Não me satisfaz a constatação, hoje quase burocrática, de que o combate à desinformação passou a ser tratado como um tema lateral — porque não é, e sobretudo porque, por ora, parece ter vencido a narrativa de que nada há a fazer além de nos protegermos, de maneira insular, da estupidez alheia.
Neste vasto mundo da comunicação digital em que o Aos Fatos completa 11 anos nesta terça-feira (7), há quem pregue detox de telas, controle da dopamina pela redução da exposição a aplicativos, experiências offline, construção de comunidades para reaprender a ler e escrever sentenças complexas, compra de celulares sem plano de dados e toda sorte de produto ou disciplina privada para desopilar de um ambiente ancorado na dúvida permanente. É natural que a mentira seja percebida como um glitch em um ecossistema como esse: quando identificada, ela é óbvia e obscena; quando não, dilui-se numa cultura transacional que precisa parecer confiável, embora seja construída sobre concorrência permanente.
Se existem narrativas concorrentes ou mesmo opostas sobre uma mesma coisa, é porque não é óbvio e assentado que a verdade factual, numa superfície de vidro, nas redes sociais, numa interação com um chatbot, seja fácil de entender. A dúvida permanente é o cimento que cola a infraestrutura digital que nos é oferecida, e a constatação pública de que o mundo é um cassino molda as mazelas de quem não tem a opção de desligar o celular para ter meia hora, dois dias ou uma semana de paz. A verdade é uma aposta: você escolhe acreditar ou não. Só que, no fim, isso importa pouco, uma vez que nossa agência diante das coisas passou a ser calculada com base em modelos matemáticos nos quais os donos das infraestruturas quase sempre saem ganhando.
Em 2015, quando Aos Fatos foi criado, era bastante claro quem era plataforma digital e quem eram o poder constituído, o monopólio da violência, os cofres que financiam o mundo. Se, 11 anos depois, já não há definição óbvia, nenhum deles depende apenas de convencer alguém de uma mentira específica. Apontar se este ou aquele político dizia algo falso era e ainda é imperativo, mas os motivos por trás disso, hoje, são outros e mais complexos.
Consórcios entre Estados nacionais e empresas privadas desenvolveram dispositivos que permitem reescrever toda a história múltiplas vezes – e, mais urgentemente, de apagá-la por excesso de versões, sem dar espaço ao contraditório, aos arquivos ou às metodologias de verificação. Se há muitas histórias, não há história, e se há poucas ferramentas capazes de explicá-las, também não há quem conte para muita gente.
Existe um entendimento precário de que a checagem de fatos em específico, mas o jornalismo do Aos Fatos como um todo, é apenas um acervo particular de textos. Na verdade, o que Aos Fatos vem criando desde a sua fundação é uma estrutura de dados que contém células de informação que, quando organizadas, podem não só desmentir narrativas enganosas ou dar contexto aos acontecimentos, mas também, a partir de padrões repetidos ao longo da história recente, prever quando e como mentiras vão se espalhar em determinados contextos.
Explico: lentamente e, muitas vezes, sem que a indústria da informação soubesse atribuir valor ao que estava sendo construído, Aos Fatos transformou checagem, verificação e investigação jornalística em infraestrutura. Estruturou dados quando quase ninguém no jornalismo falava seriamente em dados estruturados; para isso, nomeou atores, temas, narrativas e evidências quando isso parecia apenas uma escolha técnica; organizou verificações para que elas não fossem apenas lidas por pessoas, mas relacionadas entre si, recuperadas, reutilizadas e compreendidas por sistemas computacionais.
Não dá para ver, mas esses dados estão guardados nos nossos sistemas, que são independentes e proprietários, sem depender de outras empresas de tecnologia para organizá-los e publicá-los. Fizemos isso porque acreditávamos que a verdade factual, para sobreviver ao ambiente que a tornava permanentemente contestável, precisaria ser mais do que uma frase publicada em uma página.
Hoje, quando sistemas de inteligência artificial precisam distinguir informação confiável de conteúdo sintético, fica mais claro que o que parecia apenas uma camada técnica era, na verdade, uma camada de proveniência para o conhecimento público. Cada checagem publicada pelo Aos Fatos preserva mais do que um veredito; ela registra quem fez uma afirmação, quando a fez, em que contexto, quais evidências estavam disponíveis, quais documentos foram consultados, quais fontes foram ouvidas e como aquela narrativa se relaciona com outras que já circularam. Construímos um mapa temporal, semântico e verificável da mentira contemporânea, capaz de mostrar não apenas que determinada afirmação era falsa, mas também por quais caminhos ela se repetiu, se adaptou, mudou de vocabulário, encontrou novos porta-vozes e voltou a parecer inédita.
O acúmulo de experiências do Aos Fatos, ao longo de 11 anos de construção de uma infraestrutura informacional como essa, foi essencial para produzir jornalismo de grande impacto. Listei alguns deles aqui:

- Por meio da série Mentiras Plantadas, Aos Fatos investigou como narrativas sobre clima e agronegócio eram recicladas, adaptadas e distribuídas em livros didáticos e no debate público. É uma autêntica engenharia de reaproveitamento discursivo, já que dar nomes novos a velhas práticas não é algo particularmente inédito. No entanto, por meio de padrões que se repetem ao longo de décadas, é possível explicar como determinados interesses conseguem atravessar gerações sob a aparência de conhecimento neutro;

- O mesmo vale para o projeto Check-up, vencedor do prêmio Claudio Weber Abramo de Jornalismo de Dados em 2025, que não se limitou a apontar apenas anúncios enganosos de apostas, suplementos ou promessas de cura, mas buscou documentar a arquitetura de um mercado que consegue vender até mesmo a dúvida. Quando investigamos a publicidade de bets, o interesse não estava apenas na promessa individual de enriquecimento, mas na normalização de um tipo de comunicação que depende da assimetria entre a esperança de quem vê e o cálculo de quem vende;

- Quando mostramos como a Capsul Brasil operava anúncios de curas milagrosas e estratégias para driblar a fiscalização, a reportagem não se encerrou no momento da publicação: o caso chegou ao Procon-MG, precedeu o recolhimento de mercadorias determinado pela Anvisa e foi seguido, meses depois, por uma operação do Cira-MG contra o esquema envolvendo a empresa investigada;

- Com Ctrl+Fake, primeira série documental do Aos Fatos, organizamos uma década de evidências dispersas para analisar como a mentira deixou de ser mera estratégia retórica na política para se tornar a base de um projeto de poder global. Ter um acervo organizado e bem documentado, além de acesso a dados estruturados pelo Radar Aos Fatos, foi essencial a todas as etapas da produção.
A existência de uma infraestrutura de dados como a do Aos Fatos também nos coloca em espaços pouco permeáveis à verdade factual. Há poucos meses, o Grok, sistema de inteligência artificial do X, respondeu a usuários usando checagens nossas para contextualizar afirmações falsas sobre Jair Bolsonaro e Alexandre de Moraes. Não havia acordo comercial, parceria tecnológica ou reconhecimento formal – o que não é surpresa. Ao precisar distinguir evidência de fabricação, o sistema encontrou valor justamente nas estruturas capazes de preservar a origem da informação.
A ironia é que o debate público sobre contrapartidas financeiras para o jornalismo de interesse público continua concentrado no conteúdo. Discutimos quem será remunerado pelo uso de textos em modelos de linguagem, enquanto quase ninguém pergunta quem financiará a infraestrutura que torna esses modelos confiáveis. Grandes sistemas de IA não dependem apenas de informação abundante; dependem de informação cuja origem possa ser reconstruída, de taxonomias, metadados, bases de alegações, cadeias de evidências, registros históricos, identificadores persistentes e métodos transparentes de verificação. Dependem, em outras palavras, de proveniência. E a proveniência, como toda infraestrutura, raramente aparece na superfície dos produtos: não gera manchetes, não viraliza, não se presta facilmente a apresentações otimistas sobre inovação e só costuma ser percebida quando começa a faltar.

Neste ano, Aos Fatos recebeu o Prêmio Internacional Rey de España como melhor meio de comunicação ibero-americano por, segundo o júri, “ser referência em checagem, pelo bom exercício de seus jornalistas, que sofrem assédio político, e por ter realizado 19.000 checagens entre 2015 e 2025, das quais aproximadamente 15.000 correspondem a declarações de 167 figuras públicas e outras 4.000 a boatos virais”. É uma grande honra – e chama a atenção porque chega quando nunca houve tanta demanda por informação verificável, IA responsável, segurança epistêmica e transparência algorítmica, ao mesmo tempo em que organizações dedicadas a construir essa mesma infraestrutura atravessam uma grave crise de sustentabilidade.
Devem ser os fatos – e não a mentira – o cimento sobre o qual se assenta a economia digital. O que o Aos Fatos fez, ao longo de onze anos, foi construir uma infraestrutura de proveniência para a informação pública, numa sociedade que precisará lidar com a dúvida como moeda corrente, sem que haja qualquer solução sistêmica à vista.





