Bolsonaristas usam 'ameaça comunista' para minar isolamento social e atacar governadores

Por Bernardo Barbosa, Débora Ely e João Barbosa

15 de abril de 2021, 18h29

“Hoje você está tendo uma amostra do que é o comunismo e quem são os protótipos de ditadores, aqueles que decretam proibição de cultos, toque de recolher, expropriação de imóveis, restrições a deslocamentos, etc…”. Publicada pelo presidente Jair Bolsonaro nas redes sociais na segunda-feira (12), essa mensagem ilustra uma estratégia recorrente no último ano entre seus apoiadores para minar medidas de distanciamento social e atacar adversários políticos: associar as restrições a uma suposta "ameaça comunista" no Brasil.

Por meio de busca na ferramenta CrowdTangle, o Radar Aos Fatos analisou as 200 publicações com esse discurso que acumulavam mais interações (curtidas e compartilhamentos) desde abril de 2020. Impulsionadas pelo presidente e seus apoiadores, elas somavam mais de 763 mil interações na plataforma até terça-feira (13).

Na retórica contra lockdown, apoiadores do presidente ainda classificam como ditadores os governadores e prefeitos que adotaram protocolos sanitários no país. Também alegam que medidas recomendadas pela comunidade científica, como a restrição de circulação de pessoas, cerceiam liberdades individuais.

Como o Aos Fatos mostrou, esse discurso omite que as medidas criticadas por essas publicações estão previstas na lei nº 13.979/2020, sancionada pelo próprio governo federal. A norma determina ações de enfrentamento ao novo coronavírus que podem ser adotadas pelo Executivo — entre elas, o isolamento social e as quarentenas. Além disso, o STF (Supremo Tribunal Federal) também decidiu que estados e municípios têm poder para definir regras de isolamento. Por fim, procedimentos semelhantes a fim de diminuir a propagação da Covid-19 foram implementados em todo o mundo, incluindo vários países democráticos como os Estados Unidos, a França e o Reino Unido.

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DISPUTA COM GOVERNADORES

A publicação em que Bolsonaro relaciona medidas de contenção da Covid-19 com o comunismo recebeu, sozinha, quase 43% (327 mil) do total de interações dos posts em que associações semelhantes foram feitas. O conteúdo apareceu ainda em outros dez posts que, somados, tiveram 67 mil interações. Entre os que reproduziram a mensagem estão o senador Flávio Bolsonaro (Republicanos-RJ) e os deputados federais Carla Zambelli (PSL-SP) e Hélio Lopes (PSL-RJ).

Alegações do tipo, no entanto, já eram divulgadas bem antes do post de Bolsonaro. O levantamento do Radar Aos Fatos identificou que a maioria (115 de 200) das publicações analisadas foi compartilhada entre 13 de abril e 31 de julho do ano passado, no momento em que governadores e prefeitos impunham pela primeira vez restrições à circulação de pessoas e ao funcionamento de atividades econômicas para tentar conter o avanço da Covid-19.

Também foi em abril de 2020 que o STF determinou que estados e municípios têm autonomia para adotar medidas de isolamento social. Em diversas ocasiões, a decisão já foi alvo de desinformação por parte de Bolsonaro e aliados, que costumam alegar de forma errada que o Supremo “proibiu” o governo federal de tomar medidas contra a pandemia ― assunto checado mais de uma vez pelo Aos Fatos.

Após a decisão do STF, adversários políticos de Bolsonaro foram tachados de “comunistas” ao determinarem medidas de isolamento social.

“[João] Doria e Bruno Covas estão implantando o COMUNISMO a passos largos lacrando lojas, obrigando uso de máscaras com punição de multas, proibindo circulação de carros”, publicou a ativista conservadora Clau de Luca em 8 de maio de 2020, citando o governador paulista e o prefeito de São Paulo, ambos do PSDB. Naquele mesmo dia, os dois haviam prorrogado a quarentena no estado e na capital. O post da ativista, que disputou as eleições de 2018 e 2020, teve 16 mil interações.

No mesmo mês, a deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) falava em “COMUNISMO. COVIDNISMO.” Segundo a parlamentar, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), que havia decretado toque de recolher em pelo menos três cidades, “instaurou um regime policialesco” e transformou o estado em uma “nova Cuba”. A publicação de Bia Kicis teve 15 mil interações e citava Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, dois dias depois de a prefeitura da cidade ter imposto restrições de circulação para conter a Covid-19.

Este tipo de comparação voltou a ganhar força em março deste ano, em paralelo ao agravamento da pandemia no Brasil e, com ele, à nova adoção de restrições por governadores e prefeitos. Dentro da amostra analisada, a reportagem identificou 34 posts com este teor entre 1º de março e 12 de abril.

No último dia 3, o deputado estadual paulista Gil Diniz (PSL) publicou um post criticando uma gratificação criada pela prefeitura de Araraquara para incentivar a ação de fiscais do município no combate à Covid-19 e uma foto com a frase “Araraquara comunista” e a imagem do prefeito da cidade, Edinho Silva (PT).

“O povo de Araraquara sofre nas ‘garras’ de Edinho Silva e seu comunismo aplicado na prática”, escreveu Diniz na publicação, que teve quase 9.000 interações. A cidade teve queda no número de casos e mortes por Covid-19 após um lockdown imposto pela prefeitura em fevereiro.

OUTRAS REDES

O uso do termo “comunismo” para criticar medidas de combate à Covid-19 também tem sido feito por bolsonaristas em outras redes sociais. No Twitter, por exemplo, o presidente do PTB, Roberto Jefferson, escreveu na terça-feira (13) que, “pelo visto, estão gostando muito dessa amostra grátis de comunismo”. A mensagem era seguida de uma imagem de um supermercado proibindo a venda de itens não essenciais em Niterói (RJ).

Já no Instagram, há apoiadores do presidente compartilhando a frase “Não é pandemia, é comunismo”, como mostra a imagem abaixo – cartazes com o mesmo enunciado foram registrados em manifestações pró-governo no final de semana passado.

O conteúdo também circula em canais bolsonaristas no Telegram. Para seus mais de 40 mil seguidores, o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) enviou uma mensagem na qual diz que o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), “gerou desemprego e inflação com seus lockdowns”. “É o comunismo a todo o vapor”, completou.

OUTRO LADO

A reportagem entrou em contato com os políticos citados, mas não teve retorno até a publicação do texto.

Referências:

1. Aos Fatos (1, 2, 3)
2. Lei 13.979/2020
3. STF
4. UOL (1, 2)
5. TSE (1, 2)
6. G1 (1, 2)
7. Prefeitura de Lauro de Freitas
8. CNN Brasil

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