Bolsonaristas recorrem a teorias da conspiração nas redes para justificar saída de Moro

Por Luiz Fernando Menezes

28 de abril de 2020, 17h15


Desde que Sergio Moro pediu demissão do Ministério da Justiça, na última sexta-feira (24), perfis bolsonaristas nas redes sociais têm se empenhado na disseminação de teorias conspiratórias sobre as razões de sua saída do governo. As suposições vão desde um conluio do ex-ministro com opositores do presidente a acusações de que a PF (Polícia Federal) teria abafado a investigação do atentado a faca sofrido por Bolsonaro em 2018.

Aos Fatos analisou três das teorias da conspiração que mais têm circulado no Facebook desde o fim de semana e identificou estratégias de formulação semelhantes. Em comum, elas não só inventam informações como associam fatos reais noticiados pela imprensa a pontos do discurso do presidente no mesmo dia da demissão de Moro, quando ele se defendeu da acusação de interferência na PF e questionou a conduta do ex-ministro. Até a tarde desta terça-feira (28), posts com esse tipo de conteúdo reuniam ao menos 200 mil compartilhamentos no Facebook.

Confira, a seguir, o que analisamos.


1. ABIN descobriu conspiração de Valeixo e Moro

A alegação de que Sergio Moro saiu do governo Bolsonaro porque o Exército e a Abin (Agência Brasileira de Inteligência) teriam descoberto que o então diretor da PF (Polícia Federal), Maurício Valeixo, fazia parte de uma conspiração para tirar o presidente do poder já foi veiculada em posts que reuniam, até a publicação desta reportagem, 100 mil compartilhamentos no Facebook e mais de 1,2 milhão de visualizações no YouTube. Entre outros fatores, essa hipótese não se sustenta pelo fato de o Exército negar que interceptou conversas de Moro e Valeixo, o que nem mesmo seria permitido por lei.

Segundo a teoria difundida por bolsonaristas, Valeixo, aliado de Moro, teria escondido irregularidades do governo do Rio, comandado por Wilson Witzel (PSC), e repassado informações confidenciais da gestão Bolsonaro para João Doria (PSDB), que governa São Paulo. Os dois políticos são adversários do presidente. A traição, descoberta pela Abin, teria sido revelada a Moro por Bolsonaro em uma reunião às vésperas da saída do ministro. “Desde março que o Bolsonaro sabia da traição, mas esperou que Moro o informasse”, diz o texto das publicações, sem apresentar qualquer tipo de prova.

De fato, houve um encontro entre Moro e Bolsonaro na última quinta-feira (23) após o presidente sugerir a troca do diretor da PF. Porém, não há relatos de que tenha sido citada na reunião uma investigação da Abin sobre suposta conspiração contra o governo: enquanto Moro disse que o presidente teria insistido na substituição de Valeixo, Bolsonaro falou que queria trocar o delegado porque “ele está cansado, está fazendo como pode o seu trabalho”. A informação de que Bolsonaro teria colocado Moro contra a parede, portanto, não possui respaldo nas narrativas que os dois deram sobre o encontro.

Nas publicações analisadas, essa justificativa da saída do ministro também é acompanhada de um diálogo de Moro e Valeixo sobre o “conluio”. A conversa, sustentam as postagens, foi interceptada pela inteligência do Exército. A assessoria da força, porém, desmentiu essa informação ao Aos Fatos nesta segunda-feira (28), por telefone.

O Exército só poderia grampear um telefonema ou troca de mensagens entre Moro e Valeixo se houvesse autorização judicial, conforme consta na lei nº 9.296/1996. No caso de uma pessoa com foro privilegiado — como Moro, na época do suposto grampo —, a autorização precisa ser concedida pelo STF (Supremo Tribunal Federal). Não há qualquer indício de que isso tenha acontecido.

A narrativa é toda amarrada com personagens comuns ao discurso do presidente, com o objetivo de convencer o interlocutor que a saída de Moro do governo representou uma “traição” e se deu por motivos escusos. Em seu pronunciamento na última sexta-feira (24), por exemplo, Bolsonaro disse que gostaria que a PF fosse aberta à interação como a Abin. Desta forma, a agência foi usada nas peças de desinformação como alinhada ao presidente para se contrapor à PF comandada por um indicado do ex-juiz da Lava Jato. Procurada pelo Aos Fatos para comentar sobre essa narrativa, a agência não respondeu até a publicação desta reportagem.

Os inimigos do presidente sugeridos pela teoria da conspiração também se repetem: apesar de os governadores terem entrado em conflito com Bolsonaro desde antes da pandemia, o novo coronavírus fez com que, principalmente, Witzel e Doria fossem alvos de críticas de Bolsonaro. Segundo ele, os dois estariam extrapolando seus poderes ao “tomar medidas extremas” contra a Covid-19, como o isolamento social e o fechamento do comércio.

Além dos governadores, também são citados como parte da conspiração de Moro contra Bolsonaro o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia (DEM-RJ), do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-AP), e membros do STF (Supremo Tribunal Federal), como Dias Toffoli, atual presidente da corte.


2. Plano para esvaziar o governo

Declarações de políticos brasileiros em meio à crise que culminou na saída de Sergio Moro serviram de ingrediente para a teoria conspiratória disseminada entre bolsonaristas de que está em curso um cerco ao governo para tirar o presidente do cargo. No total, publicações que trazem essa narrativa já acumulam mais de 45 mil compartilhamentos no Facebook.

Um artigo do site Jornal da Cidade Online — que já usou de perfis falsos para atacar políticos e que compartilha sua estratégia de monetização com um site que exalta a ditadura — tomou, por exemplo, tweets da deputada estadual Janaína Paschoal (PSL-SP) como prova da existência de um plano orquestrado para “gerar o caos e esvaziar o governo, forçando o pedido de demissão” de Jair Bolsonaro .

Paschoal publicou no Twitter, no dia 25 de abril, que “se os Ministros Militares retirarem o apoio a Bolsonaro e Mourão garantir esses dois pilares [política econômica liberal e compromisso com a luta contra a corrupção], bem representados por Guedes e Moro, poderemos colocar o país no rumo rapidamente”. A opinião da deputada, porém, não se confirmou com o apoio demonstrado pelos militares no Palácio do Planalto ao presidente Bolsonaro.

Uma suposta proximidade entre Sergio Moro e Rodrigo Maia foi particularmente explorada dentro da narrativa enganosa do plano traçado pelo ex-ministro e por outros políticos que o bolsonarismo vê como adversários. Fotos de um encontro dos dois ocorrido em 2019, por exemplo, passaram a circular como se fossem de um evento recente. Também foi compartilhado um tweet falso no qual Moro elogiaria a “sapiência e prudência” do presidente da Câmara.

A alegação feita pelas publicações, no entanto, não leva em conta que Maia e Moro possuem um histórico de tensões. Em março de 2019, por exemplo, o então ministro da Justiça e Segurança Pública cobrou rapidez na votação de seu projeto e foi rebatido pelo deputado. Em outubro do mesmo ano, em entrevista ao UOL, Maia chamou Moro de “estrategista” que tenta acuar as instituições democráticas.

Uma notícia do Portal Terra também é apontada pelos perfis bolsonaristas como prova da proximidade entre Moro e o presidente da Câmara, ainda que ela não ateste isso. Por mais que o título da reportagem seja “Moro falou com Maia e ministros do STF antes de se demitir”, o texto informa que ele também conversou com diversas outras pessoas, incluindo membros do alto escalão do governo e a advogada da família Bolsonaro, Karina Kufa, para decidir sobre a demissão.

Segundo a ferramenta CrowdTangle, as dez publicações com o link da reportagem do Terra que têm mais interações (curtidas, comentários e compartilhamentos) no Facebook partiram de perfis e páginas bolsonaristas, como a Aliança pelo Brasil (24.160 interações), a Eduardo Bolsonaro [OFICIAL] (8.570) e a Trump 2020 - Bolsonaro 2022 (6.618). Em muitos casos, a reportagem é acompanhada de mensagens que acusam Moro de traição e afirmam que sua demissão estava sendo “tramada com antecedência junto com o BOTAFOGO, ALCOLUMBRE e STF”. Botafogo era como Rodrigo Maia era identificado na planilha de propinas da Odebrecht, segundo a força tarefa da Operação Lava Jato.


3. Moro interrompeu investigação sobre Adélio Bispo

“Tudo começou quando o presidente recebeu uma ligação de Alexandre Ramagem, o diretor da Abin, e ele disse o seguinte: ‘Presidente é o seguinte, ministro Moro, juntamente com Valeixo, o diretor da PF, tão escondendo informação do senhor do caso Adélio”, explica o youtuber Mauro Fagundes em vídeo que já tem ao menos 500 mil visualizações no YouTube e mais de 20 mil compartilhamentos no Facebook. A teoria ventilada por ele, e por outros bolsonaristas nas redes sociais, é a de que a polícia saberia mais informações sobre o atentado a faca sofrido por Bolsonaro em 2018, mas que Moro e Valeixo teriam escondido isso por motivos ainda não revelados.

A teoria ganhou corpo nesta segunda-feira (27) com uma publicação de Oswaldo Eustáquio, mesmo autor da peça de desinformação sobre contratos de publicidade feitos pelo ex-ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS). Intitulado “Em depoimento à PF, testemunha revela que Adélio Bispo esteve no gabinete Jean Wyllys", o texto acumula mais de 21 mil compartilhamentos no Facebook. Segundo ele, a “última testemunha viva que pode-se comprovar por meio de imagens que esteve com Adélio Bispo” teria relacionado o agressor com o ex-deputado federal do PSOL-RJ.

E continua: “A Polícia Federal já havia identificado que o homem que estava ao lado da foto de Adélio Bispo (...) era de uma pessoa identificada como Mergulhador, mas em um ano e quatro meses de Valeixo à frente da PF, a instituição não havia conseguido localizar a última testemunha viva do caso”.

Truncadas, as sentenças sonegam informações ao omitirem que o homem mencionado só apareceu ao lado de Bispo em uma manifestação em Florianópolis (SC) em 2017, e que ele não foi testemunha do atentado em Juiz de Fora (MG), como sugere o texto. Em um vídeo publicado em 2019 por Eustáquio, o próprio Luciano Carvalho de Sá, um ativista apelidado de “Mergulhador”, diz que que esteve com Adélio Bispo por pouco tempo: “coisa de segundos”.

Em publicação feita no Facebook no dia do atentado, o Mergulhador também explicou que estava sendo injustiçado por ter apenas “tirado uma foto ao lado de Adélio”.

O texto de Eustáquio sustenta que Mergulhador é o homem que aparece na foto que ilustra o seu texto, em frente à Superintendência Regional da PF em Santa Catarina, após ter prestado depoimento sobre o caso. Aos Fatos não conseguiu confirmar essa informação. Em nota, a Polícia Federal informou que não comenta investigações em andamento.

Nesta segunda-feira (27), a falar do nome de Jean Wyllys ao ser criticado por Adélio pelo cartaz "políticos inúteis" que portava.

Ao Aos Fatos, Oswaldo Eustáquio disse conhecer o Mergulhador desde 2016 e reforçou as acusações que fez em sua publicação. Para ele, Carvalho é uma testemunha do caso “que não foi encontrada pela PF, nem pela Globo, nem por Aos Fatos”.

A PF investiga o atentado desde setembro de 2018. O primeiro inquérito sobre o caso foi concluído no mesmo mês do ataque e atestou que o agressor teria agido sozinho. Hoje, há uma investigação em curso para tentar descobrir quem pagava pela defesa de Adélio. A PF chegou a cumprir mandados de busca e apreensão em dois imóveis relacionados ao advogado Zanone Manuel de Oliveira Júnior, que o defende. Vale dizer que a Justiça não autorizou a quebra de sigilo telefônico ou bancário dos advogados.

Esta teoria também desconsidera que Bolsonaro não apresentou nenhum recurso à decisão do juiz que considerou Adélio Bispo inimputável por ser portador de Transtorno Delirante Persistente.

A sugestão de que a PF na gestão de Moro não estaria se empenhando para descobrir um mandante do atentado apareceu primeiro no pronunciamento de Bolsonaro na última sexta-feira (24): “Será que é interferir na Polícia Federal quase que exigir, implorar a Sergio Moro que apure quem mandou matar Jair Bolsonaro? A PF de Sergio Moro mais se preocupou com Marielle do que com seu chefe supremo. Cobrei muito dele isso daí, não interferi. Eu acho que todas as pessoas de bem no Brasil querem saber”.


Outro lado. Aos Fatos enviou mensagens para Mauro Fagundes e Luciano Carvalho de Sá para que pudessem comentar sobre suas citações durante a reportagem. Até a publicação deste texto, nenhum deles havia respondido.

Aos Fatos também procurou a Abin na manhã da última segunda-feira (27) para que a agência pudesse explicar se houve ou não a investigação citada nas publicações. Mas não recebeu nenhum retorno.

Por fim, a redação entrou em contato com o ex-ministro Sergio Moro para abrir espaço para que ele pudesse fazer comentários sobre as narrativas apresentadas. Sua assessoria respondeu que “as teorias são absurdas” e que não passam de “fake news”.

Referências:

1. Folha de S.Paulo
2. Planalto (Fontes 1 e 2)
3. EBC (Fontes 1 e 2)
4. Aos Fatos (Fontes 1, 2, 3, 4, 5, 6 e 7)
5. Nexo
6. R7
7. UOL
8. Correio Braziliense
9. G1 (Fontes 1, 2 e 3)
10. Conjur
11. Terra