O fato de o tamanho da área total ocupada pela pecuária no Brasil ter se mantido estável nos últimos anos não prova que o setor não tem relação com o desmatamento, ao contrário do que faz crer um vídeo da ONG ruralista De Olho no Material Escolar. Na verdade, a produção de gado bovino avançou nos últimos anos sobre as florestas e o cerrado, e pastagens em outros lugares cederam espaço para diferentes atividades, como a agricultura.
A peça de desinformação está disponível na Agroteca, repositório mantido pela entidade que faz lobby pró-agronegócio. Apesar de ter sido elaborada em parceria com a Esalq-USP (Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, da Universidade de São Paulo), a Agroteca possui diversos conteúdos sem embasamento científico.
Você já ouviu dizer que a produção de animais nos pastos do Brasil é responsável pelo desmatamento? Pois é, é comum a pecuária ser criticada por estar ligada ao desmatamento, mas essa não é a realidade. Atualmente, a área de pastagem vem diminuindo cada vez mais, enquanto a produção continua aumentando, o que demonstra que o crescimento da pecuária não depende do desmatamento.

O vídeo desinformativo foi produzido para a ONG De Olho no Material Escolar pela Somos Educação, empresa dona de editoras como Ática, Saraiva e Scipione.
Para construir a alegação enganosa, o conteúdo exibe um gráfico que utiliza dados verdadeiros sobre a área desmatada anualmente na Amazônia Legal e a evolução das terras ocupadas por pastagens. No entanto, além de estarem desatualizados, os números não comprovam que a pecuária não seria responsável pelo desmatamento.
O gráfico cita entre suas fontes o MapBiomas, rede global formada por universidades, ONGs e empresas de tecnologia que monitora as transformações no uso da terra no Brasil. Aos Fatos enviou o vídeo para a avaliação do projeto, que disse ter encontrado irregularidades no trecho que “usa um gráfico de área total de pastagem para confundir o público”.
Apesar de o narrador do vídeo dizer que “a área de pastagem vem diminuindo cada vez mais”, na tela é exibido um gráfico que aponta para uma estabilidade no total de hectares dedicados às pastagens no Brasil após anos de crescimento. Esse movimento coincide com o registrado pelo MapBiomas, que utiliza imagens de satélite para mapear o território.
Os dados do projeto, porém, revelam que a estabilidade na área total não significa que a produção permaneceu imóvel. Na verdade, nas duas últimas décadas, os ganhos e perdas de áreas de pastagem foram similares — ao contrário do que aconteceu entre 1985 e 2004, quando o avanço dos pastos superou a conversão de terras para outros usos.
Ao esmiuçar essa dinâmica, o levantamento do MapBiomas aponta para uma conclusão contrária à do vídeo, indicando que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens foram criadas sobre áreas de floresta ou cerrado. Das terras que deixaram de ser pastos, menos de 25% voltaram à formação original.
Outro relatório, do projeto Amazônia 2030, mostra que 90% das áreas de floresta amazônica desmatadas são destinadas a atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque. Estudos científicos também vêm apontando para a relação entre a diminuição da maior floresta tropical do mundo e a criação de bois.
O deslocamento da produção de gado sobre as florestas também pode ser observado na sequência de mapas de uso da terra desde 1985, gerada com dados do MapBiomas:

Na animação, a cor verde representa as florestas, o amarelo mostra a área ocupada pela pecuária, e o rosa, as terras usadas pela agricultura. No mapa, é possível observar como a cor amarela avança na direção da Amazônia, enquanto é substituída pelo rosa em regiões mais ao sul do Brasil.
A disseminação da desinformação se insere no contexto da investida do agronegócio em projetar uma imagem mais positiva da atividade. Esse é o objetivo da atuação da ONG De Olho no Material, que atua no campo da educação.
Como investigação do Aos Fatos mostrou, a associação tem promovido ações para pressionar editoras de livros didáticos a alterar conteúdos verdadeiros que sejam considerados negativos para o agronegócio.
Outro lado
Procurada pelo Aos Fatos, a Donme considera que a conclusão de que a afirmação apresentada no vídeo seja falsa “não nos parece adequada, ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis”.
“É importante esclarecer o ponto central: o argumento não é negar a existência de desmatamento no país, tampouco afirmar que a pecuária não tenha qualquer relação com dinâmicas territoriais. O que se afirma, de forma objetiva, é que o crescimento da pecuária brasileira não depende do desmatamento”, afirma a nota da associação, que se coloca à à disposição “para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema” (leia a íntegra).
Já a Somos Educação não comentou o vídeo específico, mas disse em comunicado que “todo o material didático é atualizado seguindo as orientações curriculares do Ministério da Educação (Base Nacional Comum Curricular e Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Fundamental), com todo o rigor técnico-pedagógico”, e que “se pauta pela pluralidade de ideias e busca manter seus materiais em constante atualização.”
Responsável técnica pela curadoria da Agroteca, ao ser confrontada com as desinformações identificadas no repositório, a Esalq/USP disse que sua atual gestão reviu a coordenação do convênio com a Donme e que “as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.
Esta checagem e a reportagem sobre a pressão da Donme sobre as editoras de livros didáticos são parte do projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center. Nos próximos dias, esta série vai mostrar a investida do lobby do agro sobre o poder público.
O caminho da apuração
Aos Fatos identificou o vídeo durante uma investigação sobre a atuação da ONG De Olho no Material Escolar. Os dados apresentados foram cruzados com as fontes do infográfico exibido no vídeo e estudos sobre a relação entre o desmatamento e a pecuária.
A reportagem também submeteu o vídeo para avaliação da equipe do MapBiomas e procurou a Somos Educação, a Donme e a Esalq/USP para pedir seus posicionamentos.




