Bolsonaristas têm compartilhado nas redes a teoria de que a cirurgia à qual o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) foi submetido no final de semana foi resultado de um envenenamento criminoso. Por mais conspiratória que seja, a tese acumula mais de 200 mil interações em redes como YouTube e Facebook e também circula no WhatsApp.
A alegação mentirosa é resultado de distorções, clickbaits — estratégia que usa elementos sensacionalistas para garantir acessos — e interpretações de falas do próprio Bolsonaro e de seus apoiadores.
Diferentemente do que afirmam as publicações, o ex-presidente passou mal por conta de uma obstrução intestinal decorrente da facada sofrida em 2018. Segundo o boletim do Hospital DF Star, os médicos optaram pelo procedimento cirúrgico para liberar as aderências intestinais e reconstruir a parede abdominal de Bolsonaro.
Lives sensacionalistas
A principal fonte da teoria conspiratória são lives publicadas por diferentes canais bolsonaristas com o mesmo título e imagem de capa. Nelas, a chamada, “urgente! BOLSONARO ENVENEN4DO! MICHELE SOLTA BOMBA! MÉDICOS EM ALERTA MÁXIMO!” vem acompanhada de uma montagem que inclui o ex-presidente deitado em um leito hospitalar ao lado de uma garrafa de veneno.

Aos Fatos identificou que a estratégia foi usada por ao menos seis canais diferentes que, juntos, acumulam mais de 2,3 milhões de inscritos.
Se o usuário assistir às gravações — que têm mais de nove horas de duração —, vai perceber que, em nenhum momento, os vídeos afirmam que Bolsonaro foi envenenado. Por meio do Escriba, Aos Fatos transcreveu todas as lives e constatou que em apenas uma delas há a citação à palavra “envenenar”.
Nesse trecho, a gravação veicula uma passagem do programa Oeste Sem Filtro em que um comentarista diz que a facada foi realmente uma tentativa de matar Bolsonaro, ao contrário do “falso plano de envenenar Lula e Alckmin”, em referência à denúncia da PGR (Procuradoria-Geral da República) que tornou Bolsonaro réu por tentativa de golpe de Estado.
Apesar da ausência de citações ao caso nas transmissões, usuários publicaram uma série de comentários no YouTube atribuindo o suposto envenenamento à esquerda (veja abaixo). A tese também foi compartilhada em outras redes, como Facebook, Instagram e WhatsApp.

Conspiração de apoiadores
Outra publicação que tem sido compartilhada junto da alegação de que Bolsonaro teria sido envenenado no último final de semana é um trecho de uma fala de Allan dos Santos em seu programa Timeline do dia 11 de abril.
Nele, o blogueiro foragido comentava a internação do ex-presidente: “Vou mandar a real para a galera. O Bolsonaro tem medo de ser envenenado. E esse medo dele não é histeria. Perdão. Esse receio dele não é loucura. Não é exagero. A gente sabe muito bem como é que russos e chineses tratam seus inimigos e desertores”.
Logo depois, Santos diz que não está afirmando que Bolsonaro está internado por conta de um envenenamento, mas que “ele tem que tomar cuidado e ele já toma. E precisamos dobrar os nossos joelhos e rezar por ele por isso”.

Essa não é a primeira vez que bolsonaristas relacionam problemas de saúde de Bolsonaro a um suposto envenenamento. Em julho de 2021, quando o ex-presidente teve de ser internado às pressas por conta de uma obstrução intestinal, circulou nas redes a mentira de que ele havia sido contaminado com chumbo.
Preparação do terreno
A tese de envenenamento tem credibilidade entre os bolsonaristas porque o próprio ex-presidente tem levantado essa possibilidade há anos:
- Em 2020, a jornalista Thaís Oyama publicou o livro “Tormenta”, que revelou que Bolsonaro, por medo de ser envenenado, evitava tomar água da geladeira de sua própria casa e bebia direto da torneira;
- No mesmo ano, o STF autorizou a divulgação da gravação de uma reunião ministerial em que o ex-presidente diz ter medo de ser envenenado por farmácias de manipulação e por isso colocava nomes falsos em seus medicamentos;
- A imprensa noticiou também que Bolsonaro levava garrafas de água para viagens ao exterior e solicitava que provassem sua comida.
Nas últimas semanas, o temor de Bolsonaro voltou a ser noticiado em meio à investigação no STF da suposta tentativa de golpe de Estado. Antes do julgamento que o tornou réu, o ex-presidente disse ter medo de ser envenenado caso seja preso. No dia da sessão, ele se recusou a beber a água oferecida nas dependências do Supremo.
O caminho da apuração
Aos Fatos transcreveu as lives e o vídeo de Allan dos Santos por meio do Escriba e analisou os comentários e compartilhamentos das publicações. Também procuramos relatos antigos, tanto da imprensa quanto do próprio ex-presidente, sobre seu temor de ser envenenado.




