Aos cinco anos, Aos Fatos quer jogar na liga dos grandes

Por Tai Nalon

7 de julho de 2020, 12h00


Cinco anos depois de lançar o Aos Fatos, já não me cabem mais as roupas de líder de uma jovem mídia. Num feito kubitschekiano, aperfeiçoamos cinquenta anos de jornalismo em cinco — tudo isso para encontrarmo-nos novamente às voltas com a influência simbólica que veículos tradicionais exercem sobre o ambiente informativo.

Durante a maior pandemia do século 21, coube ao jornalismo tradicional destrinchar, de modo visualmente didático, a vulgar liturgia presidencial do líder que nós elegemos em 2018. Está colada na minha memória a edição de 31 de março de 2020 do Jornal da Globo, em que Renata Lo Prete destrincha todas as falas equivocadas do presidente Jair Bolsonaro proferidas em pronunciamento horas antes. Aos Fatos checou, óbvio, mas o supertrunfo da vez é que o tipo de jornalismo em que acreditamos tem sido explorado de forma inteligente nos principais jornais da TV aberta brasileira.

Esse caminho não tem volta. Um presidente que instrumentaliza a desinformação para se manter no poder a despeito de uma montanha de 65 mil mortos necessita do escrutínio constante dos principais jogadores do xadrez midiático. Talvez ainda seja cedo para dizer, mas ousaria apostar que, nos próximos anos, o legado mais expressivo de plataformas como Aos Fatos tenha sido o de se antecipar aos métodos discursivos do presidente e tornar imperativa a análise da inconsistência de sua retórica.

Isso coloca o Aos Fatos diante de dois desafios críticos: o primeiro, e mais preocupante, é ter seus métodos massificados, diluídos e engolidos pelos grandes players do ambiente informativo. O segundo desafio é fugir dessa primeira hipótese e procurar ele mesmo se tornar parte consistente de um ambiente de comunicação de massa.

O jornalista ucraniano Peter Pomerantzev, em seu fabuloso This Is Not Propaganda, cita algo que ainda não parece óbvio para quem não transita com frequência nos pântanos da desinformação. "Não é que apenas um perfil na internet faça a cabeça de alguém; é que, em massa, essas contas criam um substituto da normalidade. Ao longo das décadas, muitos estudos mostraram como as pessoas mudam seus comportamentos para se encaixar naquilo que acreditam ser o ponto de vista majoritário", disse, mencionando a teoria do espiral do silêncio cunhada pela cientista política Noelle-Neumann.

Segundo ela, a necessidade de pertencimento é uma das mais profundas inclinações humanas. Na década de 1970, fascinada pela força da TV e do rádio, entendeu que a comunicação de massa tinha um papel inclusivo importante, de unificação de valores sociais e, por fim, de operadora da opinião pública. A tal espiral de silêncio faz com que opiniões baseadas em conexões interpessoais estejam em constante conflito com as informações tuteladas pelas mídias de massa. Quem não consegue transcender esse conflito é esmagado e silenciado — e, no limite, resigna-se a seguir a maioria.

Vinte anos adentro, a comunicação de massa do século 21 é bem diferente da comunicação de massa do século 20. Mesmo que nos encontremos num cenário de fragmentação informativa resultante das várias aventuras empreendedoras da indústria jornalística, é razoável pensar que, para dar cabo às narrativas desinformativas, os profissionais da informação precisam criar narrativas factualmente corretas, uniformes e funcionar como mídia de massa — ainda que esse conceito pareça demasiadamente antigo.

Isso demanda também coragem para as implicações do confronto. Segundo a própria Noelle-Neumann, "aqueles que pertencem à vanguarda estão comprometidos com o futuro e, por isso, por necessidade, também estão isolados. No entanto, é a convicção que eles têm no futuro que os fazem resistir. A chance de mudar ou moldar a opinião pública está reservada àqueles que não têm medo de permanecerem isolados".

Em seus próximos cinco anos, Aos Fatos não pretende se tornar uma Cassandra do jornalismo, pelo contrário. Apesar de vanguarda, chegamos até aqui pregando certa sorte de temperança aristotélica ao apontar para os problemas estruturais das campanhas desinformativas em vez de facilmente fulanizar os responsáveis pela debacle das instituições democráticas. O que queremos e percebemos ser necessário é que, em períodos extremos, é imperativo que entremos simultaneamente nas casas de milhões de pessoas para contar, sem textões ou firulas metodológicas, de onde partem as premissas factualmente verdadeiras. Precisaremos dar mais caras e vozes ao Aos Fatos por meio de mídias já estabelecidas e usar nossa própria tecnologia para tornamo-nos menos estóicos, mais humanos.