Autor de bloqueio nas redes, Moraes é o ministro do STF mais atacado por bolsonaristas suspensos

Por Bruno Fávero, Marina Gama Cubas e João Barbosa

25 de julho de 2020, 00h16


Relator do inquérito que suspendeu perfis bolsonaristas por atacar o Supremo Tribunal Federal nas redes sociais, o ministro Alexandre de Moraes também é o alvo preferencial de tweets contra a corte. Levantamento do Radar Aos Fatos nas 16 contas bloqueadas nesta sexta-feira (24) mostra que 71% das mensagens negativas sobre o STF citavam o ministro.

Foram analisados 218 tweets de 13 dessas contas (três não eram públicas ou estavam vazias), que pertencem a nomes como os do ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ), de Luciano Hang, dono da rede de lojas Havan, do blogueiro Allan dos Santos, do site Terça Livre, e da militante bolsonarista Sara Winter. Para a seleção, foram considerados os 20 tweets mais populares de cada usuário com referências ao STF e que foram publicados entre 3 de maio e 24 de julho.

A análise mostra que a absoluta maioria das mensagens no período —186 ou 85% do total— foi crítica à corte e uma minoria — 32 ou 15% —, neutra. Não há no universo pesquisado uma única menção positiva ao STF ou a seus ministros.

O conteúdo analisado soma 3,3 milhões de interações (curtidas e retweets) das quais quase 3 milhões (90%) vêm dos tweets críticos ao Supremo. Moraes, que é citado em 86 mensagens, também aparece como o principal assunto nessa métrica e concentra 1,5 milhão das interações, 46% do total.

O ministro Dias Toffoli, com dez menções e quase 220 mil interações (6%), é o segundo mais citado pelo grupo. Ele é seguido por Gilmar Mendes, com oito menções e 202 mil interações (6%), Celso de Mello (sete mensagens e 171 mil interações), Luís Roberto Barroso (seis mensagens e 184 mil interações)/ O STF é citado sem referência a ministros em 127 mensagens com 1,5 milhão de interações.

Repercussão. No grupo investigado, quem alcançou um público mais amplo ao falar sobre o STF foi o blogueiro Allan dos Santos: os 20 tweets analisados (19 deles críticos) geraram 877 mil interações (834 mil ou 95% vindos das mensagens negativas).

O ex-deputado Roberto Jefferson aparece em segundo lugar, com 20 mensagens negativas que resultaram em 782 mil interações, seguido de Sara Winter, com 20 tweets (19 negativos) totalizando 578 mil interações.

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Histórico. O inquérito das “fake news” foi aberto em março de 2019 pelo presidente do STF, ministro Dias Toffoli, que nomeou Moraes como relator. O foco do processo é investigar a disseminação de notícias falsas e ameaças aos membros da corte e a seus familiares.

As primeiras operações públicas da Polícia Federal ocorreram mais de um ano depois do início das investigações. Em maio, agentes da PF fizeram buscas e apreensões em endereços do político Roberto Jefferson, do empresário Luciano Hang e de outras 15 pessoas citadas no inquérito. Todos são apoiadores do presidente Jair Bolsonaro.

À época, Moraes também determinou que oito deputados federais e estaduais aliados do presidente Bolsonaro fossem ouvidos.

O inquérito foi e ainda é questionado por alguns políticos e juristas. Entre os argumentos principais está o fato de os membros da corte serem, ao mesmo tempo, vítimas e julgadores na ação. Em junho, o plenário do STF decidiu pela constitucionalidade do inquérito por dez votos a um.

Moraes também conduz o inquérito que apura os atos antidemocráticos. A investigação foi aberta a pedido do procurador-geral da República, Augusto Aras, após protestos do dia 19 de abril pedirem o fechamento do Congresso, do STF e um novo AI-5. O objetivo é descobrir quem são os organizadores e financiadores dos atos. Alguns dos deputados que foram ouvidos em maio na ação das fake news são investigados nesse outro inquérito.

O blogueiro Allan dos Santos e o empresário Otávio Fakhoury, investidor conhecido no mercado financeiro, são citados em ambos os inquéritos.

Metodologia

O Radar Aos Fatos buscou, via API pública do Twitter, postagens referentes ao STF das 16 contas de Twitter que foram bloqueadas pela corte:

@allantercalivre, de Alan Lopes dos Santos
@bernardopkuster, de Bernardo Pires Kuster
@edgardcorona, de Edgard Gomes Corona
@edsonsalomaomc, de Edson Pires Salomão
@_brasileirinhos, de Eduardo Fabris Portella
@EnzuhOficial, de Enzo Leonardo Suzi Momenti
@luciano_hang, de Luciano Hang
@stachin_marcelo, de Marcelo Stachin
@bellizia70, de Marcos Dominguez Belliza
@oofaka, de Otavio Oscar Fakhoury
@roboconservador, de Rafael Moreno
@GTabacow, Reynaldo Bianchi Junior
@rodrgo_ribeiro, de Rodrigo Barbosa Ribeiro
@_SaraWinter, de Sara Fernanda Giromini
@cmtewinston, de Winston Rofrigues Lima
@blogdojefferson , de Roberto Jefferson Monteiro

Em três delas, porém, não foi possível capturar postagens: o perfil @edgardcorona não é público; a conta @_brasileirinhos não tinha mensagens com os termos buscados; e a @stachin_marcelo não continha nenhuma publicação.

Foram selecionadas, em seguida, apenas as postagens únicas — ou seja, não retweets, mas tweets dos próprios investigados— publicadas entre 3 de maio e 24 de junho, que continham termos relacionados ao STF (disponíveis aqui).

Para análise de conteúdo foram coletados os 20 tweets mais populares (curtidas + retweets) de cada perfil. Em casos de perfis que não alcançaram esse número mínimo, foram analisados todos os tweets capturados.

A categorização dos tweets, bem como a análise do conteúdo, foi feita manualmente pela equipe do Radar Aos Fatos. Os tweets mais populares de cada investigado foram categorizados de acordo com o alvo da postagem e, posteriormente, teve o conteúdo analisado nos seguintes critérios: positivo; negativo e neutro.

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