Após suspensão, Fátima, robô checadora do Aos Fatos, é bloqueada pelo Twitter

3 de agosto de 2021, 14h23

O Twitter baniu o acesso da Fátima (@fatimabot), a robô checadora do Aos Fatos, à API da plataforma. API é a sigla em inglês para Application Programming Interface, que consiste em uma forma de comunicação entre aplicações de computador. Na prática, a decisão impede que a Fátima funcione para detectar a divulgação de links com conteúdo desinformativo na plataforma e enviar aos usuários que os compartilharam as checagens feitas pela equipe do Aos Fatos.

Além de impedir o funcionamento da Fátima, na última segunda-feira (2), o Twitter suspendeu o seu perfil por mais de 10h. A medida foi revertida após contatos do Aos Fatos com a plataforma. Tanto a suspensão quanto o banimento do acesso à API ocorreram sem qualquer comunicado prévio ao Aos Fatos.

Em nota, o Twitter informou que "a conta foi suspensa por violação às nossas regras de automação, devido ao uso de um aplicativo que menciona ou comenta, de forma duplicada, conteúdos relacionados a contas que não estão interagindo diretamente com o perfil". Segundo a plataforma, após análise, "o Twitter retirou a suspensão da conta, mas suspendeu o aplicativo por violar suas regras de spam".

Sem conexão com a API do Twitter, o perfil @fatimabot perde a sua finalidade. A Fátima é um robô de conscientização, ou seja, alerta usuários que informações compartilhadas por eles contêm desinformação. Ela foi programada para não prejudicar o debate legítimo da rede, por isso tem mecanismos para evitar um comportamento spam e para não inflar conversas de bots maliciosos. Além disso, não responde com mídias, insultos ou palavrões, mas empaticamente, com informação verificada.

"A Fátima é reconhecida mundialmente como exemplo de combate a informações falsas por meio do uso de inteligência artificial. Em vez de apoiar, o Twitter decide inviabilizar sua atuação enquanto mentiras que ameaçam vidas multiplicam-se na plataforma. Juntamente com o descumprimento de suas políticas de combate à desinformação, a empresa facilita o trabalho de enganadores profissionais", diz Tai Nalon, diretora-executiva do Aos Fatos.

Combate ao discurso antivacina. Os últimos tweets enviados pela Fátima a usuários que compartilharam desinformação desmentiam o boato de que um estudo japonês encontrou nanopartículas de mRNA em pessoas vacinadas contra a Covid-19 com o imunizante fabricado pela Pfizer. Essa desinformação circulou no começo de junho e voltou a aparecer no Twitter nos últimos dias. O seu reaparecimento foi detectado pela Fátima, e os usuários que compartilharam o conteúdo foram informados de que se tratava de uma informação falsa.

A Fátima também alertou nos últimos meses usuários que compartilharam outras desinformações sobre vacinas, como a falsa proibição de vacinados de viajar de avião ou a alegação de que vacinas criam novas variantes da Covid-19.

Um dos perfis no Twitter que tiveram post respondido pela Fátima, além de difundir conteúdos conspiratórios sobre vacinas, já defendeu golpe de Estado, pediu o fim do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) e postou teorias QAnon. Ele segue no ar e, inclusive, apareceu em uma reportagem de junho do Radar Aos Fatos que mostrou que posts antivacina que violavam regra do Twitter contra desinformação alcançaram mais de 147 mil interações em três meses.

Em 1º de março, o Twitter afirmou que passaria a remover ou rotular publicações potencialmente enganosas sobre vacinas e a punir com suspensões e até banimentos usuários que as compartilhassem. Os tweets respondidos pela Fátima continuam no ar, e o comentário da robô checadora do Aos Fatos, na maioria dos casos, é o único aviso de que se trata de conteúdo enganoso.

Robô do bem. Fátima surgiu em julho de 2018 sob a premissa de que todas as pessoas expostas à desinformação também merecem ter acesso à informação verificada. O aplicativo foi idealizado pelo jornalista e professor do Insper Pedro Burgos e pela diretora executiva do Aos Fatos, Tai Nalon. O projeto foi vencedor do Prêmio Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados em 2019.

No Twitter, o perfil sincroniza um banco de alegações falsas ou distorcidas já checadas pelo Aos Fatos e mapeia automaticamente a rede social em busca de posts com links desinformativos. Ao encontrá-los, ela dispara uma resposta para o perfil que compartilhou o conteúdo enganoso com um link para a informação verificada.

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