Área total de pastagens não afasta responsabilidade da pecuária por desmatamento

Compartilhe

O fato de o tamanho da área total ocupada pela pecuária no Brasil ter se mantido estável nos últimos anos não prova que o setor não tem relação com o desmatamento, ao contrário do que faz crer um vídeo da ONG ruralista De Olho no Material Escolar. Na verdade, a produção de gado bovino avançou nos últimos anos sobre as florestas e o cerrado, e pastagens em outros lugares cederam espaço para diferentes atividades, como a agricultura.

A peça de desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade que faz lobby pró-agronegócio. Apesar de ter sido elaborada em parceria com a Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), a Agroteca possui diversos conteúdos sem embasamento científico.

Você já ouviu dizer que a produção de animais nos pastos do Brasil é responsável pelo desmatamento? Pois é, é comum a pecuária ser criticada por estar ligada ao desmatamento, mas essa não é a realidade. Atualmente, a área de pastagem vem diminuindo cada vez mais, enquanto a produção continua aumentando, o que demonstra que o crescimento da pecuária não depende do desmatamento.

Homem negro jovem, de camiseta preta, apresenta um gráfico em tela azul e verde sobre pecuária na Amazônia. O gráfico de linhas mostra a evolução, entre 1988 e 2017, da área de pastagens cultivadas (verde), do rebanho bovino em cabeças (azul) e do desmatamento anual em hectares (vermelho), indicando crescimento contínuo das pastagens e do rebanho e queda acentuada do desmatamento após picos nos anos 1990 e início dos anos 2000.

O vídeo desinformativo foi produzido para a ONG De Olho no Material Escolar pela Somos Educação, empresa dona de editoras como Ática, Saraiva e Scipione.

Para construir a alegação enganosa, o conteúdo exibe um gráfico que utiliza dados verdadeiros sobre a área desmatada anualmente na Amazônia Legal e a evolução das terras ocupadas por pastagens. No entanto, além de estarem desatualizados, os números não comprovam que a pecuária não seria responsável pelo desmatamento.

O gráfico cita entre suas fontes o MapBiomas, rede global formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora as transformações no uso da terra no Brasil. Aos Fatos enviou o vídeo para a avaliação do projeto, que disse ter encontrado irregularidades no trecho que “usa um gráfico de área total de pastagem para confundir o público”.

Apesar de o narrador do vídeo dizer que “a área de pastagem vem diminuindo cada vez mais”, na tela é exibido um gráfico que aponta para uma estabilidade no total de hectares dedicados às pastagens no Brasil após anos de crescimento. Esse movimento coincide com o registrado pelo MapBiomas, que utiliza imagens de satélite para mapear o território.

Os dados do projeto, porém, revelam que a estabilidade na área total não significa que a produção permaneceu imóvel. Na verdade, nas duas últimas décadas, os ganhos e perdas de áreas de pastagem foram similares — ao contrário do que aconteceu entre 1985 e 2004, quando o avanço dos pastos superou a conversão de terras para outros usos.

Ao esmiuçar essa dinâmica, o levantamento do MapBiomas aponta para uma conclusão contrária à do vídeo, indicando que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens foram criadas sobre áreas de floresta ou cerrado. Das terras que deixaram de ser pastos, menos de 25% voltaram à formação original.

Outro relatório, do projeto Amazônia 2030, mostra que 90% das áreas de floresta amazônica desmatadas são destinadas a atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque. Estudos científicos também vêm apontando para a relação entre a diminuição da maior floresta tropical do mundo e a criação de bois.

O deslocamento da produção de gado sobre as florestas também pode ser observado na sequência de mapas de uso da terra desde 1985, gerada com dados do MapBiomas:

Animação mostra o mapa do Brasil sobre fundo preto. Nela, se vê a área verde localizada na região norte do país sendo paulatinamente coberta de amarelo. Ao mesmo tempo, regiões do centro e do sul do mapa que antes estavam pintadas de amarelo passam a exibir a cor rosa.

Na animação, a cor verde representa as florestas, o amarelo mostra a área ocupada pela pecuária, e o rosa, as terras usadas pela agricultura. No mapa, é possível observar como a cor amarela avança na direção da Amazônia, enquanto é substituída pelo rosa em regiões mais ao sul do Brasil.

A disseminação da desinformação se insere no contexto da investida do agronegócio em projetar uma imagem mais positiva da atividade. Esse é o objetivo da atuação da ONG De Olho no Material, que atua no campo da educação.

Como investigação do Aos Fatos mostrou, a associação tem promovido ações para pressionar editoras de livros didáticos a alterar conteúdos verdadeiros que sejam considerados negativos para o agronegócio.

Outro lado

Procurada pelo Aos Fatos, a Donme considera que a conclusão de que a afirmação apresentada no vídeo seja falsa “não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis”.

“É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento”, afirma a nota da associação, que se coloca à à disposição “para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema” (leia a íntegra).

Já a Somos Educação não comentou o vídeo específico, mas disse em comunicado que “todo o material didático é atualizado seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”, e que “se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização.”

Responsável técnica pela curadoria da Agroteca, ao ser confrontada com as desinformações identificadas no repositório, a Esalq/USP disse que sua atual gestão reviu a coordenação do convênio com a Donme e que “as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.


Esta checagem e a reportagem sobre a pressão da Donme sobre as editoras de livros didáticos são parte do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center. Nos próximos dias, esta série vai mostrar a investida do lobby do agro sobre o poder público.

O caminho da apuração

Aos Fatos identificou o vídeo durante uma investigação sobre a atuação da ONG De Olho no Material Escolar. Os dados apresentados foram cruzados com as fontes do infográfico exibido no vídeo e estudos sobre a relação entre o desmatamento e a pecuária.

A reportagem também submeteu o vídeo para avaliação da equipe do MapBiomas e procurou a Somos Educação, a Donme e a Esalq/USP para pedir seus posicionamentos.

Compartilhe

Leia também

Ferramentas de IA violam normas do TSE e ranqueiam pré-candidatos com critérios vagos

Ferramentas de IA violam normas do TSE e ranqueiam pré-candidatos com critérios vagos

falsoVídeo em que Alexandre de Moraes faz ameaças é gerado por IA

Vídeo em que Alexandre de Moraes faz ameaças é gerado por IA

falsoPosts usam IA para alegar que EUA teriam bombardeado caças pintados no chão por iranianos

Posts usam IA para alegar que EUA teriam bombardeado caças pintados no chão por iranianos

fátima
Fátima