Edilson Rodrigues / Agência Senado

Bolsonaristas acumulam 1,2 milhão de interações no Facebook com desinformação sobre a CPI da Covid-19

Por Débora Ely e João Barbosa

22 de outubro de 2021, 14h06

Informações falsas e distorcidas contribuíram para ampliar o engajamento de usuários do Facebook com publicações associadas à CPI da Covid-19 de bolsonaristas desde que a comissão foi instalada no Senado, no fim de abril. Dos 200 posts mais populares que mencionam o colegiado, 16 contêm desinformação e foram veiculados pelo presidente Jair Bolsonaro e por seus apoiadores. Sozinha, essa parcela é responsável por 1,2 milhão (11%) das 11,3 milhões de interações contabilizadas na amostra total de postagens.

Para chegar a essa conclusão, o Radar Aos Fatos coletou por meio da API do CrowdTangle, ferramenta de monitoramento de redes sociais, os posts de páginas, perfis verificados e grupos no Facebook com mais interações (curtidas e compartilhamentos) e que citavam a CPI. A análise considerou o período entre 27 de abril, data de instalação da comissão, e a última quarta-feira (20), quando o relatório final foi apresentado ao colegiado.

Em comum, as publicações enganosas buscam defender o "tratamento precoce", conjunto de drogas que não se provaram eficazes contra a Covid-19, ou desacreditar membros da comissão que integram a oposição a Bolsonaro e depoentes que foram críticos ao governo. Dos 16 posts desinformativos, 13 foram publicados por políticos alinhados ao Planalto e três por sites bolsonaristas.

“TRATAMENTO PRECOCE”

A defesa de medicamentos sem eficácia comprovada para deter a doença, como a hidroxicloroquina e a ivermectina, aparece em 13 dos 16 posts enganosos, reunindo cerca de 993 mil interações dessa parcela (80%). A promoção do "tratamento precoce" foi uma das trincheiras de batalha do bolsonarismo na comissão, que reuniu maioria contra o uso dessas drogas para a Covid-19.

O post com maior engajamento sobre o tema (150,6 mil interações) foi publicado pela vereadora de Fortaleza (CE) Priscila Costa (PSC). Em resposta a uma fala do senador Humberto Costa (PT-CE) na CPI, ela alegou que estudos do microbiologista francês Didier Raoult comprovariam a eficácia de hidroxicloroquina e azitromicina contra a Covid-19.

O senador disse que Raoult havia admitido a ineficácia dos medicamentos no tratamento da doença e, na postagem, a vereadora afirmou que isso era “fake news”, pois o microbiologista voltou atrás e insistiu que haveria benefícios no uso das drogas.

Apesar de verdadeira, a reconsideração do francês não atesta que os remédios funcionam, como leva a crer o post da vereadora. Diversos estudos mais sólidos, incluindo análise da OMS (Organização Mundial da Saúde), já haviam demonstrado naquela época a inefetividade de hidroxicloroquina e azitromicina contra a Covid-19. Além disso, cientistas condenaram as pesquisas de Raoult por estarem em desacordo com protocolos científicos.

Também teve destaque na defesa do “tratamento precoce” uma postagem da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF), com 136,4 mil interações. Nela, a presidente da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) da Câmara endossava uma das falas do senador Luis Carlos Heinze (PP-RS) na CPI sobre supostos benefícios da cloroquina. Alguns dos argumentos do vídeo já foram checados como enganosos por Aos Fatos.

Um deles, por exemplo, dizia que altas dosagens do medicamento causaram a morte de pacientes em estudo conduzido em hospital de Manaus (AM), o que é falso. O Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa), instância máxima de avaliação ética em protocolos de pesquisa com humanos no Brasil, concluiu que não houve relação direta das dosagens da droga com os óbitos.

CRÍTICOS DO GOVERNO

Foram detectadas também três postagens que continham alegações enganosas sobre STF, governadores e cientistas. Esses conteúdos somaram 252 mil interações (20% da parcela de postagens desinformativas da amostra).

A principal delas (138 mil interações) foi uma live do presidente Jair Bolsonaro em que ele questionava quais fatos a comissão investigaria, já que a hidroxicloroquina era recomendada por governadores como Renan Filho (MDB), de Alagoas, e Helder Barbalho (MDB), do Pará, filhos de membros da CPI: os senadores Renan Calheiros (MDB-AL) e Jader Barbalho (MDB-PA), respectivamente.

Bolsonaro fazia referência a um vídeo mostrado pelo senador Marcos Rogério (DEM-RO) na comissão que reunia declarações favoráveis ao medicamento feitas por uma série de governadores. Apesar de serem reais, os registros foram gravados no início da pandemia, quando ainda não havia estudos conclusivos sobre a droga, o que torna a alegação do presidente distorcida.

Já um post da deputada federal Bia Kicis (PSL-DF) com um ataque à microbiologista Natália Pasternak reuniu 80,3 mil interações. Nele, a parlamentar alegou falsamente que a cientista havia se passado por médica ao depor na CPI. Na realidade, Pasternak foi erroneamente identificada como “médica e pesquisadora da USP (Universidade de São Paulo)” pela TV Senado, mas a falha foi corrigida e ela disse à comissão que não era médica.

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Também repercutiu um post da deputada federal Carla Zambelli (PSL-SP), com 33,5 mil interações, no qual o escritor Guilherme Fiuza repetia a informação falsa de que o STF (Supremo Tribunal Federal) afastou Bolsonaro de ações para o controle da pandemia e atribuiu essa responsabilidade aos governadores e prefeitos. Segundo ele diz na gravação, “a CPI nasceu para fazer política, porque os executores das medidas de segurança sanitária são estados e municípios, conforme decisão do Supremo”.

Na verdade, a corte entendeu que governadores e prefeitos têm legitimidade para decretar medidas de isolamento social e que o governo federal não pode agir para revertê-las. O tribunal, porém, não desobrigou a União de tomar ações para conter a doença.

Reportagens anteriores do Radar também já haviam mapeado o alcance da desinformação em torno da CPI. Um levantamento de julho mostrou que conteúdos enganosos sobre senadores que se declaram independentes ou oposicionistas buscavam associá-los à corrupção. Outra análise, de maio, apontou que argumentos falsos repetidos por governistas alimentavam a defesa de drogas sem eficácia comprovada.

OUTRO LADO

O Radar enviou e-mails aos políticos e veículos que disseminaram os conteúdos desinformativos mencionados na reportagem.

A vereadora de Fortaleza (CE) Priscila Costa (PSC) afirmou que seu “post tem como objetivo rechaçar a informação equivocada dada pelo senador Humberto Costa de que o próprio Didier Raoult voltou atrás em seus estudos” e que “portanto, não contém informação equivocada ou enganosa”. Ela também acrescentou que tomará providências em caso de “qualquer menção caluniosa ou difamatória” à sua imagem.

Já o Facebook informou que, desde o início da pandemia, “conecta mais de 2 bilhões de pessoas a informações oficiais de organizações de saúde através da Central de Informações sobre Covid-19”, que “adiciona rótulos a postagens sobre tratamentos sem comprovação científica e remove mais de 20 milhões de posts em todo o mundo com conteúdos falsos sobre Covid-19 e vacinas que poderiam causar danos às pessoas”. Aos Fatos integra desde 2018 o programa de verificação de fatos do Facebook.

METODOLOGIA

O Radar coletou, por meio da API do CrowdTangle, posts em páginas, grupos públicos e perfis verificados do Facebook que citavam termos relacionados à CPI entre o primeiro dia de trabalho da comissão (27 de abril) e o dia da leitura do relatório final (20 de outubro). Depois, analisou as 200 postagens sobre o tema que somavam mais interações e classificou quais delas continham desinformação.

Referências:

1. CrowdTangle
2. Aos Fatos (1, 2, 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 e 10)
3. UOL
4. OMS
5. O Globo
6. Estadão (1 e 2)

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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