Não é verdade que o ex-presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Luís Roberto Barroso e o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes tenham mandado fabricar chips em Taiwan para fraudar as urnas eletrônicas. Esses componentes são peças comuns de mercado e cumprem funções específicas, sem acesso aos dados de votação.
Postagens com o conteúdo enganoso reuniam 68 mil visualizações no TikTok até a tarde desta quarta-feira (5).
Barroso e Moraes mandaram fabricar mais de 250 MIL CHIPS EM TAIWAN para FRAUDAR AS ELEIÇÕES! 16 MILHÕES PARA DEPUTADOS!

Publicações nas redes sociais enganam ao afirmar que Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes encomendaram a fabricação de 250 mil chips em Taiwan para fraudar as eleições de 2026. As postagens alegam ainda que o processo teria envolvido o pagamento de R$ 16 milhões a deputados, o que não é verdade.
Os modelos de urnas 2020 e 2022 de fato utilizam semicondutores produzidos pelas empresas taiwanesas Realtek e Nuvoton, mas eles desempenham funções técnicas específicas que não envolvem o armazenamento de votos ou interferência na criptografia e na apuração do processo eleitoral.
Em nota, o TSE classificou a alegação como falsa e disse que os chips são empregados nas seguintes funções:
- Chip da Realtek: usado na urna, ele gera o áudio que sai da placa-mãe para o fone de ouvido, que é utilizado por pessoas com deficiência visual na hora da votação;
- Chips da Nuvoton: forneceu três chips que contribuem para o controle de partes da urna, como o terminal do mesário, a fonte de alimentação e o teclado do equipamento.
“O aparelho tem, em sua composição, componentes e semicondutores de mercado, que vêm ‘limpos’ de fábrica”, disse o tribunal. “As informações de criptografia e outros conteúdos residentes nos semicondutores são inseridos apenas no Brasil, com a presença de servidores do TSE, conforme definido em edital de contratação da empresa fabricante das urnas”, complementou.
Além disso, os chips e demais componentes eletrônicos passam por inspeções realizadas por especialistas independentes durante o TPS (Teste Público de Segurança), procedimento que verifica a integridade do sistema antes de cada eleição.
Como o TSE (veja aqui e aqui) e o Aos Fatos já explicaram, os testes de integridade das urnas eletrônicas são feitos de forma pública e com a presença de auditores externos. O processo permite analisar se houve votos inseridos nos equipamentos antes de iniciar a votação com a impressão da zerésima e do BU (boletim da urna). Os testes não indicaram nenhum tipo de fraude em 2022.
Toda a produção das urnas eletrônicas no Brasil é feita pela empresa Positivo Tecnologia, em Ilhéus (BA).
As peças também alegam, sem apresentar provas, que a compra dos chips taiwaneses teria envolvido o pagamento de R$ 16 milhões a deputados.
Aos Fatos não encontrou documentos oficiais, investigações ou reportagens confiáveis que sustentem a acusação. Em nota, o TSE afirmou que a informação é falsa.
Esta não é a primeira vez que publicações desinformativas atribuem ao ministro Barroso supostos pagamentos a deputados. Aos Fatos já desmentiu alegações de que o então presidente do TSE teria repassado até R$ 9 milhões a líderes e vice-líderes partidários para substituir parlamentares favoráveis ao voto impresso por deputados contrários à proposta durante a tramitação da PEC do voto impresso, em 2021.
Escassez mundial. As alegações falsas distorcem ainda o contexto de escassez mundial de semicondutores entre 2021 e 2022 devido à pandemia de covid-19. Para evitar que a produção das urnas eletrônicas fosse interrompida, a diplomacia brasileira agiu para importar peças de Taiwan e dos Estados Unidos. O então ministro Barroso agradeceu, na época, os diplomatas envolvidos na negociação.
A escolha pelo país asiático, diferente do que afirmam as peças falsas, se dá porque Taiwan é o maior fabricante mundial desse tipo de componente, abastecendo empresas de diversos segmentos da indústria eletrônica.
A mentira sobre os semicondutores teve origem na distorção de uma fala do ex-funcionário do Departamento de Estado dos EUA, Mike Benz, em audiência pública na Câmara em agosto de 2025. Na ocasião, Benz afirmou que semicondutores de Taiwan teriam sido inseridos nas urnas a pedido de Barroso.
Esta peça de desinformação também foi checada pela Reuters e pela Lupa.
O caminho da apuração
A reportagem consultou notas oficiais e materiais já publicados pelo TSE, além de reportagens anteriores produzidas por Aos Fatos, para checar informações sobre o funcionamento das urnas eletrônicas, o processo de descarte de equipamentos e as negociações para compra de semicondutores.





