Não é verdade que o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) não usou cartões corporativos enquanto esteve no Planalto. Dados do Portal da Transparência mostram que, entre 2019 e 2022, os três cartões do Poder Executivo somaram despesas de R$ 1 bilhão — desses, R$ 43,5 milhões correspondiam a gastos diretos do então presidente.
As publicações com a afirmação enganosa acumulavam mais de 2.000 compartilhamentos no Threads e centenas de compartilhamentos no Facebook. A desinformação também foi enviada por leitores do Aos Fatos via WhatsApp.
Nunca foi utilizado o cartão corporativo pelo Presidente Bolsonaro em seu único mandato, enquanto isso o Lula esbanja.

São enganosas as publicações que afirmam que Bolsonaro nunca usou os cartões corporativos quando era presidente. A alegação é contestada por dados públicos, que evidenciam que o ex-mandatário usou o meio de pagamento para bancar inclusive despesas pessoais.
Conforme explicado por Aos Fatos em checagem anterior, o governo federal tem três modalidades de cartão corporativo:
- CPGF (Cartão de Pagamento do Governo Federal), usado para cobrir despesas de pequeno montante, gastos com viagens, serviços especiais e outras questões sigilosas;
- CPCC (Cartão de Pagamento de Compras Centralizadas), usado principalmente para a compra de passagens aéreas;
- E o CPDC (Cartão de Pagamento da Defesa Civil), usado para cobrir gastos com emergências públicas.
Segundo o Portal da Transparência, há despesas da Presidência da República em dois dos três cartões entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022: R$ 82,4 milhões no CPGF e R$ 1,7 milhão no CPCC.
Se levarmos em consideração apenas a Secretaria de Administração da Presidência da República, que engloba despesas relacionadas ao presidente, foram gastos, entre 2019 e 2022, R$ 42 milhões no CPGF e R$ 1,5 milhão no CPCC.
Por fim, considerando todas as despesas nos três cartões corporativos — incluindo, então, outros órgãos do Executivo —, o governo Bolsonaro gastou cerca de R$ 1 bilhão, de acordo com o Portal da Transparência.
Os dados também desmentem que Bolsonaro não usou os cartões para cobrir despesas pessoais: segundo levantamento da organização Fiquem Sabendo, as notas fiscais mostram gastos com hotéis de luxo, lojas de cosméticos e até sorveterias.
As publicações enganosas usam um vídeo do ex-assessor de Bolsonaro Fábio Wajngarten gravado em maio de 2023. Na ocasião, ele convocou uma entrevista com os advogados do ex-presidente para contestar uma apuração da PF que investigava saques e pagamentos com dinheiro vivo feitos por Mauro Cid, ex-ajudante de ordens do Planalto.
De acordo com o divulgado na época pela imprensa, Cid teria feito as movimentações financeiras a pedido da então primeira-dama, Michelle Bolsonaro, com a anuência de Jair Bolsonaro.
Na entrevista, Wajngarten negou que Bolsonaro tenha desviado dinheiro para Cid, alegando que não haveria registro de gastos da Presidência no cartão corporativo. Conforme mostrado acima, a afirmação é incorreta.
Em depoimento à PF em fevereiro de 2025, Cid confirmou que usou cartões corporativos da Presidência da República para pagamentos de despesas pessoais da família Bolsonaro.
Esta peça de desinformação também foi desmentida pelo Boatos.org.
O caminho da apuração
Aos Fatos consultou as despesas divulgadas pelo Portal da Transparência e os dados divulgados pela organização Fiquem Sabendo sobre as despesas do governo Bolsonaro com cartões corporativos.
Ao todo, fizemos três pesquisas: uma sobre o total dos gastos, outra sobre as despesas do órgão Presidência da República e a última sobre as despesas da Secretaria de Administração da Presidência da República.
A reportagem também fez uma busca pelo contexto do vídeo para entender qual o sentido da declaração de Wajngarten.





