Áudio sobre proibição de ‘vocabulário evangélico’ não foi gravado por Moraes

Compartilhe

Não é verdade que o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Alexandre de Moraes disse em áudio que pretende acabar com o “vocabulário golpista dos evangélicos”. Além da corte ter negado que a voz seja do magistrado, Aos Fatos analisou o áudio e verificou que a voz não é de Moraes.

As peças enganosas somavam 290 mil visualizações no TikTok e centenas de compartilhamentos no Facebook até a tarde desta quinta-feira (11).

Temos que acabar com o vocabulário golpista dos evangélicos. Proibir falas do Senhor dos senhores, Senhor dos exércitos. Único Deus, único que é digno e outras tantas que ofenda essa corte suprema. Nós é que somos supremos. A justiça é feita aqui, nesse tribunal. Não vamos admitir que haja uma outra justiça além da nossa. [Alexandre de Moraes]

A imagem mostra o ministro Alexandre de Moraes — homem de pele clara e calvo, usando toga preta com detalhes vermelhos e camisa branca com gravata azul-clara, posando diante de um fundo neutro. Sobre a foto aparecem as inscrições ‘Evangélicos em perigo’ acompanhada de um símbolo de raio e, na parte inferior, a palavra ‘golpista’ em letras grandes azul-claras.

Não é do ministro Alexandre de Moraes a voz presente em um áudio compartilhado por posts nas redes sobre proibir o “vocabulário golpista dos evangélicos”, como “senhor dos senhores", “único Deus” e outros termos. Além de o STF ter negado a veracidade da fala, Aos Fatos analisou o áudio e verificou que a voz não é de Moraes.

  • No áudio enganoso, Moraes fala sem o sotaque paulistano que é comum em entrevistas e discursos do magistrado;
  • A voz verdadeira de Moraes tem uma pontuação, cadência, timbre e modulação diferentes. Já no áudio enganoso a voz é mais linear;
  • Nas falas autênticas de Moraes é possível notar a respiração do magistrado entre palavras, que puxa o ar pela boca para dentro. Isso inexiste no áudio compartilhado pelas peças enganosas;
  • Moraes também “estica” a letra “s” no final das palavras terminadas por ela, o que se traduz em uma espécie de chiado. Essa característica não aparece no áudio enganoso.

Por meio de pesquisa na imprensa, nas redes sociais e no site do STF, Aos Fatos tampouco localizou qualquer fala ou texto de teor igual ou semelhante proferida ou escrita pelo magistrado.

Sintético. Athus Cavalini, doutorando em ciência da computação e professor do Ifes (Instituto Federal do Espírito Santo), também analisou o áudio e não encontrou marcas d’água de IA, que são sinais imperceptíveis ao ser humano, mas que permitem que programas de computador reconheçam falas sintéticas. Isso não quer dizer, entretanto, que o áudio não tenha sido gerado artificialmente.

“Há fortes indicativos de que seja IA, como a característica mais ‘linear’ ou monótona da fala, mas sem uma marca d’água é quase impossível bater o martelo entre IA ou uma imitação que depois foi editada. Tem uma música de fundo, compressão do áudio etc.”, diz Cavalini.

O especialista também apontou que duas ferramentas, a Undetectable e o Aurigin, criadas para detectar conteúdo sintético, resultaram em 98% e 92%, respectivamente, de probabilidade do áudio ter sido gerado por IA. Contudo, o resultado obtido por meio dessas ferramentas é complementar e não deve ser usado de forma isolada para atestar a veracidade de um conteúdo.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou o áudio compartilhado, comparando suas características com registros públicos de falas de Alexandre de Moraes. A reportagem avaliou elementos como timbre, cadência, ritmo, sotaque e respiração, identificando incompatibilidades entre o material divulgado e a voz do ministro. Em paralelo, verificou bancos de discursos, entrevistas e publicações oficiais do STF e não encontrou qualquer manifestação com teor semelhante.

A reportagem também consultou o STF, que negou a autenticidade do áudio, e ouviu um especialista em ciência da computação para analisar a possibilidade de síntese por IA. O especialista examinou o material com ferramentas de detecção de conteúdo sintético e apresentou probabilidades elevadas de geração artificial, ressaltando que esses resultados são indicativos e não conclusivos.

Referências

  1. YouTube (1 e 2)
  2. Undetectable
  3. Aurigin

Compartilhe

Leia também

falsoÉ falso que Maduro foi condenado à morte nos EUA

É falso que Maduro foi condenado à morte nos EUA

falsoRegra que adia aposentadoria de professores foi aprovada em 2019, não agora

Regra que adia aposentadoria de professores foi aprovada em 2019, não agora

falsoVídeo em que homem anuncia greve de fome por liberdade de Maduro é gerado por IA

Vídeo em que homem anuncia greve de fome por liberdade de Maduro é gerado por IA

fátima
Fátima