Aqui não tem propaganda de bets

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Jornalismo também se define pelo que se recusa a promover. Por isso, Aos Fatos une-se a mais de uma dezena de publicações jornalísticas brasileiras para reafirmar que não aceita publicidade, patrocínio ou qualquer outra parceria comercial de casas de apostas online, popularmente conhecidas como bets.

Essa decisão não é episódica: as diretrizes de funcionamento do Aos Fatos estabelecem desde sua origem que a organização não é e não será financiada por publicidade programática. Esse modelo, além de recompensar o sensacionalismo e a desinformação, foi tomado por ferramentas automáticas que veiculam qualquer tipo de serviço ou produto, a despeito de serem benéficos para a sociedade ou não. Apostas são algumas das várias mercadorias à venda nesse formato, degradando a integridade da informação jornalística e causando confusão ao consumidor.

Quando a saúde, o bem-estar e o orçamento das famílias estão em risco, cabe à imprensa investigar os atores envolvidos, fiscalizar o poder público e cobrar medidas de proteção à sociedade. Não seria coerente fazer isso enquanto cedemos nossa audiência e nossa credibilidade para estimular o consumo de casas de apostas.

Uma investigação do Aos Fatos analisou 49.979 anúncios nativos de plataformas de apostas veiculados, entre janeiro de 2024 e março de 2025, nos dez sites de notícias mais acessados do Brasil. Em 73,8% das peças, foram identificadas promessas de ganhos extraordinários, apelos emocionais ou ofertas de vantagens exclusivas para atrair apostadores.

Cerca de 30% dos anúncios prometiam dinheiro fácil ou ganhos extraordinários. A maior parte dessas peças foi divulgada depois da entrada em vigor da Portaria 1.231/2024, que proíbe expressamente mensagens que sugiram ganho fácil, associem apostas ao sucesso financeiro ou induzam o apostador a agir imediatamente. A norma também veda publicidade falsa ou enganosa e mensagens que apresentem o jogo como solução para problemas financeiros.

A investigação identificou ainda 4.551 anúncios, equivalentes a 9,1% do material analisado, de 14 plataformas que posteriormente não se regularizaram junto ao Ministério da Fazenda. Mais da metade dessas peças recorria à manipulação emocional ou prometia benefícios como bônus e ofertas de dinheiro para o primeiro depósito.

Esses números são especialmente preocupantes porque se referem a anúncios nativos: peças publicitárias que imitam a aparência, o tom e a linguagem do conteúdo editorial. Em sites jornalísticos, elas podem surgir entre chamadas de reportagens ou em caixas de recomendação de conteúdo, nem sempre com uma distinção suficientemente clara entre publicidade e notícia.

Nesse formato, a publicidade não compra apenas espaço. Ela toma emprestada a confiança construída pelo veículo de imprensa. Ao simular uma notícia, o anúncio transforma a credibilidade jornalística em instrumento de persuasão comercial e enfraquece uma fronteira essencial para que o público saiba quando está diante de informação apurada e quando está diante de propaganda.

No caso das bets, esse problema é ainda mais grave. Especialistas ouvidos pelo Aos Fatos alertaram que mensagens com apelo emocional, urgência, recompensas e promessas de multiplicação do dinheiro podem funcionar como gatilhos para pessoas vulneráveis ao transtorno do jogo.

A dimensão social do problema também está registrada em dados públicos. Em agosto de 2024, segundo estimativa do Banco Central, 5 milhões de pessoas pertencentes a famílias beneficiárias do Bolsa Família enviaram R$ 3 bilhões por Pix a empresas de apostas. Desse grupo, 4 milhões eram responsáveis familiares e transferiram R$ 2 bilhões. O levantamento não permite afirmar que todo o dinheiro apostado veio diretamente do benefício, mas dimensiona a exposição de famílias em situação de vulnerabilidade financeira ao setor.

As regras para a publicidade de apostas foram reforçadas neste mês. Desde 17 de julho de 2026, as propagandas devem exibir advertências explícitas, como “Apostar pode causar dependência” e “Aposta não é investimento”. As novas normas também ampliam a responsabilidade dos diferentes agentes que participam da divulgação das bets.

São medidas necessárias, mas insuficientes. A existência de uma autorização estatal para operar não obriga nenhum veículo a anunciar. Da mesma forma, o cumprimento formal de regras publicitárias não elimina os riscos do produto nem resolve o conflito entre o interesse comercial de uma bet e a obrigação jornalística de investigá-la com independência. Aos Fatos sempre foi transparente em relação a como se financia – e participar desta iniciativa conjunta é uma forma de demonstrar como o nosso jornalismo é feito.

Ao lado de outros veículos jornalísticos, defendemos que as autoridades intensifiquem a fiscalização de toda a cadeia publicitária, responsabilizem operadores e intermediários por anúncios abusivos, impeçam a divulgação de plataformas não autorizadas e fortaleçam as políticas de prevenção e tratamento do transtorno do jogo.

Também entendemos que as empresas de comunicação precisam assumir sua parcela de responsabilidade. Nenhuma receita publicitária compensa a erosão da confiança do público. Quando um veículo publica reportagens sobre endividamento, dependência e propaganda enganosa e, simultaneamente, promove casas de apostas, cria uma contradição que não pode ser resolvida por um aviso em letras pequenas.

A confiança do consumidor de notícias vale muito mais do que isso.

Veículos que fazem parte desta ação:

Agência Lupa,

Agência Pública,

Alma Preta,

Amado Mundo,

Aos Fatos,

Manual do Usuário,

Matinal,

Meio,

Mobile Time,

My News,

Notícia Preta,

NeoFeed,

Plural,

Portal IMPRENSA, e

Reset.

Referências

  1. Aos Fatos
  2. Governo federal (1 e 2)
  3. Banco Central

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