “de 14, 15 anos”, arrumadas, preparavam-se para “ganhar a vida”. Reportagem do UOL mostrou que, na verdade, as menores em questão faziam parte de um projeto social que trasformara um abrigo de imigrantes em um salão de beleza.

No domingo (16), o presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), Alexandre de Moraes, determinou a exclusão do vídeo em que Bolsonaro fala a expressão “pintou um clima” para se referir às venezuelanas. Essa declaração foi dada durante entrevista a um podcast na sexta-feira (14). Desde então, novos vídeos passaram a circular nas redes, mostrando momentos anteriores em que o candidato à reeleição também fez a acusação de exploração sexual infantojuvenil sem apresentar provas. Um desses vídeos é a transmissão oficial da TV Brasil.

O valor da transmissão feita pela TV pública consta de levantamento do Aos Fatos feito com base em relatórios da EBC (Empresa Brasil de Comunicação). Os serviços prestados, segundo as planilhas de custos, foram a tradução em libras, o uso de encoder — equipamento necessário para links fora do estúdio — e a transmissão pelo YouTube. O vídeo permanece no canal da TV Brasil, com 26 mil visualizações.

Bolsonaro diz, na marcação de 1h45min41s:

“Fui pra dentro da periferia de Brasília, de motocicleta, entrei numa república de venezuelanas, sábado à tarde. Dá pra imaginar, pessoal? Sábado à tarde, eu vejo, eu paro a moto, olho pra trás, tem umas meninas de 14, 15 anos, arrumadinhas. Me surpreendeu. Eu voltei, falei para o ajudante de ordem: ‘Abre uma live’. Tinha umas 20 venezuelanas lá dentro, meninas bonitas de 14, 15 anos, se arrumando pra quê? Se arrumando sábado à tarde, pra quê? É isso que nós queremos, nossas filhas e netas?”

No mesmo evento, Bolsonaro disse ao menos outras 15 frases enganosas ou com informações falsas, segundo o contador do Aos Fatos, que neste ano ultrapassou a marca de 6.000 alegações falsas ou distorcidas. No encontro de supermercadistas, ele espalhou desinformações como “a Amazônia não pega fogo”, “eu podia ter acabado com a CPI [da Pandemia] nas primeiras semanas” e “em cada cinco bocas do mundo, uma é alimentada pelo Brasil”.

Relembre como o assunto tomou a campanha eleitoral:

  • Na sexta-feira (14), em entrevista a um podcast, Bolsonaro disse: “Eu estava em Brasília, na comunidade de São Sebastião, se eu não me engano, em um sábado de moto (…) parei a moto em uma esquina, tirei o capacete, e olhei umas menininhas... Três, quatro, bonitas, de 14, 15 anos, arrumadinhas, num sábado, em uma comunidade, e vi que eram meio parecidas. Pintou um clima, voltei. ‘Posso entrar na sua casa?’ Entrei. Tinha umas 15, 20 meninas, sábado de manhã, se arrumando, todas venezuelanas. E eu pergunto: meninas bonitinhas de 14, 15 anos, se arrumando no sábado para quê? Ganhar a vida”;
  • No sábado (15), após viralizar nas redes sociais, o trecho foi usado pela campanha do PT em inserções na TV;
  • Entre sábado e domingo (16), tanto a campanha de Bolsonaro como a de Lula pagaram anúncios no Google para desmentir ou promover o vídeo;
  • No domingo (16), horas antes do primeiro debate entre Bolsonaro e Lula, Alexandre de Moraes determinou a exclusão do vídeo sob pena de multa diária de R$ 100 mil;
  • Na segunda-feira (17), a primeira-dama Michelle Bolsonaro e a senadora eleita Damares Alves (PL-DF) se encontraram com as líderes comunitárias do projeto social que atende as meninas venezuelanas, segundo o jornal O Globo;
  • Na terça (18), Bolsonaro divulgou vídeo em que aparece ao lado de Michelle e pede desculpas: “Se as minhas palavras, que por má-fé foram tiradas de contexto, de alguma forma foram mal entendidas ou provocaram algum constrangimento as nossas irmãs venezuelanas, peço desculpas”.

De acordo com o Banco de Discursos do Aos Fatos, Bolsonaro contou a história em ao menos mais uma terceira oportunidade, em entrevista ao podcast Collab (12.set.2022), quando disse:

“Olha só, pessoal eu estava na… Eu acho que é Paraíso do São Sebastião, em Brasília. A moto lá, tinha mais um pessoal comigo da segurança, parei numa esquina, tirei o capacete. Daí eu olhei pra trás, tinha umas duas, três meninas bonitinhas de uns 14, 15 anos de idade. Me chamou atenção. Menina bonitinha sábado, né? E por que chamou atenção? Eram parecidas. Eu vi que apareceu mais uma mais outra. Eu desci da moto: ‘Posso entrar? Entre’. Tinha umas 15 meninas nessa faixa etária, 14, 15, 16 anos. Todas muito bem arrumadas, tinham tomado banho, estavam fazendo o cabelo, venezuelanas estavam se arrumando. Pra quê? Alguém tem ideia? Quer que eu fale? Vou falar. Não vou falar. Pra fazer programa. Pra fazer programa. Nossa. Cês acham que elas queriam fazer isso? Não. Qual era a fonte de sobrevivência delas? Essa fugiram do paraíso do petróleo que é a Venezuela. E eu fiz uma uma live ali, tá? No YouTube. Não falei nada explicitamente mas você vai entender rapidamente qual foi minha conversa com elas. Eu quero isso pra minha filha de 11 anos de idade? Ninguém quer.”

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