Apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) têm disseminado mentiras sobre o 8 de Janeiro, as eleições de 2022 e a ditadura militar em meio às convocações para a manifestação marcada para o próximo domingo (16) no Rio de Janeiro.
O ato, que tem como bandeiras a anistia aos condenados pela invasão aos Três Poderes em 2023 e o impeachment de Lula, tem sido organizado desde fevereiro. O evento contará com a participação do próprio Bolsonaro (PL), do pastor Silas Malafaia e de outros políticos de oposição.
Além de fazerem comparações enganosas entre o pedido de anistia aos golpistas e o perdão concedido aos perseguidos pela ditadura militar, as peças reciclam uma série de desinformações já desmentidas nos últimos anos. Juntos, os conteúdos somam ao menos 215 mil visualizações em redes como Facebook, Instagram e X.
A seguir, Aos Fatos desmente os principais argumentos enganosos que têm circulado:
- Fraude eleitoral;
- Não houve tentativa de golpe;
- Crimes cometidos por Dilma e Miriam Leitão;
- Questionamento sobre delação de Mauro Cid.
1. Fraude eleitoral

Para embasar o pedido de “Fora Lula”, publicações voltaram a afirmar que houve fraude eleitoral nas eleições de 2022. Não há, no entanto, nenhum indício de qualquer tipo de irregularidade no pleito presidencial passado.
A falta de evidências para alegar a existência de fraude foi, inclusive, assinalada pelo ex-ajudante de ordens de Bolsonaro, Mauro Cid, em seu depoimento à Polícia Federal. Segundo o militar, o próprio núcleo presidencial da época falhou ao tentar encontrar provas de que a eleição teria sido roubada por Lula (PT).
Vale ressaltar que, durante o governo Bolsonaro, o Ministério da Defesa analisou o sistema eletrônico de votação e concluiu que não havia indícios de fraude.
Uma série de outras organizações, como o Ministério Público e a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), além de pesquisadores independentes, também atuaram como observadores das eleições ou participaram dos testes que asseguraram a segurança das urnas.
Algumas peças de desinformação alegam ainda que a agência de ajuda humanitária americana Usaid — que, como Aos Fatos mostrou, tem sido alvo de uma série de peças de desinformação no último mês (veja aqui, aqui e aqui) — teria “interferido” nas eleições brasileiras em 2022. Isso, no entanto, também carece de evidências, conforme explicado pela reportagem.
2. Não houve tentativa de golpe

Um dos principais argumentos dos bolsonaristas é que não houve tentativa de golpe de Estado e que, por isso, os condenados pelo 8 de Janeiro devem ser soltos. Para defender esse posicionamento, eles alegam que não houve violência durante a invasão e nem a participação de militares ou grupos armados.
Tudo isso é mentira: a Polícia Militar do Distrito Federal afirmou que manifestantes portavam granadas e coquetéis molotov, milhões de reais de patrimônio público foram depredados e celulares apreendidos mostram que os invasores pediam por intervenção militar.
O Golpeflix, catálogo digital do 8 de Janeiro, também mostra que manifestações de caráter golpista motivaram a convocação para os atos e insuflaram bolsonaristas ao longo de toda a invasão.
O relatório da PF em meio à investigação sobre o suposto plano golpista de integrantes do governo Bolsonaro também traz indícios de que o ex-presidente e membros da alta cúpula tentaram, sim, tomar o poder:
- Mais de um depoimento fez referência à apresentação de uma minuta golpista que previa a prisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes e a convocação de novas eleições;
- Documento encontrado no escritório do assessor do ex-ministro da Defesa general Braga Netto mostra um esboço da chamada “Operação 142”, que envolvia a ideia — falsa — de que a Constituição previa uma possibilidade de intervenção militar;
- Há indícios de que membros do governo Bolsonaro estimularam acampamentos nas portas dos quartéis do Exército para forjar um “pano de fundo” para a intervenção;
- A PF apontou, ainda, a existência de um plano para assassinar o presidente Lula (PT) e o ministro Alexandre de Moraes.
3. Crimes cometidos por Dilma Rousseff e Miriam Leitão

Duas desinformações desmentidas por diversos veículos de imprensa há anos também voltaram a circular nas redes em meio às convocações. Segundo as publicações, a ex-presidente Dilma Rousseff (PT) e a jornalista Miriam Leitão deveriam apoiar o perdão aos golpistas, já que teriam se beneficiado da Lei da Anistia, que teria perdoado os crimes que cometeram durante a ditadura militar.
Dilma e Leitão, no entanto, não foram condenadas pelos delitos mencionados pelas peças de desinformação.
Apesar de ter integrado organizações clandestinas que faziam oposição ao regime militar, a ex-presidente não foi condenada pelo assalto ao banco Banespa. A foto usada por posts nas redes, que mostra a petista no Tribunal Militar da Ilha das Flores, mostra o julgamento que a condenou por “subversão” em 1970.

Dilma só foi reconhecida como anistiada política em 2023. Seu pedido de indenização por ter sido vítima de torturas e outras violações por parte dos militares foi, inicialmente, negado pela Comissão de Anistia durante o governo Bolsonaro. A decisão foi posteriormente revertida pelo TRF-1 (Tribunal Regional Federal da Primeira Região).
Leitão tampouco foi acusada de assaltar instituições financeiras. A jornalista foi presa, em 1972, por integrar o PCdoB (Partido Comunista do Brasil). Após julgamento em 1974, no entanto, ela foi absolvida. Diferentemente de Dilma, Leitão nunca foi anistiada.

Lula. Algumas publicações alegam ainda que o presidente Lula cairia em contradição ao se mostrar contrário à anistia aos condenados pelo 8 de Janeiro, já que ele mesmo seria um anistiado político. A comparação não faz sentido porque:
- A anistia defendida pelo presidente na década de 1970 previa o perdão aos perseguidos políticos durante a ditadura militar, não só aos que foram condenados por algum crime;
- A anistia ao petista foi concedida porque, durante o regime, ele teve seus direitos sindicais cassados e foi destituído da presidência do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo (SP) por um ato de exceção.
4. Questionamento sobre delação de Mauro Cid

Outra estratégia que tem sido usada — inclusive pelo ex-presidente Jair Bolsonaro — é a de questionar a credibilidade da delação de Mauro Cid à PF. As publicações alegam, por exemplo, que as declarações não teriam valor jurídico, porque o ex-ajudante de ordens teria sido forçado a mentir pelo ministro Alexandre de Moraes.
Para embasar essas alegações, passou a ser compartilhado um áudio em que Cid diz ter sido pressionado a relatar fatos que não aconteceram ou a dar detalhes sobre questões de que não tinha conhecimento. O que os posts omitem, no entanto, é que o ex-ajudante de ordem voltou atrás.
“Foi um desabafo. Eu não tinha a ideia de atacar ninguém, ou criticar ninguém, até porque a Polícia Federal sempre me tratou com muito respeito ali, por mais que eles tenham a tese investigatória deles, eu tenho a minha versão, mas nunca houve uma pressão”, afirmou ele posteriormente.
Publicada pelo próprio Bolsonaro, outra peça de desinformação sobre a delação traz um áudio no qual Cid diz que nunca usou o termo “golpe” em seu depoimento, e que a PF estaria inventando uma narrativa.
Mais uma vez, trata-se de um conteúdo descontextualizado: as peças enganosas reproduzem um áudio revelado pela Veja no fim de janeiro — antes, portanto, da derrubada do sigilo da delação — e omitem que o militar mencionou a palavra “golpe” diversas vezes em seu testemunho, ocorrido em 2023.
O caminho da apuração
Aos Fatos realizou buscas por “16 de março” e “anistia” no Facebook, no Instagram e no X e reuniu as publicações que, além de convocarem para o ato, continham alguma desinformação. Selecionamos as quatro principais temáticas e, como elas já haviam sido desmentidas anteriormente, retomamos a apuração de cada uma delas.




