Nas redes, bolsonaristas distorcem fatos para justificar elogio de Trump a Lula

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Após meses de sanções e ameaças às autoridades brasileiras, o presidente americano Donald Trump dedicou uma parte de seu discurso na Assembleia Geral da ONU (Organização das Nações Unidas) para elogiar Lula (PT).

“Eu estava entrando e o líder do Brasil estava saindo. Eu o vi, ele me viu e nos abraçamos. E então eu digo: você acredita que vou dizer isso em apenas dois minutos? Mas combinamos que nos encontraríamos na semana que vem. (...) Tivemos uma boa conversa e combinamos de nos encontrar na semana que vem, se for do seu interesse. Mas ele parecia um homem muito legal. Na verdade, ele gostou de mim e eu gostei dele. (...) Tivemos uma química excelente. É um bom sinal” — Donald Trump, em discurso na ONU nesta terça-feira (23).

Se, antes do discurso, os bolsonaristas previam que Trump iria atacar Lula ou até citar o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), após a fala do americano eles correram para interpretar e tentar justificar os elogios destinados ao petista, nos seus próprios termos.

Para o deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o comentarista Paulo Figueiredo, vistos como articuladores das sanções americanas contra o Brasil, o discurso não surpreendeu. Segundo os dois, Trump mostrou-se aberto a dialogar depois de “elevar a pressão”.

Print de nota publicada no X pelo deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP). Parte da nota diz que Donald Trump usou ‘uma estratégia de negociação’ ao elogiar Lula (PT) na ONU, que seria elevar tensões, impor pressão e retomar o diálogo em posição mais favorável. O deputado também mencionou a recente sanção aplicada pelos EUA contra a esposa do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes, com a imposição da Lei Magnitsky.
Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que mora nos EUA, publicou nota afirmando que discurso de Trump e elogio a Lula não foram ‘surpresa’ e fazem parte de ‘estratégia’ (Reprodução/X)
Print de nota publicada no X pelo comentarista Paulo Figueiredo que diz: ‘ Trump é realmente um gênio. Ele denuncia a ditadura brasileira e a invasão da jurisdição americana bem na ONU. Em seguida, diz que gosta do Lula, que o chamou para conversar e complementa dizendo que o Brasil vai continuar indo mal exceto se estiver ao lado dos EUA. Deixou o presidente brasileiro numa situação impossível: ter que ir para a mesa de negociação ouvir verdades e negociar algo que não tem como cumprir. Entenderam que a anistia será ampla, geral e irrestrita?’.
O comentarista Paulo Figueiredo publicou nota em que classifica Trump como ‘gênio’ e alega que o americano, ao elogiar Lula na ONU, deixou o petista em situação delicada (Reprodução/X)

Porém, o elogio de Trump vai na contramão da campanha realizada pelos dois nos EUA e que resultou em uma denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) por coação. O processo de cassação de Eduardo está, inclusive, previsto para ocorrer nesta semana no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados.

Outros parlamentares e influenciadores bolsonaristas manifestaram a mesma interpretação de que a fala de Trump seria um chamado a Lula para mesa de negociação ou que teria “derrubado a narrativa” de que os americanos não queriam conversa com o Brasil.

Print de publicação no Instagram feita pelo senador Marcos Rogério (PL-RO) com destaque para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — homem branco de cabelos loiros, usando um terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. A imagem leva a frase: ‘Jogada de mestre. Trump desmonta narrativa de Lula’. A legenda do post diz: ‘Lula tentou vender ao mundo a ideia de que os EUA não querem diálogo. Mas a fala do presidente Trump jogou por terra essa narrativa. Foi ele, diante de todos, quem intimou Lula a negociar. Ou seja, enquanto Lula usa o palco internacional para bancar a vítima e atacar os EUA, Trump deixou claro que a porta do diálogo está aberta, basta Lula abandonar o discurso ideológico e pensar no Brasil’.
Senador Marcos Rogério (PL-RO) publicou nas redes que Trump teria desmontado narrativa de Lula sobre falta de diálogo com o governo brasileiro (Reprodução/Instagram)

Essa argumentação, no entanto, distorce e omite fatos que comprovam que o governo brasileiro tentou, diversas vezes, negociar com os americanos:

  • Depois da primeira rodada de tarifas, em maio, o governo brasileiro enviou uma carta ao governo americano para tentar negociar com Trump, mas nunca recebeu resposta;
  • Trump enviou a carta a Lula com ameças do tarifaço no dia 9 de julho;
  • Um dia depois, em entrevista ao Jornal Nacional, o petista afirmou que estava aberto a negociações. Trump, por outro lado, disse que não iria falar com Lula, pelo menos “não agora”;
  • No dia 25 de julho, Lula voltou a dizer que estava aberto ao diálogo e disse que Trump deveria ligar para ele. O petista também reclamou que a Casa Branca “não queria conversar”;
  • Três dias depois, Lula disse que estava disposto a ligar para Trump, mas que as fontes do governo disseram que os canais estavam fechados;
  • No final de julho, senadores brasileiros foram aos EUA para conversar com empresários e congressistas americanos a fim de facilitar uma negociação entre os dois governos. O próprio Eduardo Bolsonaro disse, em entrevista, que estava atuando para boicotar essa missão;
  • No dia 30 de julho, o chanceler Mauro Vieira se reuniu com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, para dizer que era favorável a uma negociação;
  • Relatos divulgados pela imprensa também mostram que o governo brasileiro, sob liderança do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), reuniu-se com agências e empresas americanas ainda em julho para tentar amenizar as tarifas;
  • No dia 1º de agosto, Trump disse, em entrevista, que Lula poderia ligar para ele “a qualquer momento”.
  • Perguntado sobre o assunto, Lula disse à BBC Brasil que não ligou para Trump porque os americanos não querem conversar pois, mesmo depois de dizer que atenderiam uma ligação brasileira, os negociadores americanos não receberam Alckmin e Vieira;
  • No início de setembro, empresários brasileiros voltaram aos EUA para tentar reverter as tarifas, mas a diplomacia do governo americano disse que apenas o Departamento de Estado poderia negociar e que o fato atravessava “questões políticas”;
  • Na mesma época, Lula disse, em entrevista, que esperava que Trump iria reconhecer a necessidade de negociar as tarifas aplicadas no Brasil e em outros países, como China e Índia;
  • No dia 15 de setembro, Lula publicou um artigo no New York Times dizendo, mais uma vez, que estava disposto a negociar, mas que a “democracia e soberania brasileiras” não estavam na mesa de negociação. No mesmo dia, o governo americano anunciou que poderia adotar mais sanções contra o Brasil.

Outros parlamentares, como os deputados federais Gustavo Gayer (PL-GO) e Nikolas Ferreira (PL-MG), também repercutiram nas redes o encontro de Trump com Lula, mas criaram suposições sobre como o contato teria acontecido. Gayer, por exemplo, disse que o petista teria “corrido para abraçar Trump” — mesmo sem registros da suposta cena.

Já Ferreira comentou que Lula teria inventado uma desculpa para não se encontrar com o americano. O chanceler brasileiro afirmou, logo após a fala de Trump, que o petista está com a agenda cheia e que, por isso, o encontro deverá ser feito por videoconferência ou ligação telefônica na semana que vem.

Print de publicações no X e no Instagram, respectivamente dos parlamentares Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO). Na primeira imagem, Ferreira compartilha uma mensagem que diz: ‘Em entrevista à CNN aqui dos EUA, Mauro Vieira diz que agenda de Lula impede encontro na semana que vem entre o presidente brasileiro e Trump, mas que deve acontecer um telefonema’ seguida da legenda: ‘a arregada mais rápida da história’. A imagem seguinte mostra Gayer — um homem autodeclarado branco, usando um terno escuro, camisa branca e uma gravata vinho. O vídeo segue com a seguinte legenda: ‘LULA bate no Trump em público, mas o abraça nos bastidores. HAHAHA’.
Nikolas Ferreira (PL-MG) e Gustavo Gayer (PL-GO) publicaram opiniões sobre o encontro entre Lula e Trump na ONU (Reprodução)

Lula já havia dito, em entrevista, que iria cumprimentar Trump caso o encontrasse na ONU. “Não tenho problema pessoal com o presidente Donald Trump. Eu sou um cidadão civilizado. Eu converso com todo mundo, eu estendo a mão para todo mundo”, disse à BBC Brasil.

Trump petista

Do outro lado, parlamentares governistas e influenciadores de esquerda editaram trechos da fala de Donald Trump para compartilhar apenas o momento em que o americano elogiou o presidente brasileiro.

Desse modo, as publicações ignoraram as críticas do republicano, que mencionou uma suposta interferência por parte do Brasil “nos direitos e liberdades” dos cidadãos americanos, em referência às ações contra plataformas e usuários a pedido da Justiça brasileira.

“Também estamos usando tarifas para defender nossa soberania e segurança em todo o mundo, inclusive contra nações que se aproveitaram de antigas administrações dos EUA por décadas, incluindo a administração mais corrupta e incompetente da história, a sonolenta administração de Joe Biden. O Brasil agora enfrenta grandes tarifas em resposta aos seus esforços sem precedentes para interferir nos direitos e liberdades de nossos cidadãos americanos e de outros, com censura, repressão, armamento, corrupção judicial e perseguição de críticos políticos nos Estados Unidos” — Donald Trump.

O influenciador Thiago dos Reis, por exemplo, publicou apenas o trecho em que Trump afirma ter se encontrado com Lula e a possível conversa futura entre eles, excluindo do corte as frases que antecediam o argumento crítico do americano. O mesmo foi feito por outros perfis de esquerda nas redes, que mencionaram ainda que o bolsonarismo foi “traído” por Trump.

Print de um post no Instagram feito pelo influenciador Thiago dos Reis que mostra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — homem branco de cabelos loiros, usando um terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. Sobre um fundo verde está a frase ‘Trump elogia Lula na ONU’ e a legenda ‘DEU RUIM PRO BOLSONARO!!!’.
Influenciador Thiago dos Reis publicou apenas o trecho em que Donald Trump elogia Lula (PT), omitindo críticas do americano ao petista.

A deputada federal Maria Arraes (Solidariedade-PE), por exemplo, destacou apenas uma suposta capacidade de Lula fazer Trump simpatizar com ele em “apenas 39 segundos”, omitindo as acusações feitas pelo americano contra o governo brasileiro.

Publicação feita no Instagram pela deputada federal Maria Arraes que destaca o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump — homem branco de cabelos loiros, usando um terno escuro, camisa branca e gravata vermelha. O post leva a frase: ‘Péssimo dia para os vira-latas que viviam batendo continência pra bandeira dos Estados Unidos. Se com 39 segundos e um abraço o Trump já saiu elogiando o Lula na ONU, imagina depois de 30 segundos de conversa?’.
Deputada Maria Arraes destaca encontro de Lula (PT) com Trump, mas omite críticas do americano ao petista (Reprodução/X)
O caminho da apuração

Fizemos uma análise das publicações de perfis brasileiros de direita e de esquerda, entre políticos e influenciadores, que repercutiram o discurso do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, para observar as reações à menção feita pelo americano ao presidente Lula (PT) e ao Brasil. Identificamos que ambos os grupos criaram novas narrativas sobre o discurso do republicano.

Referências

  1. EBC (1, 2, 3 e 4)
  2. Estadão (1 e 2)
  3. CNN Brasil (1, 2 e 3)
  4. g1 (1, 2, 3, 4, 5 e 6)
  5. Veja
  6. Planalto
  7. BBC Brasil (1 e 2)
  8. O Globo
  9. Aos Fatos

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