Bolsonaristas se mobilizam para viralizar cortes de Fux e desinformam sobre anulação de processo

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Políticos bolsonaristas agiram em conjunto na manhã desta quarta-feira (10) para impulsionar vídeos do voto do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Luiz Fux no julgamento do ex-presidente Bolsonaro. Às 12h50, pouco antes do magistrado completar quatro horas de exposição, recortes de trechos que confrontavam o voto do relator da ação, ministro Alexandre de Moraes, já acumulavam mais de 1,2 milhão de interações no X, no Facebook e no Instagram.

Em meio à ação coordenada para tornar virais os cortes do juiz, Aos Fatos detectou o surgimento da desinformação de que Fux anulou todo o processo da tentativa de golpe. Na realidade, o ministro defendeu em seu voto que a ação deveria ser anulada ou, pelo menos, votada pelo plenário da Corte, mas não tem poder para decidir isso sozinho. Até o momento, a Primeira Turma do STF tem dois de cinco votos possíveis pela condenação de Bolsonaro e outros sete réus.

As primeiras postagens com os cortes foram publicadas nas redes quase simultaneamente ao início do voto de Fux. Ao todo, Aos Fatos identificou 50 publicações feitas pelos filhos do ex-presidente e por políticos aliados, como o senador Magno Malta (PL-ES) e o deputado Zucco (PL-RS), com trechos de falas do magistrado, veiculadas entre as 9h20 e 12h50 em Facebook, Instagram e X (ex-Twitter).

A imagem mostra o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, vestido com toga preta sobre terno escuro, camisa branca e gravata. Ele aparece em duas posições: na parte superior, sentado em uma cadeira de encosto vermelho, olhando para frente; e na parte inferior, inclinado para frente e lendo documentos. Ao lado, há um texto em letras maiúsculas que diz: 'Fux pede anulação e diz que STF tem incompetência absoluta em julgamento'.
Exemplo de publicação viral que passou a ser compartilhada nas redes por bolsonaristas (Reprodução)

O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) compartilhou um corte feito — e assinado — pelo perfil Space Liberdade no X cinco minutos após a fala do ministro no tribunal.

Já um vídeo compartilhado pelo deputado estadual Gil Diniz (PL-SP), por exemplo, com inserção de texto e marca d’água, foi veiculado em suas redes cerca de 10 minutos após o início da fala do ministro.

O deputado federal Carlos Jordy (PL-RJ) também publicou um trecho do ministro cerca de 20 minutos após Fux iniciar seu voto.

Além da rapidez nos cortes, a viralização do conteúdo também foi impulsionada pela republicação entre os bolsonaristas. Perfis fizeram colaborações em posts no Instagram – na prática, é como se todos os perfis publicassem o vídeo ao mesmo tempo, ampliando o alcance.

A imagem mostra o ministro do Supremo Tribunal Federal Luiz Fux, um homem de pele clara e cabelos grisalhos, usando toga preta sobre terno escuro, camisa branca e gravata. Ele está sentado em uma cadeira de encosto vermelho e aparece gesticulando com a mão esquerda. Na parte inferior da imagem, há um texto em letras maiúsculas na cor amarela e branca que diz: 'URGENTE! Fux fala que processo deveria ser anulado por incompetência absoluta'.
Vídeo viral do deputado Zucco foi publicado no Instagram em parceria com páginas e outros bolsonaristas, como o deputado Maurício Marcon (Reprodução)

“Anulou a porra toda”

Além de comemorar, alguns bolsonaristas também distorceram as consequências do voto de Fux. O ex-deputado Deltan Dallagnol, por exemplo, publicou um vídeo intitulado “Fux anula julgamento de Bolsonaro”. Até às 12h50 desta quarta, a gravação já reunia mais de 170 mil interações.

A imagem mostra Deltan Dallagnol, homem de pele clara e cabelos curtos escuros, usando óculos de armação fina e jaqueta preta. Ele aparece em ambiente interno, em frente a uma estante com livros e objetos decorativos ao fundo. Na parte inferior da imagem, há um texto em letras maiúsculas que diz: 'URGENTE: Fux anula julgamento de Bolsonaro'.
Legenda de vídeo divulgado por Dallagnol em suas redes é desmentida por ele mesmo durante a gravação (Reprodução)

Apesar do título enganoso, no meio do vídeo Dallagnol diz que “tudo indica que ele [Fux] será voto vencido”. A confusão entre título e conteúdo fica explícita nos comentários da publicação: há diversas pessoas que comemoram o fato e outras que perguntam ao autor “o que vai acontecer agora”.

Distorções também têm sido compartilhadas no X, onde o assunto “Anulou tudo” acumula mais de 50 mil publicações até às 13h desta quarta-feira (10). Um exemplo é o advogado de Filipe Martins, Jeffrey Chiquini (veja abaixo):

A imagem mostra uma publicação no X (antigo Twitter) do perfil identificado como Jeffrey Chiquini. O texto da postagem, em letras maiúsculas e com pontos de exclamação vermelhos, diz: 'FUX ANULOU TODO O PROCESSO TUDO '. Abaixo, aparecem os números de interações, incluindo cerca de 1 mil respostas, 2 mil compartilhamentos, 18 mil curtidas e 281 mil visualizações.
Fux, sozinho, não tem o poder de anular o processo, ao contrário do que sugere publicações (Reprodução)

Fux não anulou o processo. Ele defendeu a anulação, o que são coisas diferentes: em sua fala, o ministro argumentou que o Supremo não teria competência para julgar o caso.

Além dele, no entanto, há mais quatro ministros na Primeira Turma do STF. Bolsonaro só será absolvido caso três dos cinco ministros não concordem com o relator Alexandre de Moraes, que pediu a condenação de Bolsonaro e outros sete réus. Até o momento, o placar está 2 x 1.

Caso outro ministro — Cármen Lúcia ou Cristiano Zanin — acompanhe Fux, Bolsonaro pode entrar com recurso de embargos infringentes, uma espécie de novo julgamento, no próprio STF.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com a assessoria de Chiquini e do ministro Fux para que eles pudessem comentar a reportagem. Como a página de contato do site de Dallagnol não está disponível, procuramos o Novo Paraná. Nenhum deles respondeu até a publicação do texto.

Colaboraram Marco Faustino e Bianca Bortolon.

O caminho da apuração

Aos Fatos buscou publicações por meio de palavras-chave nas redes sociais e analisou perfis de políticos e influenciadores bolsonaristas que foram citados e compartilhados por outros. Analisamos também o voto do ministro Fux e apontamos contradições com bases em outras decisões do magistrado.

Por fim, Aos Fatos procurou a assessoria de imprensa dos citados para abrir espaço para que eles pudessem comentar a reportagem.

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