Dida Sampaio / Estadão Conteúdo

Anúncios pró-voto impresso no Facebook aumentaram 580% na véspera de votações na Câmara

Por Cecília do Lago, Débora Ely e João Barbosa

24 de agosto de 2021, 19h06

Dados da Biblioteca de Anúncios do Facebook sugerem que defensores do voto impresso usaram o impulsionamento de posts pagos na rede social para pressionar pela aprovação da medida em votações na Câmara dos Deputados. Nas duas semanas de agosto em que uma PEC (Proposta de Emenda à Constituição) sobre o tema foi votada na Casa, o volume de anúncios em apoio à adoção do comprovante de voto em papel aumentou 580% na plataforma, mostra análise do Radar Aos Fatos.

O gráfico abaixo ilustra a evolução dos posts impulsionados neste ano. As publicações se tornaram mais frequentes a partir de abril e seguiram em ritmo mais ou menos constante até o fim de julho — neste período, foram publicados 15 anúncios por semana, em média. O número então disparou para 102 publicações semanais (aumento de 580%) nas duas primeiras semanas de agosto.

Impulsionado por parlamentares e influenciadores alinhados ao bolsonarismo, o período coincide com as votações da PEC na comissão especial e no plenário da Câmara, ocorridas nos dias 6 e 10 de agosto, respectivamente. A proposta foi derrotada nas duas ocasiões.

O Facebook e o Instagram acumulam, apenas neste ano, ao menos 479 anúncios que defendem o voto impresso. Segundo dados das plataformas, essas postagens foram exibidas ao menos 4 milhões de vezes e custaram aos seus impulsionadores entre R$ 12,7 mil e R$ 60,5 mil. Não é possível saber os valores exatos porque a Biblioteca de Anúncios só informa os números mínimo e máximo de exibições e de custo de cada postagem.

No total, 74 dessas publicações (15%) tiveram seu impulsionamento interrompido por infringir políticas de publicidade do Facebook. Em contato com a reportagem, a empresa informou que “permite anúncios sobre diferentes sistemas de votação, desde que os conteúdos estejam em conformidade com os Padrões da Comunidade e as Políticas de Anúncios” de suas plataformas.

Também disse que postagens que não violem essas políticas mas que “forem marcadas como falsas por agências de checagem de fatos parceiras do Facebook não podem ser impulsionadas”. O Aos Fatos é um dos veículos que integra o programa de verificação de desinformação no Facebook (saiba aqui como funciona).

Em julho, no início da campanha pró-voto impresso, o Radar Aos Fatos mostrou que a plataforma já havia exibido postagens pagas ao menos 2,2 milhões de vezes em 2021.

Desinformação e suspeitas de fraudes

Do total de posts promovidos que advogam pela adoção da impressão do voto, o Radar Aos Fatos identificou que 73 postagens pagas (o equivalente a 15%) também difundiram desinformação a respeito das urnas ou alimentaram suspeitas infundadas sobre fraudes eleitorais. Estes conteúdos alcançaram de 291 mil a 420 mil impressões.

Entre os principais impulsionadores de mensagens enganosas estão Dauro Andrade (dois posts e no mínimo 35 mil impressões), que se apresenta em seu perfil como “editor de conteúdo político”, e o deputado federal Lincoln Portela (PL-MG), que alcançou ao menos 27 mil exibições também com duas postagens.

Andrade listou uma série de declarações sobre o sistema eletrônico e arrematou suas publicações com a hashtag #fraudeeleitoral. Já o parlamentar sugeriu em um vídeo que as urnas eletrônicas brasileiras passam pela Venezuela, o que é falso.

Também aparecem em meio aos promotores de suspeitas infundadas de fraude que obtiveram maior audiência o auditor e consultor de empresas Antonio D’Agostino (três posts e pelo menos 24 mil impressões), o pecuarista rondoniense Bruno Scheid (duas postagens com no mínimo 20 mil exibições) e o jornalista Júnior Gurgel (sete conteúdos que acumularam ao menos 20 mil impressões).

D’Agostino argumentou que há provas de fraudes nas urnas eletrônicas. Para sustentá-las, afirmou que uma auditoria constatou irregularidades nas eleições municipais de Guarulhos em 2004, ano em que concorreu a vereador pelo PV. O TSE (Tribunal Superior Eleitoral), no entanto, já desmentiu o auditor, indicando o uso de “dados infundados e incorretos” para mostrar “uma suposta incongruência no resultado do pleito”. A Agência Lupa também checou a alegação e a classificou como falsa com argumentos semelhantes.

O pecuarista, por sua vez, disse que há “iminente perigo de fraude na urna eletrônica nas eleições gerais do ano que vem”, o que é refutado pelo TSE. Pelas redes sociais, bolsonaristas têm difundido que a recusa à proposta do voto impresso representa um esquema a fim de eleger o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em 2022. Gurgel também impulsionou posts falando sobre fraudes nas urnas.

Investidores do voto impresso

Três parlamentares e dois influenciadores bolsonaristas despontaram neste ano como os que mais gastaram para promover voto impresso no Facebook. A deputada federal Paula Belmonte (Cidadania-DF) foi responsável sozinha por mais de 40% do total de impressões dos anúncios encontrados, a um custo entre R$ 5.200 e R$ 6.800.

Já Lincoln Portela (PL-MG) aplicou um valor entre R$ 700 e R$ 1.400 em oito posts exibidos ao menos 157 mil vezes; enquanto Alceu Moreira (MDB-RS) angariou no mínimo 100 mil impressões em apenas uma postagem que custou entre R$ 200 e R$ 299.

Por fim, destacaram-se o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira (cinco mensagens e pelo menos 91 mil impressões) e o administrador de empresas Danilo Barnabé, com 10 posts mostrados pelo menos 92 mil vezes. Em das publicações promovidas, Barnabé também afirmou que uma “fraude está sendo preparada” para que Lula retorne à Presidência.

Outro lado

O Radar Aos Fatos entrou em contato com todos os perfis mencionados nesta reportagem.

Antonio D’Agostino afirmou que os fatos relatados nas publicações impulsionadas “estão fundamentados em documentos autenticados pela própria Justiça Eleitoral”. Disse ainda que “não é proibido ou ilegal impulsionar conteúdo verdadeiro” e que “auditar a urna eletrônica e mostrar os resultados da auditoria não é fake news muito menos desinformação”. Quanto à checagem do próprio TSE, informou que solicitou ao tribunal a correção do “texto falso que publicaram”. “Caso não seja feita a retratação, caberá processo por calúnia e difamação”, acrescentou o auditor.

Já o Instituto Plínio Corrêa de Oliveira, por meio de seu porta-voz Frederico Viotti, disse que a implementação do voto impresso é uma “questão de transparência” necessária para dar tranquilidade à “parte da sociedade que tem demonstrado receio crescente com um sistema de contagem que não é publicamente acompanhado''. “Em uma democracia, a confiabilidade do sistema não pode estar nas mãos apenas de técnicos, por melhores e mais honestos que sejam esses técnicos, mas deve permitir que o eleitor médio, comum, entenda o processo de votação e acompanhe a contagem dos votos”, argumentou Viotti.

Os demais não responderam ao pedido de posicionamento.

Metodologia

O Radar Aos Fatos coletou, por meio da API da Biblioteca de Anúncios do Facebook, 1.330 posts promovidos na plataforma neste ano (entre 1º de janeiro e 16 de agosto) que continham 40 termos relacionados à proposta do voto impresso e ao sistema eleitoral brasileiro (fraude eleitoral e #VotoImpressoJá, por exemplo).

Depois, analisou individualmente cada uma das publicações e as classificou de acordo com dois critérios: se defendiam o voto impresso e se reproduziam desinformação sobre o sistema eleitoral.

Referências
1. Facebook (1, 2 e 3)
2. Câmara dos Deputados
3. G1 (1 e 2)
4. Aos Fatos (1, 2 e 3)
5. TSE
6. Agência Lupa

sobre o

Radar Aos Fatos faz o monitoramento do ecossistema de desinformação brasileiro e, aliado à ciência de dados e à metodologia de checagem do Aos Fatos, traz diagnósticos precisos sobre campanhas coordenadas e conteúdos enganosos nas redes.

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