Beber água e fazer gargarejos com sal ou vinagre não impedem infecção por coronavírus

Por Luiz Fernando Menezes

16 de março de 2020, 17h50


Não é verdade que o novo coronavírus pode ser eliminado do corpo por meio da ingestão de água e de gargarejos com água morna, soluções salinas ou ácidas, evitando, assim, a evolução da infecção (veja aqui). Segundo o Ministério da Saúde, a Opas (Organização Pan-Americana de Saúde) e especialistas consultados pelo Aos Fatos, essas informações são inverídicas e podem até piorar o quadro do paciente.

As publicações que circulam nas redes sociais com o conteúdo enganoso também omitem que ainda não há nenhum medicamento ou tratamento que cure a Covid-19, doença causada pelo novo vírus.

A mesma desinformação tem circulado em línguas estrangeiras em outros países. Em português, as postagens com as informações falsas acumulavam quase 70 mil compartilhamentos até a tarde desta segunda-feira (16). Todos elas foram marcadas com o selo FALSO na ferramenta de verificação do Facebook (saiba como funciona).


FALSO

O coronavírus antes de atingir os pulmões, permanece na garganta por quatro dias e, nesse período, a pessoa começa a tossir e sentir dores na garganta. Se essa pessoa beber muita água e faz gargarejo com água morna, sal ou vinagre, isso eliminará o vírus. Divulgue estas informações, pois você pode salvar alguém se essa pessoa souber disso.

Uma ilustração de um busto humano com símbolos que indicariam o coronavírus espalhado na altura do pescoço tem sido compartilhada nas redes por publicações que afirmam que o Sars-CoV-2 permanece na garganta por quatro dias antes de chegar aos pulmões. Por isso, diz a peça de desinformação, tomar água e fazer gargarejos com água morna, sal ou vinagre ajudariam a prevenir a evolução da infecção. Segundo informou o Ministério da Saúde ao Aos Fatos, no entanto, nada disso é verdade.

Por meio de nota, a pasta afirmou que a temperatura do corpo humano é de pelo menos 36°C. Assim, diz a pasta, a "água a uma temperatura de 26 a 27°C não traz benefício algum em relação à prevenção ou eliminação do coronavírus”. O ministério destacou, ainda, dados apresentados por artigo publicado na Annals of Internal Medicine que estimam que o período de incubação do novo coronavírus dura aproximadamente cinco dias e que os sintomas aparecem entre o oitavo e o décimo quinto dia de infecção.

A Opas também negou a veracidade das informações ao Aos Fatos e recomendou que a população adote apenas medidas cientificamente comprovadas para evitar a infecção, como higienização das mãos e distanciamento social.

Ao Aos Fatos, Leonardo Weissmann, consultor da SBI (Sociedade Brasileira de Infectologia), afirmou que, “embora a gente saiba que a tosse seca e a dor de garganta possam ser sintomas da infecção pelo novo coronavírus, a Covid-19, isso não significa que o vírus está na garganta por quatro dias, nada disso. O tempo que o vírus vai chegar no pulmão depende de pessoa para pessoa”.

Sobre a solução indicada para o gargarejo, Weissmann explica que não mata o vírus. “O gargarejo com sal pode aliviar a tosse, mas dizer que essa fórmula vai eliminar o vírus, isso é uma grande mentira. Nós não temos nenhum medicamento, nenhuma receita para eliminação do vírus.”

A diretora adjunta do Instituto de Microbiologia da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Luciana Costa, explica que o vírus que está na garganta fica dentro das células, por isso a solução de água morna, sal ou vinagre não o mataria. "Não adianta gargarejo, água quente, vinagre. Você pode até piorar um quadro, porque esse ácido, por exemplo, do vinagre, acaba irritando a mucosa”, explica.

Segundo o Ministério da Saúde, atualmente não existe tratamento para a infecção, apenas para seus sintomas. São indicados medicamentos antitérmicos e analgésicos para dor e febre e umidificadores e banhos quentes para o alívio da dor de garganta e da tosse.

Essa mesma peça de desinformação circulou também em língua inglesa e chinesa, tendo sido checada pelo Snopes e pela AFP no final da semana passada. Em algumas versões, as falsas dicas são, inclusive, atribuídas a instituições de saúde, hospitais e médicos.

Além dessa desinformação, Aos Fatos também checou peças que alegaram, por exemplo, que a vitamina C ajudaria a prevenir a infecção e que o vinagre seria mais eficaz do que o álcool em gel para desinfetar as mãos. Veja aqui a cobertura completa da redação sobre o novo coronavírus.

Referências:

1. Annals.org
2. Ministério da Saúde
3. Aos Fatos (Fontes 1, 2 e 3)


Esta checagem foi atualizada às 15h40 do dia 17 de março para acrescentar a nota enviada pela Opas.

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