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Antropólogo preso em terra indígena não é militante de esquerda

Por Luiz Fernando Menezes

18 de fevereiro de 2020, 13h11

Publicações que circulam nas redes sociais enganam ao afirmar que um homem que aparece em um vídeo sendo preso em uma terra indígena na Amazônia seria um militante de esquerda que ainda acha que o governo é do PT (veja aqui). Na verdade, as imagens mostram o antropólogo Edward Luz, que se identifica em suas redes sociais como de direita e bolsonarista, e que foi detido por fiscais do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) ao se recusar a deixar o local.

Na ocasião, Luz abordou funcionários do Ibama que retiravam gado da terra indígena Ituna-Itatá, no Pará. Ele mesmo gravou as imagens e as compartilhou em seu Twitter, onde afirmou que tentou suspender a “destruição de patrimônio e retirada de população em situação de fragilidade social”. O Ministério Público Federal e o Ministério do Meio Ambiente, no entanto, reafirmaram a legalidade das operações de fiscalização conduzidas pelo Ibama.

A desinformação sobre o posicionamento político do antropólogo foi publicada por páginas de direita, como República de Curitiba, em nesta terça-feira, já havia sido compartilhada ao menos 25 mil vezes no Facebook. As publicações foram marcadas por Aos Fatos com o selo FALSO na ferramenta de verificação da rede social (saiba como funciona).


FALSO

GENERAL MOURÃO CHEGOU CHEGANDO NA AMAZÔNIA - DEU RUIM PARA AS ONGS. Olha aí um Esquerda chegando nas Terras Indígenas, achando que o Governo era do PT. Agora quem manda não são mais as ONGs. É o Vice Presidente Mourão. Amazônia agora é do Brasil.

O homem que aparece em vídeo sendo preso na terra indígena Ituna-Itatá (PA) não é um militante de esquerda, como afirmam publicações nas redes sociais. Trata-se de Edward Luz, antropólogo bolsonarista que foi detido no último domingo (16) por agentes do Ibama após se recusar a deixar a área. O vídeo foi gravado e publicado pelo próprio antropólogo em suas redes sociais:

Em outras publicações no Twitter e no Facebook, Luz deixa claro seu posicionamento político. Após a viralização do vídeo, por exemplo, ele publicou: “Caros parceiros conservadores, liberais na economia e do espectro político de Direita e de todos aqueles que prezam pela verdade: preciso de vossa ajuda para contar a minha versão dos fatos”. Mais tarde, Luz também tuitou que não era “ongueiro” ou “esquerdista”.

Ituna-Itatá. No último domingo (16), os fiscais do Ibama faziam uma operação de retirada de gado na Ituna-Itatá quando foram abordados por Edward Luz. Como mostra o vídeo que ele mesmo gravou, o antropólogo diz que estava no local para fazer cumprir uma ordem do Ministério do Meio Ambiente e suspender a “destruição de patrimônio e retirada de população em situação de fragilidade social”. Luz argumenta, ainda, que participou de uma reunião com o ministro Ricardo Salles (Meio Ambiente) no dia 11 de fevereiro, quando teria sido “acordado que nenhum patrimônio de população em situação de fragilidade será destruído”. Como Luz se recusou a deixar o local, os fiscais realizaram a detenção do antropólogo, que foi solto horas depois.

De fato, houve uma reunião entre representantes do MPF (Ministério Público Federal) e o Ministério do Meio Ambiente naquele dia para discutir ações de fiscalização na Ituna-Itatá. No entanto, não foi decidido naquele momento que as operações deveriam ser suspensas. Segundo nota divulgada pelo MPF, os órgãos “reafirmaram a legalidade de todas as operações de fiscalização conduzidas pelo Ibama, informando que há respaldo legal tanto para a retirada de pessoas quanto para a destruição de maquinário apreendido no local”.

De acordo com o MPF (Ministério Público Federal), a terra indígena Ituna-Itatá foi onde ocorreu o maior desmatamento do país em 2019 (13% do total de devastação apurado pelo Prodes no ano). Em janeiro de 2020, mais mil hectares já teriam sido desmatados na região, que ainda não é demarcada. Uma das motivações dos desmatamentos apontada pelo Ibama seria a abertura de pastagens para criação de gado.

Outro lado. Aos Fatos entrou em contato com a página República de Curitiba para apontar o erro de sua publicação e também com o antropólogo Edward Luz, para que ele pudesse se posicionar sobre a checagem. Até a publicação deste texto, no entanto, não houve nenhum retorno.

A peça de desinformação também foi checada pela Agência Lupa.

Referências:

1. Folha de S.Paulo
2. MPF (Fontes 1 e 2)

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