Políticos, influenciadores e páginas bolsonaristas têm promovido uma ofensiva para desacreditar os índices econômicos oficiais após os números recentes trazerem boas notícias para o governo Lula – o desemprego é o menor da série histórica, a inflação está dentro da meta e a prévia do PIB (Produto Interno Bruto) indica que o Brasil continua crescendo.
A estratégia inclui distorções sobre a forma de cálculo dos índices, repetindo desinformações difundidas há anos pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), e também sobre a crise interna do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), onde servidores de carreira e o presidente Marcio Pochmann vivem em pé de guerra.
Uma das lideranças mais ativas na ofensiva é o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), apontado pelo pai como o seu herdeiro político e pré-candidato à Presidência. Ele tem compartilhado, por exemplo, publicações que questionam a validade dos dados do PIB, do emprego e da inflação.

Procurado para comentar a reportagem, o senador não respondeu até a publicação deste texto.
Desemprego e Bolsa Família
O principal argumento bolsonarista é baseado em uma mentira repetida ao menos 16 vezes por Jair Bolsonaro enquanto estava na Presidência: a de que o governo federal enganaria ao não contabilizar os beneficiários do Bolsa Família como desempregados.
A alegação não faz sentido, porque o critério para o recebimento do auxílio desde sua criação é a renda da família. Pelas regras atuais, têm direito ao benefício aqueles cuja renda mensal per capita (por pessoa) é menor do que R$ 218 – abaixo da linha da pobreza. Isso inclui famílias que possuem membros empregados.
Mesmo assim, a alegação virou uma peça-chave no discurso da oposição nas redes frente à baixa do desemprego registrada no governo Lula. Influenciadores e políticos bolsonaristas têm compartilhado ao menos desde o final de 2024 que o IBGE estaria maquiando os números do desemprego ao não contabilizar quem recebe o Bolsa Família.

Apesar de falsa, essa alegação se sedimentou no discurso bolsonarista. Hoje, publicações tomam a mentira como um fato e espalham, inclusive, novas desinformações a partir dela.
O post abaixo, que viralizou no X, no Facebook e no Instagram, é um exemplo: ele insinua que os índices do IBGE são manipulados e que os próprios servidores estariam chantageando o governo federal.

O que os índices mostram, no entanto, é que o desemprego, que vinha caindo desde o final da pandemia, continuou em queda após a volta do petista ao Palácio do Planalto, em 2023 (veja a série histórica abaixo).
Algumas publicações sugerem ainda uma relação causal entre um suposto aumento do desalento e dos beneficiários do Bolsa Família:
- Desalentado, para o IBGE, é quem está desempregado e não está procurando emprego;
- Já desempregado é quem não tem emprego e está em busca de trabalho.
Esse argumento não se sustenta porque, além da taxa de desalentados não ter aumentado nos últimos anos, essa comparação também ignora que, entre os beneficiários do Bolsa Família, estão crianças e adolescentes, que não integram a força de trabalho.
Experiências e índices próprios
A etapa seguinte da estratégia bolsonarista é apelar para “o que o povo está sentindo na pele”. Nesse cenário, experiências pessoais não comprovadas são consideradas indícios de crise econômica e prova da manipulação das estatísticas oficiais.
As publicações reclamam da inflação — que tem sido menor do que a registrada no governo Bolsonaro — e do alto número de falências de empresas — que, apesar de ter crescido em 2024, ainda é inferior à registrada nos governos de Michel Temer (MDB) e Dilma Rousseff (PT) e nos dois primeiros anos de Bolsonaro.

Alguns posts também inventam números fictícios para criticar o governo. Nas últimas semanas, tem viralizado no X um perfil chamado Minha Inflação, que alega que o IPCA “não reflete a realidade”. Para resolver o suposto impasse, a página calcula seu próprio índice por meio de preços em supermercados.
O perfil — que já foi republicado pelo deputado federal Gustavo Gayer (PL-GO) e pela página Médicos Pela Vida — pertence a um cirurgião dentista, que leva em consideração os preços nos mercados em que faz compras.
O método, sem embasamento científico, contrasta com o cálculo feito pelo IBGE. O índice oficial, calculado todos os meses pelo instituto, é estimado a partir de consultas de preços em estabelecimentos em todo o país e leva em consideração os mesmos itens desde 2020.
Contudo, é comum que as pessoas sintam no bolso um peso maior do que o apontado pelo índice geral da inflação. Isso ocorre porque o IPCA é estimado seguindo uma metodologia que dá pesos diferentes aos produtos de acordo com a participação deles no orçamento das famílias.
Um exemplo: o tomate pode até subir muito, mas não impacta tanto na inflação porque tem peso reduzido dentro do orçamento dos brasileiros (diferentemente da gasolina, que tem maior relevância).
A inflação noticiada por órgãos de imprensa e canais oficiais geralmente representa o índice geral em todo o país. O IBGE, no entanto, divulga a variação de cada um dos itens pesquisados e permite a busca das mudanças por estado.
Crise no IBGE
O cenário desinformativo é alimentado pela crise atual no IBGE. Desde 2024, técnicos do instituto têm criticado a gestão do presidente, Márcio Pochmann.
Em 2025, funcionários assinaram uma carta aberta acusando Pochmann de ser “autoritário, político e midiático”. A principal crítica era contra a criação da Fundação IBGE+ — proposta de entidade privada para captar recursos externos. Houve também reclamações sobre o fim do trabalho remoto e a transferência da sede do instituto, que fica no Rio de Janeiro.
Os servidores denunciaram ainda o uso político de uma publicação intitulada “Brasil em números 2024”. Segundo eles, o documento traria, em seu prefácio, um artigo da governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD), cujo tom político estaria “em desacordo com as boas práticas institucionais”.
O caso gerou represálias e alguns signatários acabaram perdendo seus cargos neste ano. Por solidariedade, outros funcionários pediram exoneração.
De forma a lançar dúvidas sobre os dados do instituto, bolsonaristas têm sugerido nas redes que Pochmann estaria obrigando os técnicos do IBGE a manipular os dados econômicos e demitindo os que se negavam a fazê-lo (veja abaixo), o que não é verdade.

Em nenhuma das cartas os funcionários acusam a gestão ou o governo federal de maquiar os números da economia.
“Nunca houve denúncia de interferência técnica na metodologia ou nos resultados das pesquisas. Não aceitaríamos qualquer maquiagem, represamento ou manipulação de indicadores para fins propagandísticos ou eleitorais. Portanto, ressaltamos: os dados produzidos pelo IBGE não perderam sua confiabilidade”, afirmou o Assibge-SN (Sindicato Nacional dos Trabalhadores do IBGE) ao Aos Fatos.
O sindicato reitera que a crise na atual gestão envolve divergências com Pochmann, “que vem conduzindo uma caça às bruxas contra servidores que se posicionam na defesa técnica, institucional e histórica do IBGE”.
O caminho da apuração
Com base no monitoramento diário de publicações desinformativas virais feito pelo Aos Fatos, reunimos os posts que envolviam tentativas de descredibilizar os dados econômicos. Fizemos, então, uma separação por tema e desmentimos as alegações com base em dados e metodologias públicas.
Também consultamos o contador de declarações do ex-presidente Jair Bolsonaro para relembrar as desinformações disseminadas por ele sobre o tema durante seu mandato. Complementamos a apuração com buscas por textos na imprensa que noticiavam os ataques feitos pelo ex-presidente ao IBGE.




