Após atacarem Marina, senadores escondem das redes ofensas e acusações à ministra

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A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, abandonou a sessão da Comissão de Infraestrutura do Senado da última terça-feira (27) após uma série de ataques dos senadores: ela teve seu microfone cortado, ouviu que deveria “se pôr no seu lugar” e foi ofendida pelo senador Plínio Valério (PSDB-AM).

O caso repercutiu nas redes e no cenário político e gerou posicionamentos de apoio de diversos colegas do governo, incluindo a primeira-dama Rosângela da Silva, a Janja, e o presidente Lula (PT), que disse que ela fez o certo ao se retirar da audiência.

Após a repercussão, senadores que protagonizaram a discussão publicaram vídeos e fizeram comentários na tribuna que traçam um cenário diferente do que ocorreu na comissão. Aos Fatos analisou e contextualizou as falas de:

  1. Plínio Valério (PSDB-AM)
  2. Marcos Rogério (PL-RO)
  3. Omar Aziz (MDB-AM)

1. Plínio Valério (PSDB-AM)

A foto mostra o senador Plínio Valério em uma sessão parlamentar, sentado em uma cadeira de couro preta, atrás de uma bancada de madeira clara, onde há papéis e documentos. Ele veste um terno cinza, camisa azul clara e gravata azul com pequenos padrões brancos, além de um relógio dourado no pulso esquerdo. Seu cabelo é escuro, penteado para trás, e ele tem barba cheia e escura. Na imagem, ele gesticula com as mãos levantadas e abertas, com os dedos estendidos. Ao fundo, outros parlamentares, alguns de terno e gravata, estão desfocados.
Geraldo Magela/Agência Senado

Após a ministra Marina Silva ter se retirado da comissão, Valério foi à tribuna do Senado para comentar sobre o ocorrido:

“A ministra Marina Silva esteve na Comissão de Infraestrutura e, quando chegou a minha hora de falar, houve algum problema, ela se retirou e eu não pude questioná-la do que eu iria falar (...) Daí eu pedir sempre paciência de quem está ouvindo em casa e lamentar que eu não pudesse hoje mostrar esses dados para a ministra Marina da Silva. Vou lamentar que ela tenha saído. Não sei qual vai ser o comentário amanhã. Da outra vez, me lacraram como machista, e eu não a ofendi, não teve nada, porque é um direito da gente: é um dever respeitar as mulheres e um direito não concordar com a função” — Plínio Valério, em fala no dia 27.mai.2025.

O “problema” a que ele se refere foi o estopim da discussão entre os senadores e a ministra: quando era sua vez de questionar Marina, Valério começou dizendo que “ao olhar para a senhora, eu estou vendo a ministra. Eu não estou falando com a mulher, eu estou falando com a ministra, porque a mulher merece respeito e a ministra, não”.

Marina, então, perguntou porque o senador não a respeitava e lembrou uma fala anterior de Valério que, em março deste ano, disse que tinha vontade de enforcar a ministra.

Na época, Marina classificou a fala como “psicopata”. A declaração também fez com que o senador recebesse uma bronca do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), e uma representação de deputadas federais que pediram sua cassação por violência de gênero.

Para se defender, Valério disse que tratou a ministra com toda a educação e delicadeza, pois ela seria “mulher, ministra, negra e frágil” e negou ser machista porque “fiquei viúvo, uma mulher, casei de novo, duas. Tenho três filhas, uma enteada, seis netas e três irmãs”.

O novo comentário de Valério começou uma discussão entre os senadores e fez o presidente da comissão, Marcos Rogério (PL-RO), pedir para que mantivessem o respeito “de ambos os lados”. Marina, então, negou que teria faltado com o respeito e disse ainda que, na verdade, respeitava o senador Valério.

O senador amazonense explicou que “quis separar” a ministra da mulher e recebeu a resposta de Marina: “Então, como eu estou convidada como ministra, ou ele me pede desculpas ou eu vou me retirar”. Como Valério se negou a pedir desculpas, a ministra saiu e a sessão foi encerrada.

2. Marcos Rogério (PL-RO)

A foto mostra o senador Marcos Rogério, um homem adulto de barba e cabelos grisalhos penteados para o lado, vestindo um terno escuro e gravata azul, discursando em um púlpito no plenário do Senado Federal do Brasil. Ele está de pé, segurando um microfone e fazendo gestos com a mão. Atrás dele, aparecem as listras verticais azuis e brancas do plenário e uma bandeira do Brasil posicionada à sua esquerda. A mesa do púlpito tem o brasão do Senado.
Andressa Anholete/Agência Senado

Outro senador que comentou a saída de Marina Silva foi o presidente da comissão, Marcos Rogério. Na tribuna, logo após o episódio, o senador lamentou o comportamento da ministra:

“A ministra chega e começam os questionamentos. E, ao longo dos questionamentos, ela começa a perder o equilíbrio natural que se espera de um ministro de Estado. É um Parlamento, é uma comissão do Parlamento. E a fala, talvez, mais enfática, mais firme que teve — e não porque saiu do tom, porque é o tom natural dele — foi a fala do Senador Omar Aziz, falando da questão da 319, falando das mortes... em razão da Covid, da falta de acesso ao Estado do Amazonas. E a ministra começa a entrar num embate pessoal, não querendo sequer permitir que os senadores complementassem o raciocínio”.

Rogério omite, no entanto, que a ministra foi interrompida diversas vezes durante suas falas, foi acusada por Omar Aziz de estar citando dados falsos — o que não procede — e ouviu de Valério que ele não a respeitava.

Durante a discussão, Rogério disse ainda para a ministra “pôr-se no seu lugar” e recebeu críticas não só de Marina como de outros senadores, como Eliziane Gama (PSD-MA).

Mais tarde, na tribuna, Rogério alegou que não tinha o intuito de diminuir a ministra e disse a expressão para “chamá-la ao papel que é próprio dela como ministra de Estado”.

Pouco tempo após o fim da sessão, o senador publicou um story no Instagram com a cadeira de Marina Silva vazia, criticando a postura da ministra e acusando a ministra de não responder as perguntas direcionadas a ela.

A imagem mostra a uma mesa de comissão parlamentar, com um notebook preto da marca Positivo, colocado sobre a mesa, e uma placa de identificação branca à frente dele. A placa exibe o brasão da República e o nome 'Marina Silva', acompanhada do cargo: 'Ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima', em letras pretas. O fundo da imagem exibe uma parede com padrões geométricos em tons bege e marrom claro. Sobre a imagem está o texto: 'É assim termina a sessão... A saída da ministra, infelizmente, não é nenhuma novidade, já que ela costuma deixar a comissão sem responder à maioria das perguntas. Essa postura não contribui para o debate — ao contrário, apenas o enfraquece'.
“A saída da ministra, infelizmente, não é nenhuma novidade”. Rogério publicou story acusando Marina Silva de fugir do debate, mas omite diversos fatos que escalaram a situação.

Em outro story, o senador afirmou novamente: “encerramos a sessão após abandono da ministra”. A gravação mostra o momento em que Marina se retira da sessão e, em seguida, exibe filmagens de Rogério conversando com outras mulheres.

Na mesma rede, o senador também fez uma publicação intitulada “O Senado não é palco de lacração”, junto a uma foto do momento em que a ministra se levanta da cadeira e abandona a sessão após Plínio Valério se recusar a pedir desculpas.

Nela, ele acusa Marina de tentar “transformar a divergência política em uma narrativa de violência de gênero”, o que seria, “além de irresponsável, desonesto”. Marcos Rogério termina afirmando que quem ocupa cargos públicos precisa ter “grandeza” para dialogar, e não “teatralizar, gritar, fugir”.

O senador também não cita em nenhum momento que o propósito inicial da discussão - a proposta da criação de reservas extrativistas próximas à Foz do Rio Amazonas - foi desviado pelos membros da casa legislativa, e que Marina estava sendo questionada sobre questões referentes ao asfaltamento de uma rodovia na Amazônia.

3. Omar Aziz (PSD-AM)

A foto mostra o senador Omar Aziz vestindo um terno azul claro, camisa branca e uma gravata rosa, enquanto fala com expressividade e gesticulando com a mão direita, com três dedos apontados para baixo. Ele está sentado em uma mesa com microfone e um notebook à sua frente, cercado por outros parlamentares e assessores.
Geraldo Magela/Agência Senado

Depois da sessão, Aziz publicou um vídeo de um trecho de sua fala na qual ele defende que seja terminada as obras da BR-319:

Aziz deixou de fora de suas redes os trechos em que acusou Marina de ter mentido durante a comissão.

Após a fala da ministra, por exemplo, Aziz alegou que Marina teria citado um dado falso — de que a biodiversidade seria responsável por 50% do PIB mundial.

O número citado por Marina está, sim, correto e vem do Fórum Econômico Mundial, que, em 2020, estimou que mais da metade do PIB de todos os países depende da natureza. A instituição levou em consideração setores que dependem de ecossistemas como água, qualidade do solo, regulação do clima e proteção contra pestes.

Aziz, no entanto, questionou Marina sobre o dado e pediu um “exemplo de país” repetidas vezes, mesmo que ela explicasse que o número se tratava de uma média.

Depois, o senador também disse que Marina estava mentindo ao dizer que o anúncio da BR-319 aumentou o desmatamento em 119%. O dado também é baseado em fontes confiáveis: levantamento do Observatório do Clima mostrou que a depredação no entorno da rodovia cresceu 122% entre 2020 e 2022 e que isso “coincide com o anúncio do governo Bolsonaro de que a rodovia seria asfaltada”.

Após Marina dizer que os dados não eram falsos, Aziz retrucou dizendo que eram e acusou a ministra de “pegar polígonos de 30 anos atrás”.

Outro lado

Aos Fatos entrou em contato com os gabinetes dos três senadores citados na reportagem, mas nenhum deles respondeu até a publicação deste texto. O espaço está aberto para eventuais posicionamentos.

O caminho da apuração

Aos Fatos analisou os perfis dos três senadores que entraram em discussões com a ministra Marina Silva após o ocorrido na última terça-feira (27). Procuramos também a íntegra das falas na comissão e na tribuna do Senado naquele mesmo dia.


CORREÇÃO: Diferentemente do que foi informado nesta reportagem, a BR-319 não é a Transamazônica. O texto foi corrigido às 11h15 de 29.mai.2025.

Referências

  1. Uol (1, 2 e 3)
  2. g1
  3. Senado federal
  4. X (@OmarAzizSenador)
  5. Fórum Econômico Mundial (1 e 2)
  6. Observatório do Clima

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